terça-feira, 29 de novembro de 2011

Crônica: A dança da maçã / Autor: Luis Fernado Veríssimo

     Antônio chegou na hora marcada. Ainda tinha a chave do apartamento, mas preferiu bater. Luiza abriu a porta. Os dois se cumprimentaram secamente. 
     - Oi.
     - Oi.
     Antônio fez um gesto indicando os dois homens que estavam com ele. Um senhor e um mais moço.
     - Este é o seu Molina e este... Como é seu nome mesmo?
     - Arlei, disse o mais moço.
     - Arlei. Eles vieram me ajudar com a mudança.
     - Bom dia - disse Luiza. - Já está tudo mais ou menos separado.
     Algumas caixas de papelão e sacolas de plástico, uma lâmpada articulada de mesa de desenho, a mesa de desenho desmontada, uma taça de metal. Tudo junto perto da porta. 
     - Eu resolvi levar a poltrona - disse Antônio.
     - Tudo bem - disse Luiza.
     - É isso aí, pessoal - disse Antônio, abrindo os braços para mostrar o que seria levado. Isto, e aquela poltrona ali.
     Seu Molina estava examinando a taça.
     - É para o casal - disse.
     A inscrição na taça era "Campeões do Declaton dos Casais, Hotel da Flores, 1992 - Antônio e Luiza". O Declaton dos Casais incluía corrida do saco, corrida de pedalinho no lago do hotel e a dança da maçã. Uma maçã era colocada entre os joelhos do casal e eles tinham de fazê-la chegar à boca sem usar as mãos.
     - Eu não quero a taça - disse Luiza.
     - Eu também não - disse Antônio.
     - 1992... disse o seu Molina. - Era a lua-de-mel?
     Luiza e Antônio se entreolharam, mas só por um segundo.
     - Mais ou menos - disse Antônio.
     - Quem diria, não é? - disse o seu Molina.
     - O quê?
     - Em 1992. Que ia acabar assim.
     Antônio não podia dizer para o seu Molina não se meter na vida deles. Afinal, era um senhor. Pediu para o Arlei:
     - Vamos começar?
     Mas o Arlei estava mostrando um álbum que tirara de uma das sacolas de plástico.
     - Álbum de fotografia. Vai também?
     - Vai - disse Luiza. Tudo que está nas sacolas vai embora.
     Arlei estava olhando para o álbum. Mostrou para o seu Molina:
     - Olha os dois na praia.
     E fez um aceno de cabeça para Luiza, com as pontas da boca puxadas para baixo, querendo dizer "Sim senhora, hein?", e que a Luiza de biquíni não era de se jogar fora. Mas o seu Molina estava sério, olhando para Luiza.
     - Você não quer ficar com o álbum?
     Luiza perdeu a paciência.
     - Não quero ficar com nada disto, entende? O que está nas caixas e nos sacos, é para ir embora. São dele.
     - Podemos começar? - pediu Antônio.
     Arlei estava examinando os CDs dentro de outra sacola.
     - A divisão dos CDs... - disse. - Foi de comum acordo ou...
     - Eu fiquei só com os que já eram meus.
     - Você não quer examinar?
     A pergunta de Arlei era para Antônio.
     - Não. Isso tudo já estava combinado - respondeu Antônio. E, pegando uma das sacolas do chão para dar o exemplo, pediu. Vamos começar a levar para o caminhão?
     Mas Arlei continuava a examinar os CDs e seu Molina continuava com a taça nas mãos.
     - E a taça? - perguntou o seu Molina.
     - O senhor quer ficar com ela? - Pode ficar.
     - Foi vocês que ganharam - disse o seu Molina. E depois: - O que era o Declaton dos Casais?
     - Tinha de tudo. Corrida de saco, corrida de pedalinhos, dança da maçã...
     Seu Molina e Arlei, um uníssono:
     - Dança da maçã?
     - É. Colocaram uma maçã entre as pernas de cada casal, na altura dos joelhos, e ganhava quem conseguisse que a maçã chegasse na boca, para ser mordida, sem usar as mãos. Lembra, Lu?
     Luiza então estava sorrindo com a lembrança.
     - É. A gente tinha de se contorcer toda, para fazer a maçã andar. Quem deixasse cair no chão, perdia.
     - E vocês conseguiram morder a maçã?
     - Conseguimos. Não foi fácil, mas conseguimos.
     - Lembra do casal cearense, Lu?
     - Lembro! Ela foi ajudar com o joelho e acabou acertando o marido bem no... Bem ali.
     - E ele saiu pulando e gritando "Mulher, não maltrate o que é seu!"
     Os dois deram risadas, depois Antônio ficou sério e disse:
     - Bom, mas chega de lembranças. Vamos fazer essa mudança. Se o senhor quiser pode ficar com a taça, seu Molina.
     - Eu não. Uma lembrança destas, de um tempo tão alegre... Nenhum de vocês quer ficar com ela, mesmo?
     - Está bem, eu fico.
     Antônio e Luiza tinham falado ao mesmo tempo. E se corrigiram ao mesmo tempo:
     - Fica você.
     - Fica você.
     Seu Molina perguntou:
     - Vocês têm certeza que não querem pensar mais um pouquinho sobre isto?
     - Sobre a taça?
     - Sobre a separação. Só mais alguns dias. Depois nos chamem para fazer a mudança. Ou não nos chamem.
     Arlei sacudiu a sacola com os CDs e acrescentou:
     - Assim vocês têm mais tempo para pensar na divisão dos CDs. Na minha experiência, a divisão dos CDs é sempre o que dá mais problemas, depois.
     Luiza e Antônio estavam se olhando.
     - O que você acha? - Perguntou Luiza.
     - Não sei... - disse Antônio.
     Seu Molina e Arlei saíram e fecharam a porta em silêncio e deixaram os dois conversando.
     ...
     Naquela noite, depois do amor, Luiza perguntou a Antônio de onde tinha saído aqueles dois, Arlei e seu Molina, e Antônio respondeu que os escolhera ao acaso, na rua. Eles tinham um caminhão com uma placa do lado: "Mudanças, carreto, etc."
     - Bendito et cetera - disse Luiza, puxando o Antônio de novo.

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