sábado, 31 de março de 2012

Poesia: Vendaval / Autor: Fernando Pessoa

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,  
Não achas, soprando por tanta solidão,  
Deserto, penhasco, coval mais vazio  
Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano  
Faz louco lugar, caverna sem fim,  
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,  
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!  
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minh'alma do mundo! 

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!  
 

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, ó vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!  

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!

Imagem: Karat.   

quarta-feira, 28 de março de 2012

Conto: João e Maria / Autores: Irmãos Grimm

     Às margens de uma extensa mata existia, há muito tempo, uma cabana pobre, feita de troncos de árvore, na qual morava um lenhador com sua segunda esposa e seus dois filhinhos, nascidos do primeiro casamento. O garoto chamava-se João e a menina, Maria.
     A vida sempre fora difícil na casa do lenhador, mas naquela época as coisas haviam piorado ainda mais: não havia pão para todos.

     — Minha mulher, o que será de nós? Acabaremos todos por morrer de necessidade. E as crianças serão as primeiras…
     — Há uma solução… — disse a madrasta, que era muito malvada. — Amanhã daremos a João e Maria um pedaço de pão, depois os levaremos à mata e lá os abandonaremos.
     O lenhador não queria nem ouvir falar de um plano tão cruel, mas a mulher, esperta e insistente, conseguiu convencê-lo.

     No aposento ao lado, as duas crianças tinham escutado tudo, e Maria desatou a chorar.
     — João, e agora? Sozinhos na mata, estaremos perdidos e morreremos.
     — Não chore — tranqüilizou-a o irmão — Tenho uma idéia. Esperou que os pais estivessem dormindo, saiu da cabana, catou um punhado de pedrinhas brancas que brilhavam ao clarão da lua e as escondeu no bolso. Depois voltou para a cama. No dia seguinte, ao amanhecer, a madrasta acordou as crianças.

     — Vamos cortar lenha na mata. Este pão é para vocês.
     Partiram os quatro. O lenhador e a mulher na frente, as crianças, atrás. A cada dez passos, João deixava cair no chão uma pedrinha branca, sem que ninguém percebesse. Quando chegaram bem no meio da mata, a madrasta disse:
     — João e Maria, descansem enquanto nós vamos rachar lenha para a lareira. Mais tarde passaremos para pegar vocês.
     Após longa espera, os dois irmãos comeram o pão e, cansados e fracos como estavam, adormeceram. Quando acordaram, era noite alta e, dos pais, nem sinal.
     — Estamos perdidos! Nunca mais encontraremos o caminho de casa! — soluçou Maria.
     — Esperemos que apareça a lua no céu, e acharemos o caminho de casa — consolou-a o irmão.
     Quando a lua apareceu, as pedrinhas que João tinha deixado cair pelo atalho começaram a brilhar; seguindo-as, os irmãos conseguiram voltar até a cabana.

     Ao vê-los, os pais ficaram espantados. Em seu íntimo, o lenhador estava até contente; mas a mulher, assim que foram deitar, disse que precisavam tentar novamente, com o mesmo plano. João, que tudo escutara, quis sair a procura de outras pedrinhas, mas não pôde, pois a madrasta trancara a porta.
     Mariazinha estava desesperada:
     — Como poderemos nos salvar desta vez?
     — Daremos um jeito, você vai ver — respondeu o irmão.
     Na madrugada do dia seguinte, a madrasta acordou as crianças e foram novamente para a mata. Enquanto caminhavam, Joãozinho esfarelou todo o seu pão e o da irmã, fazendo uma trilha. Dessa vez se afastaram ainda mais de casa e, chegando a uma clareira, os pais deixaram as crianças com a desculpa de cortar lenha, abandonando-as.
     João e Maria adormeceram, por fome e cansaço e, quando acordaram, estava muito escuro. Maria desatou a chorar.
     Mas, desta vez, não conseguiram encontrar o caminho: os pássaros da mata tinham comido todas as migalhas. Andaram por muito tempo, durante a noite, e, após um breve descanso, caminharam o dia seguinte inteirinho, sem conseguir sair daquela mata imensa.
     Estavam com tanta fome que comeram frutinhas azedas e retomaram o caminho. Quando o sol se pôs, deitaram-se sob uma árvore e adormeceram. O piar de um passarinho branco que voava sobre suas cabeças, como querendo convidá-los, acordou-os.
     Seguiram o passarinho e, de repente, se viram diante de uma casinha muito mimosa. Aproximaram-se, curiosos, e admiraram-se ao ver que o telhado era feito de chocolate, as paredes de bolo e as janelas de jujuba. 

