quarta-feira, 28 de março de 2012

Conto: João e Maria / Autores: Irmãos Grimm

     Às margens de uma extensa mata existia, há muito tempo, uma cabana pobre, feita de troncos de árvore, na qual morava um lenhador com sua segunda esposa e seus dois filhinhos, nascidos do primeiro casamento. O garoto chamava-se João e a menina, Maria.
     A vida sempre fora difícil na casa do lenhador, mas naquela época as coisas haviam piorado ainda mais: não havia pão para todos.

     — Minha mulher, o que será de nós? Acabaremos todos por morrer de necessidade. E as crianças serão as primeiras…
     — Há uma solução… — disse a madrasta, que era muito malvada. — Amanhã daremos a João e Maria um pedaço de pão, depois os levaremos à mata e lá os abandonaremos.
     O lenhador não queria nem ouvir falar de um plano tão cruel, mas a mulher, esperta e insistente, conseguiu convencê-lo.

     No aposento ao lado, as duas crianças tinham escutado tudo, e Maria desatou a chorar.
     — João, e agora? Sozinhos na mata, estaremos perdidos e morreremos.
     — Não chore — tranqüilizou-a o irmão — Tenho uma idéia. Esperou que os pais estivessem dormindo, saiu da cabana, catou um punhado de pedrinhas brancas que brilhavam ao clarão da lua e as escondeu no bolso. Depois voltou para a cama. No dia seguinte, ao amanhecer, a madrasta acordou as crianças.

     — Vamos cortar lenha na mata. Este pão é para vocês.
     Partiram os quatro. O lenhador e a mulher na frente, as crianças, atrás. A cada dez passos, João deixava cair no chão uma pedrinha branca, sem que ninguém percebesse. Quando chegaram bem no meio da mata, a madrasta disse:
     — João e Maria, descansem enquanto nós vamos rachar lenha para a lareira. Mais tarde passaremos para pegar vocês.
     Após longa espera, os dois irmãos comeram o pão e, cansados e fracos como estavam, adormeceram. Quando acordaram, era noite alta e, dos pais, nem sinal.
     — Estamos perdidos! Nunca mais encontraremos o caminho de casa! — soluçou Maria.
     — Esperemos que apareça a lua no céu, e acharemos o caminho de casa — consolou-a o irmão.
     Quando a lua apareceu, as pedrinhas que João tinha deixado cair pelo atalho começaram a brilhar; seguindo-as, os irmãos conseguiram voltar até a cabana.

     Ao vê-los, os pais ficaram espantados. Em seu íntimo, o lenhador estava até contente; mas a mulher, assim que foram deitar, disse que precisavam tentar novamente, com o mesmo plano. João, que tudo escutara, quis sair a procura de outras pedrinhas, mas não pôde, pois a madrasta trancara a porta.
     Mariazinha estava desesperada:
     — Como poderemos nos salvar desta vez?
     — Daremos um jeito, você vai ver — respondeu o irmão.
     Na madrugada do dia seguinte, a madrasta acordou as crianças e foram novamente para a mata. Enquanto caminhavam, Joãozinho esfarelou todo o seu pão e o da irmã, fazendo uma trilha. Dessa vez se afastaram ainda mais de casa e, chegando a uma clareira, os pais deixaram as crianças com a desculpa de cortar lenha, abandonando-as.
     João e Maria adormeceram, por fome e cansaço e, quando acordaram, estava muito escuro. Maria desatou a chorar.
     Mas, desta vez, não conseguiram encontrar o caminho: os pássaros da mata tinham comido todas as migalhas. Andaram por muito tempo, durante a noite, e, após um breve descanso, caminharam o dia seguinte inteirinho, sem conseguir sair daquela mata imensa.
     Estavam com tanta fome que comeram frutinhas azedas e retomaram o caminho. Quando o sol se pôs, deitaram-se sob uma árvore e adormeceram. O piar de um passarinho branco que voava sobre suas cabeças, como querendo convidá-los, acordou-os.
     Seguiram o passarinho e, de repente, se viram diante de uma casinha muito mimosa. Aproximaram-se, curiosos, e admiraram-se ao ver que o telhado era feito de chocolate, as paredes de bolo e as janelas de jujuba. 

