quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Crônica: Prato do dia / Autora: Maria Esther Torinho

     Arnaldo é um trabalhador comum que, como muita gente, não tem tempo para ir em casa almoçar; costuma frequentar essas pequenas lanchonetes/restaurantes, onde se servem refeições comerciais e pratos do dia. Geralmente esses lugares têm um esquema mais ou menos fixo: comercial com bife, picadinho ou frango, ou o prato do dia, o qual segue mais ou menos o calendário abaixo:

PRATO DO DIA:
2ª feira - Virado à Paulista
3ª feira - Bife à rolê com purê e arroz
4ª feira - Feijoada
5ª feira - Macarrão com frango
6ª feira - Filé de peixe com maionese
Sábado - Feijoada

     Pois bem. É segunda-feira e Arnaldo já trabalhou metade do dia; quando vai ao restaurante, o preço do virado é muito pesado para o seu orçamento; ele vira e revira os bolsos e o dinheiro não dá para pagar o virado, nem o paulista nem qualquer outro que houvesse. O estômago vira e revira de fome, a cabeça, vira e revira de insatisfação.
     Na terça-feira, o bife à rolê é ele mesmo, Arnaldo, enrolado e afogado nas contas a pagar, a própria batata, cozida no vapor do ônibus superlotado que toma para trabalhar, transtornada e transformada em purê de dívidas.
     Na quarta, nem pensar em comer feijoada, o prato mais caro da semana. Arnaldo já sabe que a feijoada é ele mesmo, uma mistura de "carne de segunda", que bem poderia subir um pouco na vida, como no caso do prato de origem humilde, que faz a festa dos brasileiros, mesmo nas "casas grandes" de hoje. Mas cadê a oportunidade?
     Na quinta-feira, o macarrão com frango chama a atenção dos italianos por descendência ou por espírito, mas faltam-lhe as vitaminas necessárias a uma refeição equilibrada; além disso, o dinheiro é novamente insuficiente e ele se sente o próprio frango, frito na frigideira ou ensopado na panela dos problemas a resolver e do aluguel atrasado da casinha de fundos na periferia.
     Na sexta, para completar, novamente não dispõe do dinheiro para comer o peixe; sente-se, então, um peixe fora d'água, quando compara o seu salário com o custo de vida e percebe que não pode e não deve comer nada, caso contrário o dinheiro não vai dar para a condução de volta para casa. Além disso, pra quê comer maionese, se ele mesmo é o próprio legume picado?
     No fim de semana, ele ainda vai fazer um bico em bairro mais central, a fim de ganhar uns trocados a mais. É longe de casa e ele novamente vai à lanchonete/restaurante; a essa altura, confunde-se e lê "lanchorante". Porque, além de ser semi-analfabeto, traz a cabeça pesada de cansaço e dificuldades.
     Enfim, é sábado e de novo, o prato do dia é feijoada, porém não há dinheiro pra todo dia comer o prato do dia e ele então atravessa a rua e entra em uma pastelaria.
     Melhor pedir um pastel e, se der, um caldo de cana, ou engolir o pastel a seco e seguir em frente, que atrás vem muito mais gente.

Imagem: http://enjeru.deviantart.com/art/Snack-Bar-154526529?q=boost%3Apopular%20snack%20bar&qo=0