sábado, 25 de fevereiro de 2012

Conto: O Candidato Intelectual / Autor: Chico Xavier (ditado pelo espírito Irmão X)

     Conta-se que Jesus, depois de infrutíferos desentendimentos com doutores da lei, em Jerusalém, acerca dos serviços da Bom-Nova, foi procurado por um candidato ao novo Reino, que se caracterizava pela profunda capacidade intelectual.
     Recebeu-o o Mestre, cordialmente, e, em seguida às interpelações do futuro aprendiz, passou a explicar os objetivos do empreendimento. O Evangelho seria a luz das nações e consolidar-se-ia à custa da renúncia e do devotamento dos discípulos. Ensinaria aos homens a retribuição do mal com o bem, o perdão infinito com a infinita esperança. A Paternidade Celeste resplandeceria para todos. Judeus e gentios converter-se-iam em irmãos, filhos do mesmo Pai.
     O candidato inteligente, fixando no Senhor os olhos arguciosos, indagou:
     -A que escola filosófica obedecerá?
     -A escola do céu respondeu complacente, o Divino Amigo.
     E outras perguntas choveram, improvisadas.
     -Quem nos presidirá à organização?
     -Nosso Pai Celestial.
     -Em que base aceitará a dominação política dos romanos?
     -Nas do respeito e do auxílio mútuos.
     -Na hipótese de sermos perseguidos pelo Cinéreo, em nossas atividades, como proceder?
     -Desculparemos a ignorância, quantas vezes for preciso.
     -Qual o direito que competirá aos adeptos da Revelação Nova?
     -O direito de servir sem exigências.
     O rapaz arregalou os olhos aflitos e prosseguiu indagando:
     -Em que consistirá desse modo, o salário do discípulo?
     -Na alegria de praticar a bondade.
     -Estaremos arregimentados num grande partido?
     -Seremos, em todos os lugares, uma assembléia de trabalhadores atenta à Vontade Divina.
     -O programa?
     -Permanecerá nos ensinamentos novos de amor, trabalho, esperança, concórdia e perdão.
     -Onde a voz imediata de comando?
     -Na consciência.
     -E os cofres mantenedores do movimento?
     -Situar-se-ão em nossa capacidade de produzir o bem.
     -Com quem contaremos de imediatos?
     -Acima de tudo com o Pai e, na estrada comum, com as nossas próprias forças.
     -Quem reterá a melhor posição no ministério?
     -Aquele que mais servir.
     O candidato coçou a cabeça, francamente desorientado, e continuou, finda a pausa:
     -Que objetivo fundamental será o nosso?
     Respondeu Jesus, sem se irritar:
     -O mundo regenerado, enobrecido e feliz.
     -Quanto tempo gastará?
     -O tempo necessário.
     -De quantos companheiros seguros dispomos para início da obra?
     -Dos que puderem compreender-nos e quiserem ajudar-nos.
     -Mas não teremos recursos de constranger os seguidores à colaboração ativa?
     -No Reino Divino não há violência.
     -Quantos filósofos, sacerdotes e políticos nos acompanharão?
     -Em nosso apostolado, a condição transitória não interessa e a qualidade permanece acima
do número.
     -A missão abrangerá quantos países?
     -Todas as nações.
     -Fará diferença entre senhores e escravos?
     -Todos os homens são filhos de Deus.
     -Em que sítio se levanta as construções de começo? Aqui em Jerusalém?
     -No coração dos aprendizes.
     -Os livros de apontamento estão prontos?
     -Sim.
     -Quais são?
     -Nossas vidas...
     O talentoso adventício continuou a indagar, mas Jesus silenciou sorridente e calmo.
     Após longa série de interrogativas sem resposta, o afoito rapaz inquiriu ansioso:
     -Senhor, por que não esclareces?
     O Cristo afagou-lhe os ombros inquietos e afirmou:
     -Busca-me quando estiveres disposto a cooperar.
     E, assim dizendo, abandonou Jerusalém na direção da Galiléia, onde procurou os
pescadores rústicos e humildes que, realmente nada sabiam da cultura grega ou do Direito
Romano, mantendo-se, contudo, perfeitamente prontos a trabalhar com alegria e servir por
amor, sem perguntar.


Imagem: http://imagensbiblicas.wordpress.com/category/salvos/

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Música: Vento no Litoral / Compositores: Dado Villa Lobos

De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras


Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...


Agora está tão longe
ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim...


Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo
O tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem...


Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos,
Lembra que o plano
Era ficarmos bem...


Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Humrun
Cavalos-marinhos...


Sei que faço isso
Pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...


Imagem: Sabryna Keisy. 
Para ver e ouvir: YouTube.

Citações / Diversos Autores

"Sem alegria a humanidade não compreenderia a simpatia e o amor."
- Ramalho Ortigão.

"Amor e ódio são os dois mais poderosos afetos da vontade humana."
- P. Antônio Vieira.

"Se os meus amigos me fugirem, de mim fugirão todos os tesouros."
- Malba Tahan.

"Se não podes fazer da sua vida conforme seus sonhos, faça da sua vida um sonho."
- ?

"O fracasso é a oportunidade de se começar de novo, inteligentemente."
- Henry Ford.

"Não desperdice tempo, pois é dele que a vida é feita."
- Do filme: E o Vento Levou.

"O amor é parecido com o sol, uma nuvem pode cobrí-lo, mas nunca apagá-lo."
- ?

"Quando lemos um romance, tudo nos parece tão fácil, tão claro. Mas basta que nós mesmos amemos para vermos que ninguém sabe nada e que cada um deve decidir por si."
- Tchecov.

"A beleza não está no rosto e sim no interior do coração."
- Chaplin.

"Não ligue se não reconhecem o valor do seu trabalho. Pois o Sol é um dos mais lindos espetáculos... E no entanto quando ele nasce, a maioria da platéia está dormindo..."
- ?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Conto: A Capa de Santo / Autor: Chico Xavier (ditado pelo espírito Irmão X)

     Certo discípulo, extremamente aplicado ao Infinito Bem, depois de largo tempo ao lado do Divino Mestre recebeu a incumbência de servi-lo entre os homens da Terra.
     Desceu da Esfera Superior em que se demorava e nasceu entre as criaturas para ser carpinteiro.
     Operário digno e leal, muita vez experimentou conflitos amargurosos, mas, fervoroso, apegava-se à proteção dos santos e terminou a primeira missão admiravelmente.
     Tornou ao céu, jubiloso, e recebeu encargos de marinheiro.
     Regressou à carne e trabalhou assíduo, em viagens inúmeras, espalhando benefícios em nome do Senhor.

