segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Oração Pai Nosso (reflexão)

Se em minha vida não ajo como filho de Deus, fechando meu coração ao amor, será inútil dizer: Pai Nosso

Se os meus valores são representados pelos bens da Terra, será inútil dizer: que estais no Céu


Se penso apenas em ser cristão por medo, superstição e comodismo, será inútil dizer: santificado seja o Vosso Nome


Se acho tão sedutora a vida aqui, cheia de supérfluos e futilidades, será inútil dizer: venha a nós o Vosso Reino


Se no fundo o que eu quero é que todos os meus desejos se realizem, será inútil dizer: seja feita a Vossa Vontade assim na Terra como no Céu


Se prefiro acumular riquezas, desprezando meus irmãos que passam fome, será inútil dizer: o pão nosso de cada dia nos dai hoje


Se não me importo em ferir, injustiçar, oprimir e magoar aos que atravessam o meu caminho, será inútil dizer: perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido


Se escolho sempre o caminho mais fácil, que nem sempre é o caminho do Cristo, será inútil dizer: e não deixeis cair em tentação


Se por minha vontade procuro os prazeres materiais e tudo o que é proibido me seduz, será inútil dizer: mas livrai-nos do Mal


Se sabendo que sou assim, continuo me omitindo e nada faço para me modificar, será inútil dizer: Amém.


Imagem: http://christmas4u.tumblr.com/post/34070306473

domingo, 23 de dezembro de 2012

Cordel: A, B, C, dos idôzo / Autor: José Artur de Loiola


Com A eu rimo Amizade
Dos velhos de Lisieux
Com muita satisfação
Agora vou escrever
Da nossa tecera idade
Basta a felicidade
E saúde pra viver.

Com B eu rimo Bondade

Que tem dentro do salão
Com muita fé em Deus
E a Vigem da Conceição
Brincando com aligria
Idôzo tem simpatia
E também tem devoção.

Com C eu rimo Consciência

Que o nosso idôzo tem
São caumo, são educado,
Não da piada em ninguém
Corajôzo e tem respeito
E todos são satisfeito
Eu dou o meus parabem.

Com D eu rimo Dança

Que o idôzo se rebola
Quem nunca dançou aprende
Pois aqui é uma escola
Dançando o velho faz fisca
Mesmo sem puder arisca
Se não os nervos enrola.

Com E eu rimo enrolado

O que não quiser dançar
Chega em nossa reunião
Cuida logo em se sentar
Encostado na cadeira
Tendo saúde não queira
Este forró dispensar.

Com F eu rimo Famôzo

idôzo dansador
Que dizemrola dansando
Este é que do valor
Forte para dansar
Faz a coluna esticar
Velho assim não sente dor.

Com G eu rimo Garantida

A idóza dansadeira
Esta sei que tem saúde
No salão é de primeira
Garôta de 15 ano
Fica até le invegando
Diz ou velha fofoqueira.

Com H eu rimo Hora

Que o encontro comessa
As 4 horas da tarde
Todos idôzos se apressa
Horando já ná chegada
Rezando com as mãos dada
Até parece promessa.

Com I eu rimo Idôzo

Que é o nosso estatuto
Na nossa teseira idade
Tem valor absoluto
Pois o idôzo é direito
Apenas nosso defeito
É porque somo matuto.

Com J eu rimo José

Se tem a teseira idade
Não reclame dese velho
Pessa a Deus felicidade
Jesus quem da boa vida
Saúde e vida coprida
E prazer da musidade.

Com L eu rimo Luz

De nosso Deus puderoso
Nos livre dos maginal
Dos momento pirigozo
Lumine a nossa idade
De muita felicidade
Pra todos jove idôzo.

Com M eu rimo Maria

As idóza assosiada
Maria é Mãe de Jesus
Uma letra abemsuada
Maria do Sauvador
Pois pessa Nosso Senhor
Proteja nossa morada.

Com N eu rimo Nubia

Uma minina educada
Professora inteligente
Com os idôzo é comportada
Nubia é bem competente
O seu serviço é desente
Não aburese com nada.

Com O eu rimo Oruvalho

Caindo encima das rozas
Pois a velise eu comparo
Com flores que foi cheroza
Hoje a flor já se venceu
As fruta amadureceu
E esta fruta é gostosa.