     — Viva! — gritou João.
     E correu para morder uma parte do telhado, enquanto Mariazinha enchia a boca de bolo, rindo. Ouviu-se então uma vozinha aguda, gritando no interior da casinha:
     — Quem está o teto mordiscando e as paredes roendo?
     Nada assustadas, as crianças responderam:
     — É o Saci-pererê que está zombando de você!
     E continuaram deliciando-se à vontade.
     Mas, subitamente, abriu-se a porta da casinha e saiu uma velha muito feia, mancando, apoiada em uma muleta. João e Maria assustaram-se, mas a velha lhes deu um largo sorriso, com a boca desdentada.
     — Não tenham medo, crianças. Vejo que têm fome, a ponto de quase destruir a casa. Entrem! Vou preparar uma jantinha.
     O jantar foi delicioso, e gostosas também as caminhas macias aprontadas pela velha para João e Maria, que adormeceram felizes.
     Não sabiam, os coitadinhos, que a velha era uma bruxa que comia crianças e, para atraí-las, tinha construído a casinha de doces. Agora ela esfregava as mãos, satisfeita.
     — Estão em meu poder, não podem me escapar. Porém, estão um pouco magros. É preciso fazer alguma coisa.
     Na manhã seguinte, enquanto ainda estavam dormindo, a bruxa agarrou João e o prendeu em um porão escuro; depois, com uma sacudida, acordou Maria.
     — De pé, preguiçosa! Vá tirar água do poço, acenda o fogo e apronte uma boa refeição para seu irmão. Ele está fechado no porão e tem de engordar bastante. Quando chegar no ponto, vou comê-lo.
     Mariazinha chorou e desesperou-se, mas foi obrigada a obedecer. Cada dia cozinhava para o irmão os melhores quitutes. E também, a cada manhã, a bruxa ia ao porão e, por ter vista fraca e não enxergar a um palmo do nariz, mandava:
     — João dê-me seu dedo, quero sentir se já engordou!
     Mas, o esperto João, em vez de mostrar seu dedo, estendia-lhe um ossinho de frango. A bruxa ficava zangada porque, apesar do que comia, o moleque estava cada vez mais magro! Um dia perdeu a paciência.
     — Maria, amanhã acenda o fogo logo cedo e coloque água pare ferver. Magro ou gordo, pretendo comer seu irmão. Venho esperando há muito tempo!
     A menina chorou, suplicou, implorou, em vão.
     Na manhã seguinte, Mariazinha tratou logo de colocar no fogo o caldeirão cheio de água, enquanto a bruxa estava ocupada em acender o forno, dizendo que ia preparar o pão — mas, na verdade, queria assar a pobre Mariazinha. E do João, faria um cozido.
     Quando o forno estava bem quente, a bruxa disse a Maria:
     — Entre ali e veja se está na temperatura certa para assar o pão.
     Mas Maria, que já compreendera, não caiu na armadilha.
     — Como se entra no forno? — perguntou ingenuamente.
     — Você é mesmo uma boba! Olhe para mim! E enfiou a cabeça dentro do forno.
     Mariazinha, então, mais que depressa deu-lhe um empurrão, enfiando-a no forno, e fechou a portinhola com a corrente. E a bruxa malvada queimou até o último osso.
     Maria correu ao porão e libertou o irmão. Abraçaram-se, chorando lágrimas de alegria; depois, nada mais tendo a temer, exploraram a casa da bruxa. E quantas coisas acharam! Cofres e mais cofres, cheios de pedras preciosas e de pérolas.
     — Reluzem mais que as minhas pedrinhas — disse João — Vou levar algumas para casa.

     E encheu os bolsos de pérolas. Com seu aventalzinho, Maria fez uma trouxinha com diamantes, rubis e esmeraldas. Deixaram a casa da feiticeira e avançaram pela mata, mas não sabiam para que lado deveriam ir. Andaram bastante, até chegar perto de um rio.
     — Como vamos atravessar o rio? — disse Maria, pensativa. — Não vejo ponte em nenhum lado.
     — Também não há barcos — acrescentou João. — Mas, lá adiante, estou vendo um marreco. Quem sabe nos ajudará?
     Gritou na direção, mas o marreco estava longe e pareceu não escutá-lo. Então João começou a entoar:
     — Senhor marreco, bom nadador, somos filhos do lenhador, nos leve para a outra margem, temos que seguir viagem.
     O marreco aproximou-se docilmente. João subiu em suas costas e acenou para a irmã fazer o mesmo.
     — Não, disse Maria.— Um de cada vez, para não cansar demais o bichinho.

     E assim fizeram. Um de cada vez, atravessaram o rio na garupa do marreco e, após agradecer carinhosamente, continuaram seu caminho.
     Depois de algum tempo, perceberam que conheciam aquele lugar. Certa vez tinham apanhado lenha naquela clareira, de outra vez tinham ido colher mel naquelas árvores.
     Finalmente, avistaram a cabana de um lenhador. Começaram a correr naquela direção, escancararam a porta e caíram nos braços do pai que, assustado, não sabia se ria ou chorava.
     Quanto remorso sentira desde que abandonara os filhos na mata! Quantos sonhos horríveis tinham perturbado suas noites! Cada porção de pão que comia ficava atravessada na garganta.
     Por grande sorte, a madrasta ruim, que o obrigara a se livrar dos filhos, já tinha morrido.
     João esvaziou os bolsos, retirando as pérolas que havia guardado; Maria desamarrou o aventalzinho e deixou cair ao chão uma chuva de pedras preciosas.
     Agora já não deveriam mais temer nem miséria, nem carestia. E assim, desde aquele dia o lenhador e seus filhos viveram na fartura, sem mais nenhuma preocupação.


Imagem: Wikipédia.

domingo, 25 de março de 2012

Música: Carinhoso / Compositores: Pixinguinha e João de Barro (Braguinha)

Meu coração não sei por que
Bate feliz
Quando te vê...
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo...
Mas mesmo assim, foges de mim...

Meu coração não sei por que
Bate feliz
Quando te vê...
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo...
Mas mesmo assim, foges de mim...
Ah se tu soubesses como eu sou
Tão carinhoso e muito, muito
Que te quero... E como é sincero
Meu amor... Eu sei que tu não
Fugirias... Mais de mim...
Vem... Vem... Vem... Veeeem...
Vem sentir o calor dos lábios
Meus a procura dos teus...
Vem matar essa paixão...
Que me devora o coração...
Só assim então serei feliz...
Bem... Feliz...

Ah se tu soubesses como eu sou
Tão carinhoso e muito, muito
Que te quero... E como é sincero
Meu amor... Eu sei que tu não
Fugirias... Mais de mim...
Vem... Vem... Vem... Veeeem...
Vem sentir o calor dos lábios
Meus a procura dos teus...
Vem matar essa paixão...
Que me devora o coração...
Só assim então serei feliz...
Bem... Feliz...

Imagem: Sabryna Keisy.
Para ver e ouvir: YouTube (Marisa Monte e Paulinho da Viola).
                          YouTube (Elis Regina).

sábado, 24 de março de 2012

Fábula: Os Viajantes e o Urso / Autor: Guilherme Figueiredo

     Dois homens viajavam juntos quando, de repente, surgiu um urso de dentro da floresta e parou diante deles, urrando. Um dos homens tratou de subir na árvore mais próxima e agarrarse aos ramos. O outro, vendo que não tinha tempo para esconder-se, deitou-se no chão, esticado, fingindo de morto, porque ouvira dizer que os ursos não tocam em homens mortos.
     O urso aproximou-se, cheirou o homem deitado, e voltou de novo para a floresta.
    Quando a fera desapareceu, o homem da árvore desceu apressadamente e disse ao companheiro:
     -Vi o urso a dizer alguma coisa no teu ouvido. Que foi que ele disse?
     -Disse que eu nunca viajasse com um medroso.


