sábado, 19 de novembro de 2011

Poesia: A timidez / Autor: Pablo Neruda

Apenas soube, só, que eu existia
e que poderia ser, ir continuando,
tive medo daquilo, desta vida,
e quis que não me vissem
que não conhecessem minha existência.
Ficando magro, pálido e ausente,
não quis falar para que não pudessem
reconhecer minha voz, não quis ver
para que não me vissem,
andando, me colei contra o muro,
uma sombra que se movimentasse.

Eu tinha me vestido
de telhas rotas, de fumo,
para seguir ali, mas invisível,
estar presente em tudo, mas distante,
guardar a própria identidade obscura
atada ao ritmo desta primavera.

Um rosto de menina, um golpe puro
de um sorriso partindo em dois o dia
como em dois hemisférios de laranja,
já mudara eu de rua,
ansioso pela vida e temeroso,
e perto da água sem beber o frio,
perto do fogo sem beijar a chama,
e me cobriu uma máscara de orgulho,
e fiquei magro, hostil como uma lança,
sem escutar ninguém
- porque eu é que impedia - 
encerrado
como a voz de um cachorro ferido
desde o fundo de um poço.

Imagem: Fabian Perez.