Com P eu rimo Passado

Que eu tive na musidade
Muito ligeiro passou
Ainda sinto saudade
Mais gravo dentro do peito
E tembém sou satisfeito
Na minha tecera idade.

Com Q eu rimo Quantia

Tão pouca que é criança
O jovem é muito ligeiro
Feliz quem velho aucança
Quantidade mais comprida
É muito feliz na vida
A nossa preseverança.

Com R eu rimo Riqueza

Do valor tendo saúde
Se o idôzo é sadio
É cuberto de virtude
Rico sem ter dieiro
É saudave é verdadeiro
Pois dieiro não me ilude.

Com S eu rimo Saudade

Do tempo que fui souteiro
Eu nunca fui brincaião
Nem andava com dieiro
Saúde tinha dimais
No meu tempo de rapais
Fui ativo e verdadeiro.

Com T eu rimo Tempo

Aqui dentro do salão
Se passa muito ligeiro
A nossa reunião
Velho dança no forró
Escorre tanto suó
De moiá até o chão.

Com U eu rimo Urgente

É a danza do idôzo 
Pois não pode demorar
Que o velho fica nervôzo
Urgente para dançar
Custôza pra trabalhar
Sempre o velho é priguisôzo.

Com V eu rimo Verdade

Que as letras se formou
Escrevi com atenção
Que o idôzo  dou valor
Verdade pura sagrada
Nossa vida abensuada
Deus do Céu abensuou.

Co X eu rimo Xote

Que o velho ainda dança
Com os pés já pezado
Ainda sacode a pança
Xote, vausa, um baião
Velinho pende no chão
Mais ainda se balança.

Com Z eu rimo Zangado

Que não veio acompanhar
A nossa reunião
Não dá valor o lugar
Zangado não da valou
idôzo dançadou
Vem aqui para brincar.

Escrevi este A, B, C,

Não foi para defamá
Gosto destes idôzos
Eu fiz para ilugia
Eu gosto da puizia
Escrevi por sipatia
Terminei na letra A.

Imagem: http://krazymonkeboy.deviantart.com/

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Discurso: Mahatma Gandhi sobre o mistério da oração.

"Sem oração, não pode haver consciência da própria fraqueza. A oração é a chave que abre a porta da manhã e fecha a porta da noite. Só de Deus, por meio da oração, vem toda a nossa força. 

Rezar não é pedir. Rezar é a respiração da alma.

Encontrei gente que inveja minha paz. Esta paz vem-me da oração. Não sou um homem de cultura, mas penso, humildemente, ser um homem de oração.

A oração salvou-me a vida. Sem ela eu estaria louco, há muito tempo. Se consegui libertar-me do desespero, foi graças a oração.

A oração não foi parte da minha vida, como o foi a verdade. A oração desabrochou simplesmente da necessidade, quando me encontrava em situações nas quais não poderia absolutamente ser feliz, sem ela.

Com o passar do tempo a minha fé em Deus aumentou, e o desejo de rezar tornou-se irresistível.

Para viver no meio dos homens é necessária uma força eficaz, absoluta: a da oração. O corpo humano pode viver, temporariamente, sem alimento. Alma, sem oração, morre. O jejum da oração não existe. Rezar é estar com Deus."

Imagem: http://photolynns.tumblr.com/post/28693625975

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Parábola Simples / Autor: Chico Xavier (ditado pelo espírito Irmão X)