Na hora do perigo é que se conhece os amigos.

Imagem: http://eidolic.deviantart.com/art/Grizzly-bear-ROAR-18712495?q=boost%3Apopular%20the%20bear&qo=53

Cordel: O Valor do Jumento / Autor: Roseno de Oliveira Rodrigues

Rei dos Reis, Gênio dos Gênios
Senhor todo soberano,
Daí – me força, inspiração,
Esclarecendo meu plano
Pra falar de um animal
Amigo do ser humano.


Estrela que me guia,
Luz da minha existência,
Também conto com vocês,
Consedei–me inteligência,
Pra falar desse animal
Que desafia a ciência.


Caneta, papel na mão,
E já munido de rima,
Lembrando certo ser,
Que pouca gente estima
Porém tem grande importância
Na história Nordestina.


Bicho esse que além
De ajudar o Sertão,
Contribuiu claramente
Na história da Nação,
E também fez grande feito
Em prol da religião.


Pra resumir o roteiro
O leitor fique atento,
Esse importante animal
Merece reconhecimento,
Por isso que vou mostrar
Todo O Valor do Jumento.


O jumento é um animal
Que tem um pequeno porte,
Trabalha com um cabresto,
Uma esteira no congote,
E por cima uma cangalha,
Com mais quatro cambiçote.


Tem uma Cia que pega
Por baixo dele acochando,
Um rabicho ao pé do rabo,
Todo tempo incomodando,
Dum lado e doutro uma carga
Botam pra ele ir levando.


O nome varia sempre
Do dono que tem um gosto,
Baleco, Jubileu,
Apaixonado, Cravo Roxo,
Rouxinol, Possante, Jegue,
Ou então é de Arrocho.


Depende também da cor
E da marcha que ele bate,
Tem apelido de Mancha,
Terno Branco, Abacate,
Flor do Campo, Marchador,
Ou até Cú de Alicate.


Seguindo em frente o assunto
Já no desenvolvimento,
Vou começar bem de longe
Com o início dos tempos,
Mostrando o quanto ajudava
A força de um jumento.


Depois de posto as rédeas
E de ser domesticado,
Sua força era preciso,
Pra lidar com o pesado,
Em todo trabalho duro
Ele estava do lado.


Mesmo na Grécia Antiga
Ele lá já existia,
Ajudava o homem pobre
Mas, do lazer não curtia,
Inclusive o Imperador
Dele tinha serventia.


Da Grécia pra cá nós vamos
Um pouquinho mais além,
Para Roma, Galiléia,
Bater em Jerusalém,
Lugares em que o jumento
Trabalhava em prol do bem.


Era bom no que fazia
Sempre juntinho do povo,
Obedecendo ao dono
Nem precisava de estorvo,
Com ele veio mudanças
Melhoras em tempo novo.


O jumento tem no lombo
Um sinal feito em cruz,
Pois nele montou – se um homem
Que marchou rumo à luz,
Pra nos mostrar o caminho
O nome dele é Jesus.


Foi construída a Nação
Que diz ter Ordem e Progresso,
E hoje se glorifica
Propagando seu sucesso,
Só não lembra que o Jegue
Fez parte desse processo.


Quantas vezes o homem
Pegou o seu animal,
Botava estrada a fora
Levando um peso brutal,
Comboios por todo Estado
Por um preço desigual.


No Nordeste o jumento
Já sofreu escravidão,
Mais nunca negou o sustento
Da família, dando o pão,
Trabalhava e às vezes
Recebia ingratidão.


No Nordeste, o jumento
Sofria com o seu dono,
Se o fazendeiro os tratasse
Com certo ar de abandono,
Só veria o que comer
Em sonhos, no próprio sono.


Jumento o qual me faz
Escrever com atenção,
Foi quem também inspirou
O Grande Rei do Baião,
A ele fez homenagem
Com uma composição.


Animal que suporta
A prolongada estiagem,
Que aguenta a maior
De toda e qualquer viagem,
Que junto ao sertanejo
Enfrenta a desvantagem.


Acompanha o homem simples,
Com seu rincho marca a hora,
Rincha quando é pra ir,
Rincha para vim embora,
Não tem paradeiro certo
A distância ele ignora.


De burro não tem nada
É muito inteligente,
Não turva a água que bebe
É um animal descente,
Burro é o ser humano
Nem pra isso é consciente.


Leva peso e não reclama,
Mais isso ainda é pouco,
Passa sede, passa fome,
É tratado como louco,
De tanto rinchar socorro,
Já está ficando rouco.


Ajuda no roçado,
Bota água pra beber,
Carrega a lenha que vai
Cozinhar o de-comer,
Puxa a carroça, coitado,
Sem nada poder dizer.


Serve ainda de transporte
Para quem quer passear,
Leva o agricultor
Aonde for trabalhar,
Traz a colheita pra casa
Sem nenhum frete cobrar.


É também a brincadeira
Do menininho mimado,
Tem uma figura importante
Na cultura do reisado,
E que faz abrir o riso
Daquele que é mais zangado.


Findando aqui a história
Deixo uma pergunta ao leitor,
Depois do que foi passado
Algo lhe foi chamador,
De atenção, e pergunto
O Jumento tem valor?


A meu vê, claro que sim,
Só se deve ter cuidado,
Prender eles pra não ver
Morto ou atropelado,
Ou em forma de linguiça
Vendida lá no mercado.


Meu tempo está esgotado
Só quero ter a certeza,
Que vão zelar o jumento
Sem usar de malvadeza,
O jumento é nosso irmão
Diz a lei da natureza.


