sábado, 24 de março de 2012

Cordel: O Valor do Jumento / Autor: Roseno de Oliveira Rodrigues

Rei dos Reis, Gênio dos Gênios
Senhor todo soberano,
Daí – me força, inspiração,
Esclarecendo meu plano
Pra falar de um animal
Amigo do ser humano.


Estrela que me guia,
Luz da minha existência,
Também conto com vocês,
Consedei–me inteligência,
Pra falar desse animal
Que desafia a ciência.


Caneta, papel na mão,
E já munido de rima,
Lembrando certo ser,
Que pouca gente estima
Porém tem grande importância
Na história Nordestina.


Bicho esse que além
De ajudar o Sertão,
Contribuiu claramente
Na história da Nação,
E também fez grande feito
Em prol da religião.


Pra resumir o roteiro
O leitor fique atento,
Esse importante animal
Merece reconhecimento,
Por isso que vou mostrar
Todo O Valor do Jumento.


O jumento é um animal
Que tem um pequeno porte,
Trabalha com um cabresto,
Uma esteira no congote,
E por cima uma cangalha,
Com mais quatro cambiçote.


Tem uma Cia que pega
Por baixo dele acochando,
Um rabicho ao pé do rabo,
Todo tempo incomodando,
Dum lado e doutro uma carga
Botam pra ele ir levando.


O nome varia sempre
Do dono que tem um gosto,
Baleco, Jubileu,
Apaixonado, Cravo Roxo,
Rouxinol, Possante, Jegue,
Ou então é de Arrocho.


Depende também da cor
E da marcha que ele bate,
Tem apelido de Mancha,
Terno Branco, Abacate,
Flor do Campo, Marchador,
Ou até Cú de Alicate.


Seguindo em frente o assunto
Já no desenvolvimento,
Vou começar bem de longe
Com o início dos tempos,
Mostrando o quanto ajudava
A força de um jumento.


Depois de posto as rédeas
E de ser domesticado,
Sua força era preciso,
Pra lidar com o pesado,
Em todo trabalho duro
Ele estava do lado.


Mesmo na Grécia Antiga
Ele lá já existia,
Ajudava o homem pobre
Mas, do lazer não curtia,
Inclusive o Imperador
Dele tinha serventia.


Da Grécia pra cá nós vamos
Um pouquinho mais além,
Para Roma, Galiléia,
Bater em Jerusalém,
Lugares em que o jumento
Trabalhava em prol do bem.


Era bom no que fazia
Sempre juntinho do povo,
Obedecendo ao dono
Nem precisava de estorvo,
Com ele veio mudanças
Melhoras em tempo novo.


O jumento tem no lombo
Um sinal feito em cruz,
Pois nele montou – se um homem
Que marchou rumo à luz,
Pra nos mostrar o caminho
O nome dele é Jesus.


Foi construída a Nação
Que diz ter Ordem e Progresso,
E hoje se glorifica
Propagando seu sucesso,
Só não lembra que o Jegue
Fez parte desse processo.


Quantas vezes o homem
Pegou o seu animal,
Botava estrada a fora
Levando um peso brutal,
Comboios por todo Estado
Por um preço desigual.


No Nordeste o jumento
Já sofreu escravidão,
Mais nunca negou o sustento
Da família, dando o pão,
Trabalhava e às vezes
Recebia ingratidão.


No Nordeste, o jumento
Sofria com o seu dono,
Se o fazendeiro os tratasse
Com certo ar de abandono,
Só veria o que comer
Em sonhos, no próprio sono.


Jumento o qual me faz
Escrever com atenção,
Foi quem também inspirou
O Grande Rei do Baião,
A ele fez homenagem
Com uma composição.


Animal que suporta
A prolongada estiagem,
Que aguenta a maior
De toda e qualquer viagem,
Que junto ao sertanejo
Enfrenta a desvantagem.


Acompanha o homem simples,
Com seu rincho marca a hora,
Rincha quando é pra ir,
Rincha para vim embora,
Não tem paradeiro certo
A distância ele ignora.


De burro não tem nada
É muito inteligente,
Não turva a água que bebe
É um animal descente,
Burro é o ser humano
Nem pra isso é consciente.


Leva peso e não reclama,
Mais isso ainda é pouco,
Passa sede, passa fome,
É tratado como louco,
De tanto rinchar socorro,
Já está ficando rouco.


Ajuda no roçado,
Bota água pra beber,
Carrega a lenha que vai
Cozinhar o de-comer,
Puxa a carroça, coitado,
Sem nada poder dizer.


Serve ainda de transporte
Para quem quer passear,
Leva o agricultor
Aonde for trabalhar,
Traz a colheita pra casa
Sem nenhum frete cobrar.


É também a brincadeira
Do menininho mimado,
Tem uma figura importante
Na cultura do reisado,
E que faz abrir o riso
Daquele que é mais zangado.


Findando aqui a história
Deixo uma pergunta ao leitor,
Depois do que foi passado
Algo lhe foi chamador,
De atenção, e pergunto
O Jumento tem valor?


A meu vê, claro que sim,
Só se deve ter cuidado,
Prender eles pra não ver
Morto ou atropelado,
Ou em forma de linguiça
Vendida lá no mercado.


Meu tempo está esgotado
Só quero ter a certeza,
Que vão zelar o jumento
Sem usar de malvadeza,
O jumento é nosso irmão
Diz a lei da natureza.


Imagem: http://itan14.deviantart.com/art/Donkey-104755459?q=boost%3Apopular%20donkey&qo=0