     Diversos aprendizes rodeavam o Senhor, em Cafarnaum, em discussão acesa, com respeito ao poder da palavra, acentuando-lhes os bens e os males.
     Propunham alguns o verbo contundente para a regeneração do mundo, enquanto outros preconizavam a frase branda e compreensiva.
     Reparando o tom de azedia nos companheiros irritadiços, o Mestre interferiu e contou uma parábola simples.
     - Certa feita - narrou, com doçura -, o Gênio do Bem, atendente à prece de um lavrador de vida singela, emitiu um raio de luz e insuflou-o sobre o coração dele, em forma de pequenina observação carinhosa e estimulante, através de uma boca otimista. No peito do modesto homem do campo, a fagulha acentuou-se, inflamando-lhe os sentimentos mais elevados numa chama sublime de ideal do Bem, derramando-se para todas as pessoas que povoavam a paisagem.
     Em breve tempo, o raio minúsculo era uma fonte de claridade a criar serviço edificante em todos os círculos do sítio abençoado; sob a sua atuação permanente, os trigais cresceram com promessas mais amplas e a vinha robusta anunciava abundância e alegria.
     Converteu-se o raio de luz em esperança e felicidade na alma dos lavradores e a seara bem provida avançou, triunfal, do campo venturoso para todas as regiões que o cercavam, à maneira de mensagem sublime de paz e fartura.
     Muita gente ocorreu aquele recanto risonho e calmo, tentando aprender a ciência da produção fácil e primorosa e conduziu para as zonas mais distantes os processos pacíficos de esforço e colaboração, que o lume da boa vontade ali instalara no ânimo geral.
     Ao fim de alguns poucos anos, o raio de luz transformara-se numa época de colheitas sadias para a tranquilidade popular.
     O Mestre fez pequeno intervalo e continuou:
     - Veio, porém, um dia em que o povo afortunado, orgulhando-se agora do poderio obtido com o auxílio oculto da gratidão que devia à magnanimidade celeste e pretendeu humilhar uma nação vizinha. Isso bastou para que grande brecha se abrisse à influência do Gênio do Mal, que emitiu um estilete de treva sobre um coração de uma pobre mulher do povo, por intermédio de uma boca maldizente.
     A infortunada criatura não mais sentiu a claridade interior da harmonia e deixou que o traço de sombra se multiplicasse indefinidamente em seu íntimo de mãe enceguecida... Logo após, despejou a sua provisão de trevas, já transbordante, na alma de dois filhos que trabalhavam num extenso vinhedo e ambos, envenenados por pensamentos escuros de revolta,  facilmente encontraram companheiros dispostos a absorver-lhes os espinhos invisíveis de indisciplina e maldade, incendiando vasta propriedade e empobrecendo vários senhores de rebanhos e terras, dantes prósperos.
     A perversa iniciativa encontrou vários imitadores e, em tempo curto, estabeleceram-se estéreis conflitos em todo o reino.
     Administradores e servos confiaram-se, desvairados, a duelo mortal, trazendo o domínio da miséria que passou a imperar, detestada e cruel para todos.
     O Divino amigo silenciou por minutos longos e acrescentou:
     - Nesta parábola humilde, temos o símbolo da palavra preciosa e da palavra infeliz. Uma frase de incentivo e bondade é um raio de luz, suscetível de erguer uma nação inteira, mas uma sentença perturbadora pode transportar todo um povo à ruína...
     Pensou, pensou e concluiu:
     - Estejamos certos de que se lhe oferece à paisagem, a treva rola também, enegrecendo o que vai encontrando. Em verdade, a ação é dos braços, mas a direção vem sempre do pensamento, através da língua. e sendo todo homem filho de Deus e herdeiro Dele, na criação e na extensão da vida, ouça quem tiver "ouvidos de ouvir".

Imagem: http://besttravelphotos.wordpress.com/

sábado, 8 de dezembro de 2012

Poesia: Desperdício / Autor: Carlos Drummond de Andrade

Solidão, não te mereço,
pois que te consumo em vão.
Sabendo-te embora o preço,
calco teu ouro no chão.

Imagem: http://by-enis.deviantart.com/

Música: Estranged / Compositor: Axl Rose

When you're talkin to yourself
And nobody's home
You can fool yourself
You came in this world alone (alone)

So nobody ever told you baby
How it was gonna be
So what'll happen to you baby
Guess we'll have to wait and see
One, two

Old at heart but I'm only 28
And I'm much too young
To let love break my heart
Young at heart but it's getting much too late
To find ourselves so far apart

I don't know how you're supposed
To find me lately
And what more could you ask from me
How could you say that I never needed you
When you took everything
Said you took everything from me

Young at heart an it gets so hard to wait
When no one I know can seem to help me now
Old at heart but I musn't hesitate
If I'm to find my own way out

Still talkin' to myself
And nobody's home (alone)

So nobody ever told us baby
How it was gonna be
So what'll happen to us baby
Guess we'll have to wait and see

When I find out all the reasons
Maybe I'll find another way
Find another day
With all the changing seasons of my life
Maybe I'll get it right next time
And now that you've been broken down
Got your head out of the clouds,
back down on the ground
And you don't talk so loud
And you don't walk so proud
Any more, and what for

Well I jumped into the river
Too many times to make it home
I'm out here on my own, an drifting all alone
If it doesn't show give it time
To read between the lines
'Cause I see the storm getting closer 
And the waves they get so righ
Seems everything we've ever known's here
Why must it drift away and die

I'll never find anyone to replace you
Guess I'll have too make it through, this time
Oh, this time
Without you

I knew the storm was getting closer
And all my friends said I was high
But everything we've ever known's here
I never wanted it to die

Para ver e ouvir: YouTube.
Imagem: Sabryna Keisy.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Acróstico de Navidad

Navidad, Navidad, que alegría yo siento en mi corazón, porque recuerdo aquel día cuando nació mi Señor.