Imagem: http://itan14.deviantart.com/art/Donkey-104755459?q=boost%3Apopular%20donkey&qo=0

sexta-feira, 23 de março de 2012

Apólogo: "Eu" contra "Eu" / Autor: Chico Xavier (ditado pelo espírito Irmão X)

     Quando o Homem ainda jovem desejou cometer o primeiro desatino, aproximou-se o Bom Senso e observou-lhe.
     -Detém-te! Por que te confias assim ao mal?
     O interpelado, porém respondeu orgulhoso:
     -Eu quero.
     Passando, mais tarde, à condição de perdulário e adotando a extravagância e a loucura por normas de viver, apareceu a Ponderação e aconselhou-o:
     -Pára! Por que te consagras, desse modo, ao gasto inconseqüente?
     Ele, contudo, esclareceu jactancioso:
     -Eu posso.
     Mais tarde, mobilizando os outros a serviço da própria insensatez, recebeu a visita da Humildade, que lhe rogou, piedosa:
     -Reflete! Por que te não compadeces dos mais fracos e dos mais ignorantes?
     O infeliz, todavia, redargüiu colérico.
     -Eu mando.
     Absorvendo imensos recursos, inutilmente, quando poderia beneficiar a coletividade, abeirou-se dele o Amor e pediu:
     -Modifica-te! Sê caridoso! Como podes reter o rio das oportunidades sem socorrer o campo das necessidades alheias?
     E o mísero informou:
     -Eu ordeno.
     Praticando atos condenáveis, que o levaram ao pelourinho da desaprovação pública, a Justiça acercou-se dele e recomendou:
     -Não prossigas! Não te dói ferir tanta gente?
     O infortunado, entretanto, acentuou implacável:
     -Eu exijo.
     E assim viveu o Homem, acreditando-se o centro do Universo, reclamando, oprimindo e dominando, sem ouvir as sugestões das virtudes que iluminam a Terra, até que, um dia, a Morte o procurou e lhe impôs a entrega do corpo físico.

     O desditoso entendeu a gravidade do acontecimento, prosternou-se diante dela e considerou:
     -Morte, por que me buscas?
     -Eu quero-disse ela.
     -Por que me constranges a aceitar-te?-gemeu triste.
     -Eu posso-retrucou a visitante.
     -Como podes atacar-me deste modo?
     -Eu mando.
     -Que poderes te movem?
     -Eu ordeno.
     -Defender-me-ei contra ti -clamou o Homem, desesperado-, duelarei e receberás a minha maldição!...
     Mas a Morte sorriu imperturbável, e afirmou:
     -Eu exijo.
     E, na luta do "eu", contra "eu", conduziu-o à casa da Verdade para maiores lições.


Imagem: http://josealvessilva.deviantart.com/art/Ego-137540008?q=boost%3Apopular%20ego&qo=35

Lenda indígena: O Uapé




     Pitá e Moroti amavam-se muito; e, se ele era o mais esforçado dos guerreiros da tribo, ela era a mais gentil e formosa das donzelas. Porém Nhandé Iara não queria que eles fossem felizes; por isso, encheu a cabeça da jovem de maus pensamentos e instigou a sua vaidade.
     Uma tarde, na hora do pôr do sol, quando vários guerreiros e donzelas passeavam pelas margens do rio Paraná, Moroti disse:
     — Querem ver o que este guerreiro é capaz de fazer por mim? Olhem só!
     E, dizendo isso, tirou um de seus braceletes e atirou-o na água. Depois, voltando-se para Pitá, que como bom guerreiro guarani era um excelente nadador, pediu-lhe que mergulhasse para buscar o bracelete. E assim foi.
     Em vão esperaram que Pitá retornasse à superfície. Moroti e seus acompanhantes, alarmados, puseram-se a gritar… Mas era inútil, o guerreiro não aparecia.
     A desolação logo tomou conta de toda a tribo. As mulheres choravam e se lamentavam, enquanto os anciãos faziam preces para que o guerreiro voltasse. Só Moroti, muda de dor e de arrependimento, como que alheia a tudo, não chorava.
     O pajé da tribo, Pegcoé, explicou o que ocorria. Disse ele, com a certeza de quem já tivesse visto tudo:
     — Agora Pitá é prisioneiro de I Cunhã Pajé. No fundo das águas, Pitá foi preso pela própria feiticeira e conduzido ao seu palácio. Lá Pitá esqueceu-se de toda a sua vida anterior, esqueceu-se de Moroti e aceitou o amor da feiticeira; por isso não volta. É preciso ir buscá-lo. Encontra-se agora no mais rico dos quartos do palácio de I Cunhã Pajé. E se o palácio é todo de ouro, o quarto onde Pitá se encontra agora, nos braços da feiticeira, é todo feito de diamantes. E dos lábios da formosa I Cunhã Pajé, que tantos belos guerreiros nos tem roubado, ele sorve esquecimento. É por isso que Pitá não volta. É preciso ir buscá-lo.
     — Eu vou! — exclamou Moroti – Eu vou buscar Pitá!
     — Você deve ir, sim — disse Pegcoé. — Só você pode resgatá-lo do amor da feiticeira. Você é a única, se de fato o ama, capaz de vencer, com esse amor humano, o amor maléfico da feiticeira. Vá, Moroti, e traga Pitá de volta!
     Moroti amarrou uma pedra aos seus pés e atirou-se ao rio.
     Durante toda a noite, a tribo esperou que os jovens aparecessem — as mulheres chorando, os guerreiros cantando e os anciãos esconjurando o mal.
     Com os primeiros raios da aurora, viram flutuar sobre as águas as folhas de uma planta desconhecida: era o uapé (vitória-régia). E viram aparecer uma flor muito linda e diferente, tão grande, bela e perfumada como jamais se vira outra na região.
     As pétalas do meio eram brancas e as de fora, vermelhas. Brancas como o nome da donzela desaparecida: Moroti. Vermelhas como o nome do guerreiro: Pitá. A bela flor exalou um suspiro e submergiu nas águas.
     Então Pegcoé explicou aos seus desolados companheiros o que ocorria:
     — Alegria, meu povo! Pitá foi resgatado por Moroti! Eles se amam de verdade! A malévola feiticeira, que tantos homens já roubou de nós para satisfazer o seu amor, foi vencida pelo amor humano de Moroti. Nessa flor que acaba de aparecer sobre as águas, eu vi Moroti nas pétalas brancas, que eram abraçadas e beijadas, como num rapto de amor, pelas pétalas vermelhas. Estas representam Pitá.
     E são descendentes de Pitá e Moroti estes belos uapés que enfeitam as águas dos grandes rios. No instante do amor, as belas flores brancas e vermelhas do uapé aparecem sobre as águas, beijam-se e voltam a submergir. Elas surgem para lembrar aos homens que, se para satisfazer um capricho da mulher amada um homem se sacrificou, essa mulher soube recuperá-lo, sacrificando-se também por seu amor. E, se a flor do uapé é tão bela e perfumada, isso se deve ao fato de ter nascido do amor e do arrependimento.

