sábado, 10 de dezembro de 2011

Conto: A oferta do destino / Autora: Florbela Espanca


     (à Vina)
     Um dia, o destino, trôpego velho de cabelos cor da neve, deu-me uns sapatos e disse-me:
     - Aqui tens estes sapatos de ferro, calça-os e caminha... Caminha sempre, sem descanso nem fadiga, vai sempre avante e não te detenhas, não pares nunca!... A estrada da vida tem trechos de céu e paisagens infernais; não te assuste a escuridão, nem te deslumbres com a claridade; nem um minuto sequer te detenhas à beira da estrada; deixa florir os malmequeres, deixa cantar os rouxinois. Quer seja lisa, quer seja alcantilada a imensa estrada, caminha, caminha sempre! Não pares nunca! Um dia, os sapatos hão de romper-se; deter-te-ás então. É que terás encontrado, enfim, os olhos perturbadores e profundos, a boca embriagante e fatal que há de prender-te para todo o sempre!
     Isto disse-me um dia o destino, trôpego velho de cabelos cor da neve.
     Calcei os sapatos e caminhei, o luar era profundo; às vezes, cantavam nas matas os rouxinois... Outras vezes, ao sol ardente do meio-dia desabrochavam as rosas, vermelhas como beijos de sangue; as borboletas traziam nas asas, finas como farrapos de seda, os perfumes delirantes de milhares de corolas! Outras vezes ainda, nem uma estrela no céu, nem um perfume na terra, e eu ouvia a meus pés a voz de algum imenso abismo.
     Passei pelo reino do sonho, pelo país da esperança e do amor que, ao longe, banhado pelo sol, dá a impressão duma imensa esmeralda, e vi também as terras tristes da saudade, onde o luar chora noite e dia!
     Não me detive nem um só instante! O coração ficou-me a pedaços dispersos pelos caminhos que percorri, mas eu caminhei sempre, sem fraquejar um só momento!...
     Há muito tempo que ando, tenho quase cem anos já, os meus cabelos tomam-se da cor do linho, e o meu frágil corpo inclina-se suavemente para a terra, como uma fraca haste sacudida pela nortada. Começo a sentir-me cansada, os meus passos vão sendo vagarosos na estrada imensa da vida! E os sapatos inda se não romperam!
     Onde estareis vós, ó olhos perturbadores e profundos, ó boca embriagante e fatal que há de prender-me para todo o sempre?!...

Imagem: http://veinsofmercury.deviantart.com/art/Paths-68939259?q=boost%3Apopular%20paths&qo=0