A los pastores del campo un ángel les anunció: "No temáis, os traigo nuevas vuestro Mesías nació."

Vinieron sabios de Oriente guiados por una estrella, a adorar a Jesús Niño porque es Dios de cielo y tierra.

Inocente, dulce y puro es mi querido Jesús. Admirable, Consejero, el Príncipe de la luz.

Dame, Señor de tus fuerzas para amarte cada día y decir por todas partes que aquel Niño es el Mesías.

Aquel Niño del pesebre más tarde fue despreciado,  y colgado en una cruz allá en el Monte Calvario.

Dios único y Soberano ayúdame a serte fiel, para que al fin de esta vida tu rostro yo pueda ver.

Imagem: http://kiiw.deviantart.com/

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Crônica: E eis aí - Au! Au! - o Mundo Cão / Autor: Ivan Lessa

     Lá por volta de 1962, entrou para o trivial ligeiro de nosso léxico a expressão "mundo cão". Era quando queríamos nos referir a qualquer bizarria, que poderia se referir desde a uma nota lida em jornal espalhafatoso.
     Um homem matava, esfolava e comia o colega de trabalho na oficina. Mundo cão. Au! Au!
     Os pobres com sua pobreza: mundo cão. Tudo devido a dois filmes italianos com esse título que andaram fazendo sucesso mundo afora. Documentais. Exploravam o inusitado (não, não havíamos visto nada) e taca na tela mulheres africanas correndo atrás de presas exóticas ou para degluti-las ou pelo mero esporte beirando o olímpico de perseguir gente.
     E cemitérios para cães. E culinária americana na base de comer formiga, barata, larva ou minhoca. Um espasmo de nojo na platéia repleta e o gerente do cinema sorria satisfeito. Au! Au!
     Sabíamos que o mundo tinha dessas coisas, mas a televisão não mostrava e a televisão e a informática não eram mais que um par de brilhos nos olhos de quem ainda não bolara o ponto a que chegamos 50 anos depois. Vale tudo e tem de tudo para todos os gostos.
     Ninguém mais fala em "mundo cão". Limitamo-nos a ganir com o resto de nossos semelhantes. Somos todos documentais italianos agora. Já vimos de tudo e há, nesses assuntos mais esotéricos, ou um canal de TV ou um website especializado. Au! Au!
     As nossas estranhezas viraram lugar-comum e chavão. Nada do que é irrazoavelmente desumano nos é estranho. Pegamos intimidade com o inusitado.
     Não farei um desfile, mas abra comigo um jornal, que seguramente noticiaram pelos 7 ventos e 4 mares, ou vice-versa, essa notícia do rapaz japonês, é claro (por que "claro"?), que tem por nome Mao Sugiyama, e 22 aninhos de idade, que cortou fora os penduricalhos de sua genitália, cozinho e serviu para seletos gastrônomos de Tóquio.
     Não ganhou um único Uau! e faturou pouquinho. A carrocinha do Tempo acabou com os cães de 50 anos atrás. Foram-se os cães, ficou esse mundão que aí está...
     E metade dele desabalado por aí com uma tocha portanto a lendária tocha olímpica das Olimpíadas armada pelos nazistas nos Jogos Olímpicos de 1936. Não gostam de lembrar, mas que foi bolação do atilado sr. dr. Joseph Goebbles, ministro da propaganda do governo de outro sr. dr., este Adolf Hitler por nome.
     Correm com um símbolo nazista nas mãos e querem recorde no salto em altura e no tríplice, entre outros. Au! Au! e Bow Wow! como se late propriamente em inglês.
     Esta semana, na televisão, que nos aperta em seus braços fortes, lá estava a Marcha das Vadias ocorrida no Brasil, cujo objetivo não era outro senão mostrar que, numa sociedade machista, somos todos, digo, todas, umas boas vagabundas com muita honra. Au! Au!
     Passando a um patamar literário, que nem só de comer barata vive o homem, principalmente o homem brasileiro, é notícia de destaque que a editora Companhia das Letras está editando a terceira versão da, dizem, obra prima de James Joyce, Ulysses, desta vez com pissilone, o que deve mudar tudo, sem dúvida. 1112 páginas de fazer corar um Carlos Zéfiro de pedra, quero crer.
     Gente pretensiosa que não acaba mais afirmando que o notável artifício, que na verdade constitui de um único alçapão ocultando outros alçapões, é uma obra prima de humor e que dois ou três livrinhos poderiam servir como guia para sua melhor degustação.
     A tradução anterior foi feita por Antônio Hauaiss, e era, do começo ao fim, idiohauaissografia impagável, com destaque para um "Sins" final e, tentando se esconder lá no meio, a frasezinha "não nado neném nídulo tinha", que foi como ilustre imortal dicionarista decidiu que era a tradução mais correta para before born babe  bliss had. E o resto é Au! Au!, sim, senhor.
     A Cia. das Letras, para dar um plá de facilitação para o leitor em potencial, ou impotente, optou por uma capa labirintina de difícil leitura (é, eles começam a erguer empecilhos logo na capa e depois juram que aquele milhar e tanto de páginas não é mais que gozação e pleno humor) que mais parece bizantino invólucro incrementado de videogame para maiores de 18 anos.
     O Mundo Cão aí está a ganir em nossas fuças e a gente nem quer saber. Au! Au!