Imagem: http://ultradownloads.com.br/papel-de-parede/Vitoria-Regia/

domingo, 18 de março de 2012

Música: Você não Entende Nada / Compositor: Caetano Veloso

Quando eu chego em casa nada me consola
Você está sempre aflita 
Com lágrimas nos olhos de cortar cebola
Você é tão bonita
Você traz a coca-cola, eu tomo 
Você bota a mesa, eu como
Eu como, eu como, eu como, eu como 
Você
Não tá entendendo quase nada do que eu digo
Eu quero é ir-me embora 
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo 
E quero que você venha comigo

Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não agüento
Você está tão curtida
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Você não acredita
Traz meu café com Suita, eu tomo
Bota a sobremesa, eu como
Eu como, eu como, eu como, eu como
Você
Tem que saber que eu quero é correr mundo, correr perigo 
Eu quero é ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo

Para ver e ouvir: YouTube (Gal Costa).
                          YouTube (Daniela Mercury e Caetano Veloso). 

sábado, 17 de março de 2012

Conto: O Pequeno Polegar / Autor: Charles Perrault

     Era uma vez um casal de lenhadores muito, muito pobres, com sete filhos pequenos. Um deles, o  caçula, era magro e fraco, mas esperto e inteligente; era conhecido como Polegar, por ser muito pequeno ao nascer.
     Naquele ano difícil, faltava tudo, praticamente não havia o que comer.
     Os dois lenhadores, desesperados com tanta miséria e tantas bocas para alimentar, encontraram uma triste solução: iriam se livrar dos sete filhos esfomeados.
     Enquanto os filhos dormiam, pai e mãe planejaram como agiriam para abandonar as crianças.
     — Vamos levar as crianças para a floresta — disse o lenhador. — Lá, enquanto juntam lenha, nós as abandonaremos e fugiremos sem que percebam.
     Quando o pai pronunciou a última palavra, seus olhos e os de sua esposa estavam cheios de lágrimas.
     — Coitadinhos dos meus filhos — disse a mãe, soluçando. — Ficarão sozinhos, sentindo frio, fome e medo das feras do mato…
     — Prefere, então, que morram de fome aqui mesmo conosco, sob nossas vistas? — perguntou o pai, também chorando.
     Não havia solução. As crianças morreriam, em casa ou na floresta. Então, era melhor que fosse longe, para os pais sofrerem menos. Combinaram o que fariam no dia seguinte e foram dormir.
     Pela manhã, o casal chamou os filhos e foram todos para a floresta. Enquanto as crianças estavam ocupadas em apanhar bastante lenha, os pais foram se afastando, afastando, até ficarem bem longe.
     Quando os sete irmãos perceberam que estavam sozinhos, os seis maiores começaram a chorar. Mas Polegar não desanimou. Encorajou os irmãos propondo que, juntos, procurassem o caminho de casa.
     Começaram a caminhar pela floresta mas, infelizmente, quanto mais caminhavam, parecia que estavam mais perdidos e não sabiam que rumo seguir. Chegou a noite, começou a chover e a fazer muito frio; ao longe, os lobos uivavam. Os seis pequenos estavam desesperados, amedrontados e desanimados.
     Mas Polegar, sempre muito ativo, subiu em uma grande árvore e, lá do alto, viu uma luz brilhar ao longe. Imaginou que seria a luz de uma casa.
     Sem hesitar, o garoto desceu da árvore e, guiando os irmãos, começou a andar na direção daquela luzinha distante.
     Andaram e andaram, até chegar a uma casa imensa e assustadora.
     Polegarzinho bateu à porta e uma mulher veio abrir.
     — Quem são vocês, crianças, e o que querem?
     — Estamos perdidos na mata. Tenha pena de nós, minha senhora. Estamos com fome e precisamos de um lugar para dormir. Poderia nos abrigar?
     — Coitados! Vocês estão sem sorte. Esta é a casa de meu marido, o Gigante, verdadeiro devorador de criancinhas.
     Polegar logo respondeu, sem demonstrar medo:
     — Se ficarmos na mata, com certeza seremos devorados pelos lobos. Então, já que estamos aqui, preferimos ser devorados pelo Gigante. Aliás, quem sabe ele não se comoverá e nos deixará viver? Já com os lobos, não haverá conversa alguma.
     A mulher do Gigante tinha coração mole e se deixou convencer: permitiu que os sete irmãos entrassem. Mal tinham acabado de entrar, ouviram fortes golpes na porta: era o Gigante que regressava!
     A mulher escondeu as crianças embaixo do armário e correu para abrir a porta.
     O Gigante entrou. Era um ser enorme, de aspecto horrível. Logo que passou pela porta, começou a farejar de um lado e de outro, desconfiado, cheirando com prazer e apetite:
     — Cozida ou ensopada. Aqui tem cheiro de deliciosa criançada!
     Dizia isso e lambia os beiços.
     — Imagine, nada disso! É o cheiro da janta — disse a esposa, tremendo de pavor.
     Mas o Gigante não se deixava enganar, pois conhecia bem demais o cheiro da carne humana.
     — Assadinhas ou fritinhas. Aqui tem o cheiro de criancinhas!
     E lambia os beiços.
     Guiando-se pelo faro, foi em direção ao armário e, com as enormes mãos, arrancou de lá os sete irmãos, um por um, mais mortos do que vivos pelo medo.
     — Muito bem! Aqui tem uma ótima refeição para amanhã.
     E começou a afiar o facão.
     Já tinha agarrado o pescoço do irmão mais velho quando a mulher falou:
     — Por que você quer matá-los nesta noite? A janta já está pronta!
     — Tem razão, minha velha — resmungou o Gigante.
     É melhor economizar, portanto deixá-los-ei para amanhã, é melhor que descansem um pouco.
     A mulher do Gigante suspirou aliviada. Levou as crianças para dormir no quarto em que estavam suas sete filhas, sete meninas muito feias e cruéis, como o pai.