     Momentos houve em que a tempestade o defrontou ameaçador, mas o aprendiz, nas lides
do mar, recorria aos Heróis Bem-Aventurados e entesourou forças para vencer.
     Rematou o serviço de maneira louvável e voltou à Casa Celeste, de onde retornou ao mundo para ser copista.
     Exercitaram-se, então, pacientemente, nos trabalhos de escrita, gravando luminosos ensinamentos dos sábios; e, quando a aflição ou o enigma lhe visitaram a alma, lembrava-se dos Benfeitores Consagrados e nunca permaneceu sem o alívio esperado.
     Novamente restituído ao Domicílio do Alto, sempre louvado pela conduta irrepreensível, desceu aos círculos de luta comum para ser lavrador.
     Serviu com inexprimível abnegação à gleba em que renascera e, se as dores lhe buscavam o coração ou o lar, suplicava os bons ofícios dos Advogados dos Pecadores e jamais ficou
desamparado.
     Depois de precioso descanso, ressurgiu no campo humano para exercitar-se no domínio das
ciências e das artes.
     Foi aluno de filosofia e encontrou numerosas tentações contra a fé espontânea que lhe sustentava a alma simples e estudiosa; todavia em todos os percalços do caminho, implorava a cooperação dos Grandes Instrutores da Perfeição, que haviam conquistado a láurea da santidade, nas mais diversas nações, e atravessaram ilesas, as provas difíceis.
     Logo após, foi médico e surpreendeu padecimentos que nunca imaginara. Afligiram-se milhares de vezes ante as agruras de muitos destinos lamentáveis; refugiou-se na paciência, pediu socorro dos Protetores da Humanidade e, com o patrocínio deles, venceu, mais uma vez.
     Tamanha devoção adquiriu que não sabia mais trabalhar sem recurso imediato ao concurso dos Espíritos Glorificados na própria sublimação.
     Para ele, semelhantes benfeitores seriam campeões da graça, privilegiados do Pai Supremo ou súdito favorecidos do Trono Eterno. E, por isso, prossegui trabalhando, agarrando-se-lhes à colaboração.
     Foi alfaiate, escultor, poeta, músico, escritor, professor, administrador, condutor, legislador e
sempre se retirou da Terra com distinção.
     Vitorioso em tantos encargos foi chamado pelo Mestre, que lhe falou, conciso:
     - Tens vencido em todas as provas que te confiei e, agora, podes escolher a própria tarefa.
     O discípulo, embriagado de ventura, considerou sem detença:
     - Senhor, tantas graças tenho recebido dos Benfeitores Divinos, que, doravante, desejaria ser um deles, junto da Humanidade...
     - Pretenderias, porventura, ser um santo?- indagou o Celeste Instrutor, sorrindo.
     - Sim... - confirmou o aprendiz extasiado.
     O senhor, em tom grave, considerou:
     - O fruto que alimenta deve estar suficientemente amadurecido... Até hoje, na forma de operário, de artista, de administrador e orientador, tens estado a meu serviço, junto dos homens, junto de mim. Há muita diferença...
     Mas, o interlocutor insistiu, humilde, e o mestre não lhe negou a concessão.
     Renasceu, desse modo, muito esperançoso, e, aos vinte anos de corpo físico, recebeu do Alto o manto resplandecente da santidade.
     Manifestaram-se nele dons sublimes.
     Adivinhava, curava, esclarecia, consolava.
     A inteligência, a intuição e a ternura nele eram diferentes e fascinantes.
     E o povo, reconhecendo-lhe a condição, buscou-lhe, em massa, as bênçãos e diretrizes. Bons e maus, justos e injustos, ignorantes e instruídos, jovens e velhos, exigiram-lhe, sem consideração por suas necessidades naturais, a saúde, o tempo, a paz e a vida.
     Na categoria de santo, não podia subtrair-se à luta, nem desesperar, e por mais que fosse rodeado de manjares e flores, por parte dos devotos e beneficiários reconhecidos, não podia comer, nem dormir, nem pensar, nem lavar-se. Devia dar, sem reclamação, as próprias forças, à maneira da vela, mantendo a chama por duas pontas.
     Não valiam escusas, lágrimas, cansaço e serviço feito.
     O povo exigia sempre.
     Depois de dois anos de amargosa batalha espiritual, atormentado e desgostoso, dirigiu-se em preces ao Senhor e alegou que a capa de santo era por demais espinhosa e pesava excessivamente.
     Reparando-lhe o pranto sincero, o Mestre ouviu-o, compadecido, e explicou:
     - Olvidaste que, até agora, agiste no comando. Na posição de carpinteiro, modelavas a madeira; lavrador determinava o solo; médico, ordenavas aos enfermos; filósofo arregimentava idéias; músico, tangias o instrumento; escultor cinzelava a pedra; escritor dispunha sobre as letras; professor instruía os menos sábios que tu mesmo; administrador e legislador interferiam nos destinos alheios. Sempre te emprestei autoridade e recurso para os trabalhos de determinação... Para envergares a capa de santo, porém, é necessário aprender a servir...
     A fim de alcançares esse glorioso fim, serás, de ora em diante, modelado, brunido, aprimorado e educado pela vida.
     E enquanto o Mestre sorria complacente e bondoso, o discípulo em pranto, mas reconfortado, esperava novas ordenações para ingressar no precioso curso de obediência.


Imagem: http://aliancataubate.com/blog/tag/santidade/

Apólogo: Um Apólogo / Autor: Machado de Assis

     Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
     — Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
     — Deixe-me, senhora.
     — Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
     — Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
     — Mas você é orgulhosa.
     — Decerto que sou.
     — Mas por quê?
     — É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
     — Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
     — Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
     — Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
     — Também os batedores vão adiante do imperador.
     — Você é imperador?
     — Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos
da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
     — Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
     A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plicplic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
     Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
     — Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
     — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
     Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:      
     — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Imagem: http://www.superziper.com/2008/08/capa-para-guardar-edredom.html

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Música: Vapor Barato (flor da pele) / Compositores: Jards Macalé, Waly Salomão e Zeca Baleiro

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéisVou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navioEu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus
E não me importa, honey
Minha honey baby
Baby, honey babyOh, minha honey baby
Baby, honey baby

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto Mas eu quero esquecê-la, eu preciso
Oh, minha grande
Ah, minha pequena
Oh, minha grande obsessão

Oh, minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Honey baby, honey baby, ah