Imagem: http://theartyst.deviantart.com/

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mitologia romana: O nascimento e glória de Saturno

     Numa era muito antiga - tão antiga que antes dela só havia o caos - o mundo era governado pelo Céu, filho da Terra. Um dia, este, unindo-se à própria mãe, gerou uma raça de seres prodigiosos, chamados Titãs. Ocorre que o Céu - deus poderoso e nem um pouco clemente - irritou-se, certa feita, com as afrontas que imaginava receber de seus filhos. Por isto, decidiu encerrá-los nas profundezas do ventre da própria esposa, à medida que eles iam nascendo.
     - Aí ficarão para sempre, no ventre da Terra, para que nunca mais ousem desafiar a minha autoridade! - exclamou, colericamente, o deus soberano.
     A Terra, subjugada, teve de segurar em suas entranhas, durante muitas eras, aquelas turbulentas criaturas e suportar, ao mesmo tempo, o assédio insaciável e ininterrupto do marido. Um dia, porém, farta de tanta tirania, decidiu a mãe do mundo que um de seus filhos deveria libertá-la deste tormento. Para tanto escolheu Saturno, o mais jovem de seus rebentos.
     - Saturno, meu filho - disse a Terra, lavada em pranto - somente você poderá libertar-me da tirania de seu pai e conquistar para si o mando supremo do Universo!
     O jovem e ambicioso Titã sentiu um frêmito percorrer suas entranhas.
     - Diga, minha mãe, o que devo fazer para livrá-la de tamanha dor! - disse Saturno, disposto a tudo para chegar logo à segunda parte do plano.
     A Terra, erguendo uma enorme foice de diamante, entregou-a ao filho.
     "Tome e use-a da melhor maneira que puder!", disseram seus olhos, onde errava um misto de vergonha e esperança.
     Saturno apanhou a foice e não hesitou nem um instante: dirigiu-se logo para o local onde seu velho pai descansava. Ao chegar no azulado palácio erguido nos céus, encontrou-o ressonando sobre um grande leito acolchoado de nuvens.
     - Dorme, o tirano... - sussurrou baixinho.
     Saturno, depois de examinar por algum tempo o rosto do impiedoso deus, empunhou a foice e pensou consigo mesmo: "Realmente... demasiado soturno."
     E fez descer o terrível gume, logo abaixo da cintura do pobre Céu.
     Um grito terrível, como jamais se ouvira em todo o Universo, ecoou  na abóbada celestial, despertando toda a criação.
     - Quem ousou levantar mão ímpia contra o soberano do mundo? - gritou o Céu, com as mãos postas sobre a ensanguentada virilha.
     - Isto é pelos tormentos que infligiu à minha mãe, bem como a mim e a meus irmãos - respondeu Saturno, ainda a brandir a foice manchada de sangue.
     Os testículos do Céu, arrancados pelo golpe certeiro da foice, voaram longe e foram cair no oceano, com um baque tremendo. Em seguida, o deus ferido caiu, exangue, sobre seu leito acolchoado, sem poder dizer mais nada. As nuvens que lhe serviam de leito tingiram-se de um vermelho tal que durante o dia inteiro houve como que um infinito e escarlate crepúsculo. Saturno, eufórico, foi logo contar a proeza à sua mãe.
     - Isto é que é filho - disse a Terra, abraçada ao jovem parricida. Imediatamente foram soltos todos os outros Titãs, irmãos de Saturno. Este, por sua vez, recebeu a sua recompensa: era agora o senhor inconteste de todo o Universo.
     Quando a noite caiu, entretanto, escutou-se uma voz espectral descer da grande cúpula côncava dos céus:
     - Ai de você, rebento infame, que manchou a mão no sangue do seu próprio pai! Do mesmo modo que usurpou o mando supremo, irá também um dia perdê-lo...
     Saturno assustou-se a princípio, mas em seguida ordenou a seus pares que recomeçassem os festejos.
     - Ora, ameaçazinhas... Deus morto, deus posto! - exclamou, com um riso talhado no rosto.
     Mas aquela profecia, irritante como um mosquito, ficará ecoando na sua mente, até que Saturno, por fim, reconheceu-se também meio soturno:
     - Será que uma vitória, neste mundo, não pode ser nunca completa?