     Assim, dormiriam em uma larga cama as sete garotinhas. E em uma cama igual, ao lado, os sete irmãozinhos. Polegar reparou que as filhas do Gigante usavam suas coroas de ouro mesmo enquanto dormiam.
     Receando que o malvado mudasse de idéia e decidisse matá-los naquela mesma noite, o pequeno pegou seu gorrinho e os de seus irmãos e os colocou com cuidado na cabeça das garotas adormecidas, após tirar as coroazinhas de ouro, que colocou na sua cabeça e na dos queridos irmãos. Estava feita a troca.
     A certa altura o Gigante acordou, arrependido por ter adiado a matança. Agarrou o facão e foi ao quarto das filhas, no escuro.
Tateando, aproximou-se da cama em que dormiam os sete irmãos. Polegar sentiu a enorme mão do Gigante tocar em seus cabelos e na coroazinha e, em seguida, o horroroso exclamou:
     — Meu Deus! O que estava para fazer? Por pouco quase degolei minhas próprias filhotas!
     Aproximou-se da outra cama, estendeu a mão, sentiu os gorrinhos de lã rústica e riu. 
     E, sem dó, cortou de uma vez só as sete gargantas. Depois voltou para a cama, para continuando o sono interrompido. Bastaram alguns minutos, e já estava roncando forte.
     Com muito cuidado, o pequeno Polegar acordou os irmãos e contou-lhes o que acontecera. Falou da troca dos gorros com as coroas para enganar o Gigante, e concluiu:
     — Devemos fugir imediatamente, antes que seja tarde!
     Silenciosamente, os coitadinhos saíram daquela casa e foram para a floresta. Andaram a noite toda, sem saber bem para onde ir. Caminhavam rapidamente, para escapar da fúria do terrível Gigante.
     Na manhã seguinte o Gigante acordou e, antes de mais nada, foi pegar suas vítimas para cozinhá-las.
     Imaginem só como ficou, ao perceber que havia degolado suas amadas filhinhas e que os sete guris tinham desaparecido!
     Cego de raiva, calçou suas botas mágicas, que a cada passo alcançavam sete léguas, e partiu para a perseguição. Dali a pouco já estava bem próximo dos fugitivos.
     Polegarzinho, sempre alerta, viu que ele estava chegando e, sem perder a calma, mandou os irmãos se esconderem em uma caverna ali pertinho.
     E lá vinha o Gigante, cada vez mais perto dos indefesos meninos.
     Andara muito, e já começava a se cansar. Precisou, então, parar e resolveu dar uma cochiladinha. E sabem onde? Bem na frente da caverna em que estavam escondidos os irmãos.
     Polegar pensou rápido e, aproveitando o sono do inimigo, mandou os outros seis fugirem. Depois,  aproximou-se do Gigante e, com muito cuidado para não acordar o guloso, descalçou-lhe as botas mágicas.
     Eram imensos, aqueles calçados do Gigante, mas por serem mágicos logo se ajustaram aos pés pequenininhos do novo dono.
     — Agora sim! — disse decidido.— Andarei pelo mundo até encontrar um modo de melhorar nossas vidas.
     Partiu, calçado com as botas que, a cada passo, percorriam sete léguas. Andou muito, muito mesmo, mais que o próprio Gigante. Após algumas horas, chegou a um reino distante, que estava em guerra.
     Logo soube que o rei dali recompensaria com uma fortuna a pessoa que lhe trouxesse qualquer  informação sobre as tropas e as batalhas. Esperto como era, Polegar foi para a região do combate, auxiliado pelas botas velozes.
     Quando retornou, levou excelentes informações para o rei que, muito satisfeito, pagou-lhe o  combinado. E ainda lhe deu mais algumas centenas de moedas.
     No dia seguinte, Polegarzinho, calçou de novo as botas mágicas e, em um piscar de olhos, alcançou a cabana dos pais, onde foi acolhido com enorme alegria por todos, inclusive pelos seus irmãos, que tinham conseguido voltar.
     Assim, graças ao pequeno e inteligente Polegar, todos viveram felizes desde aquele dia, com muita fartura.


Imagem: Wikipédia (Ilustração de Gustave Doré).

sexta-feira, 16 de março de 2012

Crônica: Escutatório / Autor: Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma." Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é sego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de ideias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...). Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: "Mas isso não é nada..." A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma." Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas." Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestabte (não "evangélico"), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você naõ tivesse falado." Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou." Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você fallou." E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Gran Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidro de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um íncone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: "Meus irmãos, vamos cantar o hino..." Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já  se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A Catedral Submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres do ruído do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...
  

Imagem: http://mechtaniya.deviantart.com/art/To-listen-to-silence-187302981?q=boost%3Apopular%20silence&qo=43

quarta-feira, 14 de março de 2012

Conto: A Bela Adormecida / Autores: Irmãos Grimm

     Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens, poderosos e ricos, mas pouco felizes, porque não tinham filhos.
     — Se pudéssemos ter um filho! — suspirava o rei.
     — E se Deus quisesse, que nascesse uma menina! — animava-se a rainha.
     — E por que não gêmeos? — acrescentava o rei.

