segunda-feira, 12 de março de 2012

Crônica: Freud explica... / Autora: Maria Esther Torinho

Estive pensando na alarmante facilidade com que as pessoas interpretam a vida alheia.
Diz um velho ditado que: De médico e louco, todo mundo tem um pouco.
E não é só de médico, não. Você passa anos em uma Faculdade para formar-se advogado, médico, psicólogo. E quantas noites insones, quantos fins de semana gastos em pesquisas, estágios; quantos cursos paralelos, quanto de aperfeiçoamento, especialização para construir uma carreira!
E outros, que mal ouviram falar do assunto, se põem a emitir opiniões, a dar conselhos, a “receitar medicamentos” e a interpretar seu comportamento, sem nada saber de sua vida. Lembro-me de um caso curioso, acontecido comigo mesmo há alguns anos. E o pior de tudo é que o referido envolvia uma profissional.
Não, não era um leigo querendo interpretar. Era um profissional fazendo uma interpretação aleatória, eu diria quase divinatória, porque nada sabia da minha vida pessoal. Conto-lhes o ocorrido:
Eu estudava à noite – um horário massacrante, de 6:50 às 22:20, algumas vezes até ás 23:45. Uma coisa estafante, desgastante, principalmente para quem trabalha durante todo o dia. E quem já cursou uma Faculdade à noite, sabe como é: no final de semana, você ainda tem toneladas de trabalhos, pesquisas, estágios.
Acresce que eu ainda tinha filhos menores e, por essa época, além de estar sem empregada, ainda tive o carro roubado, de modo que chegava em casa à meia-noite e levantava às cinco para deixar pronta a comida e entrar na escola em que lecionava às 6:50. Vida dura, dirá você, e com toda razão. Eu já estava acostumada, embora o cansaço começasse a fazer-se sentir. Mas, como sempre, gostava do que fazia, e nunca fui de reclamar.
Pois foi justamente nessa fase que eu e uma colega resolvemos entrar para um Grupo de Estudos de Psicanálise, que acontecia aos sábados à tarde. Tudo bem no primeiro e no segundo sábados, mas o cansaço ia-se acumulando e formando uma torrente de névoa em minha mente. Eu já começava a sentir-me estafada.
No terceiro sábado, dormi em pleno andamento das discussões. Acordei dez ou quinze minutos depois, meio sem-graça, para ouvir a interpretação da profissional:
- Você está fugindo!
- Estou com muito sono, muito cansada.
- Não adianta negar. Você dorme durante as discussões para fugir aos seus problemas.

E simplesmente mudou de assunto, não dando chance a um questionamento. Ora, ela nada sabia da vida que eu estava levando, da “barra” que estava enfrentando.
Simplesmente, quando chegávamos, nos recostávamos nos almofadões, já que não havia cadeiras, nem sofá. Imediatamente a luz era apagada e ficava apenas uma luz fraca de abajur no canto da sala.
Era nesse ambiente que eu, cansadíssima da rotina estafante a que estava sendo submetida, tomava um contato mais profundo com a Psicanálise.
Digo-lhes apenas que, com o cansaço acumulado e a meia-luz do ambiente, se eu não dormisse, nem Freud explicaria.


Imagem: http://badneko.deviantart.com/art/Sigmund-Freud-Retouched-91525069?q=boost%3Apopular%20freud&qo=15