Imagem: Wikipédia.

Poesia: Soneto do Amor Total / Autor: Vinícius de Moraes

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Imagem: Sabryna Keisy.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Livro: No Jardim da Sabedoria / Autor: Almir Ribeiro Guimarães

1- "O amor é fiel ou não é amor. Se for passageiro é emoção ou paixão. Emoções e paixões podem hoje existir e amanhã desaparecer. O verdadeiro amor tem sabor de eternidade."

2- "Felizes os que sabem rir de si mesmos. Terão sempre tema para diversão. Felizes aqueles que sabem distinguir uma montanha de um montículo de terra. Serão poupados de muitos aborrecimentos."

3- "O amor manda que eu silencie os defeitos de outrem, mesmo se estes forem verdadeiros."

4- "O amor é paciente. Sabe esperar o amanhã para dar uma resposta. Sabe esperar para amanhã a compreensão de um gesto mal compreendido hoje."

5- "Felizes os que são capazes de descansar e dormir sem buscar muitas desculpas. São sábios."

6- "Amar é ter vontade de continuar a caminhada para fazer alguém feliz."

7- "Felizes vós que sabeis olhar seriamente as coisas pequenas e calmamente as coisas sérias. Ireis longe na vida."

8- "Felizes os que pensam antes de agir e que rezam antes de pensar. Evitaram muitas tolices."

9- "Felizes os que sabem calar e escutar. Aprenderão coisas novas."

10- "Felizes, sobretudo, vós que sabeis reconhecer o Senhor em todos aqueles que encontrardes. Encontrareis então a verdadeira Lua e a verdadeira Sabedoria."

11- "Não existe experiência mais dolorosa que não amar ninguém e por ninguém ser amado. Precisamos do ar puro do amor para sobreviver."

12- "O segredo do amor está em simplesmente amar sem esperar qualquer tipo de retribuição. Consiste em continuar a querer bem, mesmo na certeza de que não haja retribuição. Nunca nos arrependeremos de ter querido bem."

13- "Tenhamos alguém para querer bem e alguma coisa para fazer. Este é o segredo de uma velhice sempre jovem. Quem ama não envelhece."

14- "Felizes se souberdes admirar um sorriso e esquecer uma 'careta'. Vossa estrada será ensolarada."

15- "Felizes sereis vós se fordes capazes sempre de interpretar com benevolência as atitudes dos outros, mesmo se as aparências forem contrárias. Podereis fazer passar por ingênuos, mas a caridade tem esse preço."

16- "O amor pede que eu desculpe os gestos ingratos e as negligências repetidas."

17- "Felizes os que são atentos aos apelos dos outros, sem se considerarem indispensáveis. Serão semeadores de alegria."

18- "Não vivamos no passado, nem no futuro. Vivamos da melhor maneira possível o minuto presente com toda novidade e cheios de esperança."

19- "Felizes os que são suficientemente inteligentes para não se levarem por demais a sério. Serão apreciados em seu ambiente."