     Mas os filhos não chegavam, e o casal real ficava cada vez mais triste. Não se alegravam nem com os bailes da corte, nem com as caçadas, nem com os gracejos dos bufões, e em todo o castelo reinava uma grande melancolia.
     Mas, numa tarde de verão, a rainha foi banhar-se no riacho que passava no fundo do parque real. E, de repente, pulou para fora da água uma rãzinha.
     — Majestade, não fique triste, o seu desejo se realizará logo: daqui a um ano a senhora dará à luz uma menina.
     E a profecia da rã se concretizou. Alguns meses depois nasceu uma linda menina. O rei, louco de felicidade, chamou-a Flor Graciosa e preparou a festa de batizado. Convidou uma multidão de súditos: parentes, amigos, nobres do reino e, como convidadas de honra, as fadas que viviam nos confins do reino: treze. Mas, quando os mensageiros iam saindo com os convites, o camareiro-mor correu até o rei, preocupadíssimo.
     — Majestade, as fadas são treze, e nós só temos doze pratos de ouro. O que faremos? A fada que tiver de comer no prato de prata, como os outros convidados, poderá se ofender. E uma fada ofendida…
    O rei refletiu longamente e decidiu:
    — Não convidaremos a décima terceira fada — disse, resoluto. — Talvez nem saiba que nasceu a nossa filha e que daremos uma festa. Assim, não teremos complicações.

     Partiram somente doze mensageiros, com convites para doze fadas, conforme o rei resolvera.
     No dia da festa, cada uma delas chegou perto do berço em que dormia Flor Graciosa e ofereceu à recém-nascida um presente maravilhoso.
     — Será a mais bela moça do reino — disse a primeira fada, debruçando-se sobre o berço.

     — E a de caráter mais justo — acrescentou a segunda.
     — Terá riquezas a perder de vista — proclamou a terceira.
     — Ninguém terá o coração mais caridoso que o seu — afirmou a quarta.
     — A sua inteligência brilhará como um sol — comentou a quinta.
     Onze fadas já tinham desfilado em frente ao berço; faltava somente uma (entretida em tirar uma mancha do vestido, no qual um garçom desajeitado tinha virado uma taça de sorvete) quando chegou a décima terceira, aquela que não tinha sido convidada por falta de pratos de ouro.
     Estava com a expressão muito sombria e ameaçadora, terrivelmente ofendida por ter sido excluída. Lançou um olhar maldoso para Flor Graciosa, que dormia tranqüila, e disse em voz baixíssima:

     — Aos quinze anos a princesa vai se ferir com o fuso de uma roca e morrerá.
     E foi embora, deixando um silêncio desanimador.
     Então aproximou-se a décima segunda fada, que devia ainda oferecer seu presente.
     — Não posso cancelar a maldição que agora atingiu a princesa. Tenho poderes só para modificá-la um pouco. Por isso, a Flor Graciosa não morrerá; dormirá por cem anos, até a chegada de um príncipe que a acordará com um beijo. Passados os primeiros momentos de espanto e temor, o rei, considerada a necessidade de tomar providências, instituiu uma lei severa: todos os instrumentos de fiação existentes no reino deveriam ser destruídos. E, daquele dia em diante, ninguém mais fiava, nem linho, nem algodão, nem lã. Ninguém além da torre do castelo.

     Flor Graciosa crescia, e os presentes das fadas, apesar da maldição, estavam dando resultados. Era bonita, boa, gentil e caridosa, os súditos a adoravam.
     No dia em que completou quinze anos, o rei e a rainha estavam ausentes, ocupados numa partida de caça. Talvez, quem sabe, em todo esse tempo tivessem até esquecido a profecia da fada malvada.
     Flor Graciosa, porém, estava se aborrecendo por estar sozinha e começou a andar pelas salas do castelo. Chegando perto de um portãozinho de ferro que dava acesso à parte de cima de uma velha torre, abriu-o, subiu a longa escada e chegou, enfim, ao quartinho.
     Ao lado da janela estava uma velhinha de cabelos brancos, fiando com o fuso uma meada de linho. A garota olhou, maravilhada. Nunca tinha visto um fuso.

     — Bom dia, vovozinha.
     — Bom dia a você, linda garota.
     — O que está fazendo? Que instrumento é esse?
     Sem levantar os olhos do seu trabalho, a velhinha respondeu com ar bonachão:
     — Não está vendo? Estou fiando!
     A princesa, fascinada, olhava o fuso que girava rapidamente entre os dedos da velhinha.
     — Parece mesmo divertido esse estranho pedaço de madeira que gira assim rápido. Posso experimentá-lo também?
     Sem esperar resposta, pegou o fuso. E, naquele instante, cumpriu-se o feitiço. Flor Graciosa furou o dedo e sentiu um grande sono. Deu tempo apenas para deitar-se na cama que havia no aposento, e seus olhos se fecharam.

     Na mesma hora, aquele sono estranho se difundiu por todo o palácio.
     Adormeceram no trono o rei e a rainha, recém-chegados da partida de caça.
     Adormeceram os cavalos na estrebaria, as galinhas no galinheiro, os cães no pátio e os pássaros no telhado.

     Adormeceu o cozinheiro que assava a carne e o servente que lavava as louças; adormeceram os cavaleiros com as espadas na mão e as damas que enrolavam seus cabelos.
     Também o fogo que ardia nos braseiros e nas lareiras parou de queimar, parou também o vento que assobiava na floresta. Nada e ninguém se mexia no palácio, mergulhado em profundo silêncio.
     Em volta do castelo surgiu rapidamente uma extensa mata. Tão extensa que, após alguns anos, o castelo ficou oculto. Nem os muros apareciam, nem a ponte levadiça, nem as torres, nem a bandeira hasteada que pendia na torre mais alta.
     Nas aldeias vizinhas, passava de pai para filho a história de Flor Graciosa, a bela adormecida que descansava, protegida pelo bosque cerrado. Flor Graciosa, a mais bela, a mais doce das princesas, injustamente castigada por um destino cruel.