     — Viva! — gritou João.
     E correu para morder uma parte do telhado, enquanto Mariazinha enchia a boca de bolo, rindo. Ouviu-se então uma vozinha aguda, gritando no interior da casinha:
     — Quem está o teto mordiscando e as paredes roendo?
     Nada assustadas, as crianças responderam:
     — É o Saci-pererê que está zombando de você!
     E continuaram deliciando-se à vontade.
     Mas, subitamente, abriu-se a porta da casinha e saiu uma velha muito feia, mancando, apoiada em uma muleta. João e Maria assustaram-se, mas a velha lhes deu um largo sorriso, com a boca desdentada.
     — Não tenham medo, crianças. Vejo que têm fome, a ponto de quase destruir a casa. Entrem! Vou preparar uma jantinha.
     O jantar foi delicioso, e gostosas também as caminhas macias aprontadas pela velha para João e Maria, que adormeceram felizes.
     Não sabiam, os coitadinhos, que a velha era uma bruxa que comia crianças e, para atraí-las, tinha construído a casinha de doces. Agora ela esfregava as mãos, satisfeita.
     — Estão em meu poder, não podem me escapar. Porém, estão um pouco magros. É preciso fazer alguma coisa.
     Na manhã seguinte, enquanto ainda estavam dormindo, a bruxa agarrou João e o prendeu em um porão escuro; depois, com uma sacudida, acordou Maria.
     — De pé, preguiçosa! Vá tirar água do poço, acenda o fogo e apronte uma boa refeição para seu irmão. Ele está fechado no porão e tem de engordar bastante. Quando chegar no ponto, vou comê-lo.
     Mariazinha chorou e desesperou-se, mas foi obrigada a obedecer. Cada dia cozinhava para o irmão os melhores quitutes. E também, a cada manhã, a bruxa ia ao porão e, por ter vista fraca e não enxergar a um palmo do nariz, mandava:
     — João dê-me seu dedo, quero sentir se já engordou!
     Mas, o esperto João, em vez de mostrar seu dedo, estendia-lhe um ossinho de frango. A bruxa ficava zangada porque, apesar do que comia, o moleque estava cada vez mais magro! Um dia perdeu a paciência.
     — Maria, amanhã acenda o fogo logo cedo e coloque água pare ferver. Magro ou gordo, pretendo comer seu irmão. Venho esperando há muito tempo!
     A menina chorou, suplicou, implorou, em vão.
     Na manhã seguinte, Mariazinha tratou logo de colocar no fogo o caldeirão cheio de água, enquanto a bruxa estava ocupada em acender o forno, dizendo que ia preparar o pão — mas, na verdade, queria assar a pobre Mariazinha. E do João, faria um cozido.
     Quando o forno estava bem quente, a bruxa disse a Maria:
     — Entre ali e veja se está na temperatura certa para assar o pão.
     Mas Maria, que já compreendera, não caiu na armadilha.
     — Como se entra no forno? — perguntou ingenuamente.
     — Você é mesmo uma boba! Olhe para mim! E enfiou a cabeça dentro do forno.
     Mariazinha, então, mais que depressa deu-lhe um empurrão, enfiando-a no forno, e fechou a portinhola com a corrente. E a bruxa malvada queimou até o último osso.
     Maria correu ao porão e libertou o irmão. Abraçaram-se, chorando lágrimas de alegria; depois, nada mais tendo a temer, exploraram a casa da bruxa. E quantas coisas acharam! Cofres e mais cofres, cheios de pedras preciosas e de pérolas.
     — Reluzem mais que as minhas pedrinhas — disse João — Vou levar algumas para casa.

     E encheu os bolsos de pérolas. Com seu aventalzinho, Maria fez uma trouxinha com diamantes, rubis e esmeraldas. Deixaram a casa da feiticeira e avançaram pela mata, mas não sabiam para que lado deveriam ir. Andaram bastante, até chegar perto de um rio.
     — Como vamos atravessar o rio? — disse Maria, pensativa. — Não vejo ponte em nenhum lado.
     — Também não há barcos — acrescentou João. — Mas, lá adiante, estou vendo um marreco. Quem sabe nos ajudará?
     Gritou na direção, mas o marreco estava longe e pareceu não escutá-lo. Então João começou a entoar:
     — Senhor marreco, bom nadador, somos filhos do lenhador, nos leve para a outra margem, temos que seguir viagem.
     O marreco aproximou-se docilmente. João subiu em suas costas e acenou para a irmã fazer o mesmo.
     — Não, disse Maria.— Um de cada vez, para não cansar demais o bichinho.

     E assim fizeram. Um de cada vez, atravessaram o rio na garupa do marreco e, após agradecer carinhosamente, continuaram seu caminho.
     Depois de algum tempo, perceberam que conheciam aquele lugar. Certa vez tinham apanhado lenha naquela clareira, de outra vez tinham ido colher mel naquelas árvores.
     Finalmente, avistaram a cabana de um lenhador. Começaram a correr naquela direção, escancararam a porta e caíram nos braços do pai que, assustado, não sabia se ria ou chorava.
     Quanto remorso sentira desde que abandonara os filhos na mata! Quantos sonhos horríveis tinham perturbado suas noites! Cada porção de pão que comia ficava atravessada na garganta.
     Por grande sorte, a madrasta ruim, que o obrigara a se livrar dos filhos, já tinha morrido.
     João esvaziou os bolsos, retirando as pérolas que havia guardado; Maria desamarrou o aventalzinho e deixou cair ao chão uma chuva de pedras preciosas.
     Agora já não deveriam mais temer nem miséria, nem carestia. E assim, desde aquele dia o lenhador e seus filhos viveram na fartura, sem mais nenhuma preocupação.


Imagem: Wikipédia.