20- "Nada mais belo do que a solidariedade. Sentir-se só na caminhada da vida pode ser desesperador. Saber que existem rostos amigos, mãos que esperam nossas mãos, que juntos descobriremos caminhos novos e que juntos novas portas abriremos é extremamente consolador."

Imagem: http://www.skoob.com.br/livro/25819

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Citações / Diversos Autores

"O poeta é o traficante da liberdade."
- Júlio Barroso.

"A vida é toda ela memória, exceto por um momento presente indo embora tão rápido que você mal percebe ele ir."
- Tennessee Williams.

"É livre quem aprendeu a livrar-se daquilo que o impede justamente de ser livre."
- Wilson Chagas.

"Há aparências de dureza que ocultam tesouros de sensibilidade e de afeto."
- Júlio Diniz.

"Se destruíssemos todos os sonhos dos homens, a terra perderia suas formas e suas cores e nós adormeceríamos em uma cinzenta estupidez."
- Anatole France.

"O estilo é o espelho da alma."
- Miguel Couto.

"Os sábios educam pelo exemplo e nada há que avassale o espírito humano mais suave e profundamente do que o exemplo."
- Malba Tahan.

"A filosofia está escrita nesse grande livro - o Universo - que permanece continuamente aberto para todos nós."
- Galileu Galilei.

"Aquilo que mais secretamente tememos sempre acaba acontecendo."
- Albert Camus.

"Viajar é nascer e morrer a cada momento."
- Victor Hugo.

"As pessoas não entendem o que é a morte, porque a morte não é para ser entendida, é para ser apenas a morte. A morte é para ser vivida."
- Marcelo Paiva.

"Renunciar ao ódio, a vingança, aos vícios, aos ressentimentos, a inveja, eis o grande heroísmo."
- ?

"Rico é aquele que é pobre de necessidades."
- Carlos Romero.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Fábula: O Leão e o Ratinho / Autor: Esopo

     Um leão, cansado de tanto caçar, dormia espichado à sombra de uma boa árvore. Vieram uns ratinhos passear em cima dele e ele acordou.
     Todos conseguiram fugir, menos um, que o leão prendeu embaixo da pata. Tanto o ratinho pediu e implorou que o leão desistiu de esmagá-lo e deixou que fosse embora.
     Algum tempo depois, o leão ficou preso na rede de uns caçadores. Não conseguia se soltar, e fazia a floresta inteira tremer com seus urros de raiva.
     Nisso, apareceu o ratinho. Com seus dentes afiados, roeu as cordas e soltou o leão.

Uma boa ação ganha outra.

Imagem: http://feyrah.deviantart.com/

sábado, 3 de novembro de 2012

Lenda africana: O nascimento de Oxum

     Um dia Orunmilá saiu de seu palácio para dar um passeio acompanhado de todo o seu séquito. Em certo ponto deparou com outro cortejo, do qual a figura principal era uma mulher muito bonita.
     Orunmilá ficou impressionado com tanta beleza e mandou Exu, seu mensageiro, averiguar quem era ela. Exu apresentou-se ante a mulher com todas as reverências e falou que seu senhor, Orunmilá, gostaria de saber seu nome. Ela disse que era Iemanjá, rainha das águas e esposa de Oxalá.
     Exu voltou à presença de Orunmilá e relatou tudo o que soubera da identidade da mulher. Orunmilá, então, mandou convidá-la ao seu palácio, dizendo que desejava conhecê-la. Iemanjá não atendeu o seu convite de imediato, mas um dia foi visitar Orunmilá.
     Ninguém sabe ao certo o que se passou no palácio, mas o fato é que Iemanjá ficou grávida depois da visita a Orunmilá. Iemanjá deu à luz a uma linda menina. Como Iemanjá já tivera muitos filhos com seu marido, Orunmilá enviou Exu para comprovar se a criança era mesmo filha dele. Ele devia procurar sinais no corpo. Se a menina apresentasse alguma marca, mancha ou caroço na cabeça seria filha de Orunmilá e deveria ser levada para viver com ele.
     Assim foi atestado, pelas marcas de nascença, que a criança mais nova de Iemanjá era de Orunmilá. Foi criada pelo pai, que satisfazia todos os seus caprichos. Por isso cresceu cheia de vontades e vaidades, o nome dessa filha é Oxum.