     Alguns, mais audaciosos, tentaram sem êxito chegar ao castelo. A grande barreira de mato e espinheiros, cerrada e impenetrável, parecia animada por vontade própria: os galhos avançavam para cima dos coitados que tentavam passar: seguravam-nos, arranhavam-nos até fazê-los sangrar, e fechavam as mínimas frestas. Aqueles que tinham sorte conseguiam escapar, voltando em condições lastimáveis, machucados e sangrando. Outros, mais teimosos, sacrificavam a própria vida.
     Um dia, chegou nas redondezas um jovem príncipe, bonito e corajoso. Soube pelo bisavô a história da bela adormecida que, desde muitos anos, tantos jovens procuravam em vão alcançar.
     — Quero tentar eu também a aventura — disse o príncipe aos habitantes de uma aldeia pouco distante do castelo.

     Aconselharam-no a não ir.
     — Ninguém nunca conseguiu!
     — Outros jovens, fortes e corajosos como você, falharam…
     — Alguns morreram entre os espinheiros…
     — Desista!
     — Eu não tenho medo — afirmou o príncipe. — Eu quero ver Flor Graciosa.

     No dia em que o príncipe decidiu satisfazer a sua vontade se completavam justamente os cem anos da festa do batizado e das predições das fadas. Chegara, finalmente, o dia em que a bela adormecida poderia despertar.
     Quando o príncipe se encaminhou para o castelo viu que, no lugar das árvores e galhos cheios de espinhos, se estendiam aos milhares, bem espessas, enormes carreiras de flores perfumadas. E mais, aquela mata de flores cheirosas se abriu diante dele, como para encorajá-lo a prosseguir; e voltou a se fechar logo, após sua passagem.
     O príncipe chegou em frente ao castelo. A ponte levadiça estava abaixada e dois guardas dormiam ao lado do portão, apoiados nas armas. No pátio havia um grande número de cães, alguns deitados no chão, outros encostados nos cantos; os cavalos que ocupavam as estrebarias dormiam em pé.

     Nas grandes salas do castelo reinava um silêncio tão profundo que o príncipe ouvia sua própria respiração, um pouco ofegante, ressoando naquela quietude. A cada passo do príncipe se levantavam nuvens de poeira.
     Salões, escadarias, corredores, cozinha… Por toda parte, o mesmo espetáculo: gente que dormia nas mais estranhas posições. E todos exibiam as roupas que haviam sido moda exatamente há cem anos.
     O príncipe perambulou por longo tempo no castelo. Enfim, achou o portãozinho de ferro que levava à torre, subiu a escada e chegou ao quartinho em que dormia Flor Graciosa. A  princesa estava tão bela, com os cabelos soltos, espalhados nos travesseiros, o rosto rosado e risonho. O príncipe ficou deslumbrado. Logo que se recobrou se inclinou e deu-lhe um beijo.
     Imediatamente, Flor Graciosa abriu os olhos e olhou a sua volta, sorrindo:

     — Como eu dormi! Agradeço por você ter chegado, meu príncipe.
     Na mesma hora em que Flor Graciosa despertava, o castelo todo também acordou. O rei e a rainha correram para trocar os trajes de caça empoeirados, os cavalos na estrebaria relincharam forte, reclamando suas rações de forragem, os cães no pátio começaram a ladrar, os pássaros esvoaçaram, deixando seus esconderijos sob os telhados e voando em direção ao céu.

     Acordou também o cozinheiro que assava a carne; o servente, bocejando, continuou lavando as louças, enquanto as damas da corte voltavam a enrolar seus cabelos. Também dois moleques retomaram a briga, voltando a surrar-se com força.
     O fogo das lareiras e dos braseiros subiu alto pelas chaminés, e o vento fazia murmurar as folhas das árvores.
     Logo, o rei e a rainha correram à procura da filha e, ao encontrá-la, chorando, agradeceram ao príncipe por tê-la despertado do longo sono de cem anos.
     O príncipe, então, pediu a mão da linda princesa que, por sua vez, já estava apaixonada pelo seu valente salvador.


Imagem: Wikipédia.

terça-feira, 13 de março de 2012

Citações / Diversos Autores

"A pior solidão é a da pessoa que não ama." 
- Vinicius de Moraes.

"Sonho que se sonha só é um sonho, sonho que se sonha junto é uma realidade."
- Raul Seixas.

"A melhor definição de amor não vale um beijo."
- Machado de Assis.

"Feliz é aquele que sabe ao certo o que procura, porque quem não sabe o que procura não vê o que encontra."
- Calude Bernard.

"É melhor ter amado e ter perdido, do que não ter amado nunca."
- Samuel Butler.

"Amar é rir como o sol e chorar como o orvalho nas noites de luar."
- Godofredo de Alencar.

"Que há de maior, ou de menor, do que um toque?" 
- Walt Whitman.

"Um amigo é um coração aberto, disposto a ouvir, capaz de compreender, pronto a perdoar..."
- ?

"Homem feliz é aquele que, ao despertar, se reencontra com prazer, e se reconhece como aquele que ele gosta de ser."
- Paul Valery.

"Eu amo ficar apaixonado. É o que faz tudo valer a pena."
-Tom Cruise.

"Não quero ser uma coisa nova na sua vida e envelhecer quando amanhecer o dia. Quero apenas dobrar a esquina do seu mundo e sentir a sensação de que você está perto de mim..." 
- ?

"Nunca cruze os braços diante do maior obstáculo da sua vida, pois o maior homem do mundo morreu de braços abertos."
- ?

"A arte de viver, é acordar a cada dia, levantar a cada tombo e sorrir para cada tristeza."
- ?

"Quando um jovem descobre a arte de sorrir como uma criança, e de chorar como um adulto, nunca mais envelhece."
- ?

"A mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não ti ama. Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem."
- Lennon.