sexta-feira, 23 de março de 2012

Apólogo: "Eu" contra "Eu" / Autor: Chico Xavier (ditado pelo espírito Irmão X)

     Quando o Homem ainda jovem desejou cometer o primeiro desatino, aproximou-se o Bom Senso e observou-lhe.
     -Detém-te! Por que te confias assim ao mal?
     O interpelado, porém respondeu orgulhoso:
     -Eu quero.
     Passando, mais tarde, à condição de perdulário e adotando a extravagância e a loucura por normas de viver, apareceu a Ponderação e aconselhou-o:
     -Pára! Por que te consagras, desse modo, ao gasto inconseqüente?
     Ele, contudo, esclareceu jactancioso:
     -Eu posso.
     Mais tarde, mobilizando os outros a serviço da própria insensatez, recebeu a visita da Humildade, que lhe rogou, piedosa:
     -Reflete! Por que te não compadeces dos mais fracos e dos mais ignorantes?
     O infeliz, todavia, redargüiu colérico.
     -Eu mando.
     Absorvendo imensos recursos, inutilmente, quando poderia beneficiar a coletividade, abeirou-se dele o Amor e pediu:
     -Modifica-te! Sê caridoso! Como podes reter o rio das oportunidades sem socorrer o campo das necessidades alheias?
     E o mísero informou:
     -Eu ordeno.
     Praticando atos condenáveis, que o levaram ao pelourinho da desaprovação pública, a Justiça acercou-se dele e recomendou:
     -Não prossigas! Não te dói ferir tanta gente?
     O infortunado, entretanto, acentuou implacável:
     -Eu exijo.
     E assim viveu o Homem, acreditando-se o centro do Universo, reclamando, oprimindo e dominando, sem ouvir as sugestões das virtudes que iluminam a Terra, até que, um dia, a Morte o procurou e lhe impôs a entrega do corpo físico.

     O desditoso entendeu a gravidade do acontecimento, prosternou-se diante dela e considerou:
     -Morte, por que me buscas?
     -Eu quero-disse ela.
     -Por que me constranges a aceitar-te?-gemeu triste.
     -Eu posso-retrucou a visitante.
     -Como podes atacar-me deste modo?
     -Eu mando.
     -Que poderes te movem?
     -Eu ordeno.
     -Defender-me-ei contra ti -clamou o Homem, desesperado-, duelarei e receberás a minha maldição!...
     Mas a Morte sorriu imperturbável, e afirmou:
     -Eu exijo.
     E, na luta do "eu", contra "eu", conduziu-o à casa da Verdade para maiores lições.


Imagem: http://josealvessilva.deviantart.com/art/Ego-137540008?q=boost%3Apopular%20ego&qo=35