Imagem: http://mitologiasereligioes.blogspot.com.br/2010/05/oxum.html

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Poesia: A injustiça / Autor: Pablo Neruda

Quem descobre quem sou descobrirá quem és.
E o como, e o por onde.
Toquei muito cedo toda a injustiça.
A fome não era só fome.
Mas a medida do homem
O frio, o vento eram também medidas.
Mediu cem fomes e caiu o levantado.
E nos cem frios foi enterrado Pedro.
Um só vento durou a pobre casa.
Aprendi que o centímetro e o grama,
colher e légua mediam a cobiça,
e que o homem assediado caía depressa
para um buraco, e já não mais sabia.
Não mais, e esse era o lugar,
o real presente, o dom, a luz, a vida,
isso era, padecer de frio e fome,
e não possuir sapato e tremer
frente ao juiz, frente ao outro,
a outro ser com espada ou com tinteiro,
aos empurrões cavando e cortando, assim,
fazendo pão, colhendo o trigo, a coser,
pregando cada prego que pedia madeira,
à terra penetrando como ao intestino
para tirar, às cegas, carvão crepitante
e mais ainda, subindo rios e cordilheiras,
cavalgando cavalos, movendo barcaças,
cozendo telhas, soprando vidros, lavando roupa,
de tal maneira que pareceria
tudo isto o reino recém levantando,
uva resplandecente no seu cacho,
quando o homem se decidiu a ser feliz,
não era, não assim. Fui descobrindo
a lei da desventura,
o trono de ouro ensanguentado,
a liberdade alcoviteira,
a pátria sem abrigo,

o coração ferido e fatigado,
e um rumor de mortos de lágrimas,
secos, como pedras que caem.
E então deixei de ser menino
porque compreendi que para o meu povo
não lhe permitiram a vida
e lhe negaram sepultura.

Imagem: http://mydearmilo.tumblr.com/

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Adivinhas

1- "Não tem forma, não tem jeito
      Mas vê-se a longa distância
      Não tem boca não tem peito,
      Vence qualquer discordância."

2- "Uma dama muito branca, toda de branco vestida; quanto mais alegre está, mais chora de arrependida."

3- "Uma senhora delicada
      com a saia redondinha,
      ao dançar numa casa
      deixa-a muito asseadinha."

4- "Tenho casas sem ser bairro, no meu nome casa tenho, sem ser cão protejo o dono, que me usa se lhe convenho."

5- "Qual é o bicho que anda com patas?"

6- "Qual é o pássaro que em gaiola não se prende, só se prende quando se solta, por mais alto que ele voe, preso vai e preso volta?"

7- "Uma casa com doze meninas.
      cada uma com quatro quartos,
      todas elas usam meias,
      nenhuma rompe sapatos."

8- "Sem voz encanto quem me ouve;
      tenho leito e não durmo;
      e, com o tempo, corro sempre."

9- "Uma viúva presumida, toda de luto vestida, e de flores coroada, e do velho perseguida? Quando o velho a persegue, ela faz a retirada."

10- "Água sem do céu cair,
        nem da terra nascer
        e que se não pode beber."

Respostas:
1-amor; 2-vela; 3-vassoura; 4-casaco; 5-pato; 6-papagaio de papel; 7-relógio; 8-rio; 9-noite; 10-lágrima

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Discurso: Martin Luther King na Marcha sobre Washington (Eu Tenho um Sonho)

"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia em que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob a sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.


Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.


Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.


Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhoso condição.


De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Essa nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".


Mas nós nos recusamos a creditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.


Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranquilizante do gradualismo.


Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.


Agora é o tempo para subir do vale do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.


Agora é tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.


Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação voltar aos negócios de sempre.


Mas há algo que eu tenho que dizer que meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processe de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente à nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.


E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"


Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississípi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.


Eu não esqueci que alguns de vocês vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de vocês vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Vocês são os veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississípi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos  

de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.


Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.


Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.


Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado do Mississípi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.


Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!


Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com o seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!


Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a Glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.


Esta é a nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livres. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.


"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto. Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos, de qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"


E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.


E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.


Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas de Nova Iorque.


Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.


Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.


Ouvirei os sinos da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.


Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na montanha de pedra da Geórgia.


Ouvirei o sino da liberdade na montanha da vigilância do Tennessee.


Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississípi.


Em todas as montanhas, ouvirei o sino da liberdade.


E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e em todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho espiritual negro: "Livre afinal, livre afinal. Agradeço ao Deus Todo-Poderoso, nós somos livres afinal."


Eu tenho um sonho."


Imagem: Wikipédia.