Ando tão a flor da pele
Que qualquer beijo de novela me faz chorarAndo tão a flor da pele
Que teu olhar flor na janela me faz morrerAndo tão a flor da pele
Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser
Ando tão a flor da peleQue a minha pele tem o fogo do juízo final
Um barco sem porto
Sem rumo sem vela
Cavalo sem celaUm bicho solto um cão sem dono um menino um bandido
Ás vezes me preservo
Noutras suicido

Imagem: ina-maria. 
Para ver e ouvir: YouTube.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Conto: Chapeuzinho Vermelho / Autor: Charles Perrault

Era uma vez uma menina que vivia numa aldeia; era a coisa mais linda que se podia imaginar. Sua mãe era louca por ela, e a avó mais louca ainda. A boa velhinha mandou fazer para ela um chapeuzinho vermelho, e esse chapéu assentou-lhe tão bem que a menina passou a ser chamada por todo mundo de Chapeuzinho Vermelho.
Um dia, tendo feito alguns bolos, sua mãe disse-lhe:
— Vá ver como está passando a sua avó, pois fiquei sabendo que ela está um pouco adoentada. Leve-lhe um bolo e este potezinho da manteiga.
Chapeuzinho Vermelho partiu logo para a casa da avó, que morava numa aldeia vizinha. Ao atravessar a floresta, ela encontrou o senhor Lobo, que ficou louco de vontade de comê-la; não ousou fazer isso, porém, por causa da presença de alguns lenhadores na floresta. Perguntou a ela aonde ia, e a pobre menina, que ignorava ser perigoso parar para conversar com um lobo, respondeu:
— Vou à casa da minha avó, para levar-lhe um bolo e um potezinho de manteiga que mamãe mandou.
— Ela mora muito longe? — quis saber o Lobo.
— Mora, sim! — falou Chapeuzinho Vermelho. —Mora depois daquele moinho que se avista lá longe, muito longe, na primeira casa da aldeia.
— Muito bem — disse o Lobo. — Eu também vou
visitá-la. Eu sigo por este caminho aqui, e você por aquele lá. Vamos ver quem chega primeiro.
O Lobo saiu correndo a toda velocidade pelo caminho mais curto, enquanto a menina seguia pelo caminho mais longo, distraindo-se a colher avelãs, a correr atrás das borboletas e a fazer um buquê com as florzinhas que ia encontrando.
O Lobo não levou muito tempo para chegar à casa da avó. Ele bate: toc, toc.
— Quem é? — pergunta a avó.
— É a sua neta, Chapeuzinho Vermelho — falou o Lobo, disfarçando a voz. — Trouxe para a senhora um bolo e um potezinho de manteiga, que minha mãe mandou.
A boa avozinha, que estava acamada porque não se sentia muito bem, gritou-lhe:
— Levante a aldraba, que o ferrolho sobe.
O Lobo fez isso e a porta se abriu. Ele lançou-se sobre a boa mulher e a devorou num segundo, pois fazia mais de três dias que não comia. Em seguida, fechou a porta e se deitou na cama da avó, à espera de Chapeuzinho Vermelho. Passado algum tempo ela bateu à porta: toc, toc.
— Quem é?
Chapeuzinho Vermelho, ao ouvir a voz grossa do Lobo, a princípio, ficou com medo; mas, supondo que a avó estivesse rouca, respondeu:
— É sua neta, Chapeuzinho Vermelho, que traz para a senhora um bolo e um potezinho de manteiga, que mamãe mandou.
O Lobo gritou-lhe, adoçando um pouco a voz:
— Levante a aldraba, que o ferrolho sobe.
Chapeuzinho Vermelho fez isso e a porta se abriu.
O Lobo, vendo-a entrar, disse-lhe, escondido sob as cobertas:
— Ponha o bolo e o potezinho de manteiga sobre a arca e venha deitar aqui comigo.
Chapeuzinho Vermelho despiu-se e se meteu na cama, onde ficou muito admirada ao ver como a avó estava esquisita, em seu traje de dormir. Disse a ela:
— Vovó, como são grandes os seus braços!

— É para melhor te abraçar, minha filha!
— Vovó, como são grandes as suas pernas!
— É para poder correr melhor, minha netinha!
— Vovó, como são grandes as suas orelhas!
— É para ouvir melhor, netinha!
— Vovó, como são grandes os seus dentes!
— É para te comer!
E assim dizendo, o malvado lobo se atirou sobre
Chapeuzinho Vermelho e a comeu.


Imagem: Sabryna Keisy.