sexta-feira, 20 de abril de 2012

Cordel: A Origem da Riqueza / Autor: Medeiros Braga

Vivia o homem em caverna
Sem trabalho e produção,
Comendo frutas silvestres
Que encontrava no chão
Da rica vegetação


Porém, as comunidades
Iam velozes crescendo
E a produção desses frutos
Já não estava atendendo,
Deixando seus habitantes,
Por sua falta, sofrendo.


Sentindo a necessidade
De mais alimentação,
Além de frutas e ervas,
Como a caça e pesca, então,
Teve o homem que criar
Seus meios de produção.


Então, inventou a lança,
O arco, a flecha, a peixeira,
Machado, canoa, foice,
O facão e a roçadeira,
Registrando o CAPITAL
Sua marca pioneira.


Mas, a força de trabalho,
Usando a pedra e a madeira,
Foi quem criou, com rigor,
O CAPITAL de primeira,
Gerando os equipamentos
Para ação alvissareira.


Porém, o homem dotado
De consciência e razão,
Perante as necessidades
Foi quem deu a condição
De criar o CAPITAL
E aumentar a produção.


Esse período de história
Do processo produtivo
Com o homem, em liberdade,
Convivendo o coletivo,
Ficou conhecido como
“COMUNISMO PRIMITIVO”


Ali todos produziam
Conforme a capacidade
E, embora intuitivo,
Tinham plena liberdade
De usar a produção
Segundo a necessidade.


Já existia o CAPITAL,
Mas, não havia mercadoria,
Pois, de tudo produzido,
Lá mesmo se consumia.


Nada de TROCA DIRETA,
INDIRETA ou outra via.


Por essa época não havia
Escravo ou propriedade,
Era pouca a divisão
Entre o campo e a cidade,
Não havia leis, governos,
Nem a nacionalidade.


Mas, um dia os habitantes
Com o invasor depararam,
Aventureiro e perverso,
Dele, raivoso, escutaram:
“Isso tudo aqui é meu”
E todos silenciaram.


Por uma ingenuidade
Ou medo da reação,
A comunidade assistia
A mais vil revolução
Suprimindo a liberdade
E criando a escravidão.


Assim, nasciam da força
A propriedade, o Estado,
Escravos, polícia, leis,
Tendo a justiça de lado
Para inibir a revolta
De um povo injustiçado.


Daí foram se formando
Os impérios e reinados,
E em volta e entre eles
Apareceram os mercados
Onde os produtos seriam
Com seus valores trocados.


A partir desse processo
Tudo foi se evoluindo,
Se explorou a agricultura
Com ela foi se expandindo
A agro-indústria que ia
Para o mundo produzindo.


Invenções e descobertas
Tiveram seu esplendor
Com caravelas marítimas,
Embarcações a vapor,
O trem de ferro, o telégrafo,
Avião, carro, motor.


Se já tinha a agricultura
A colhedeira, o trator,
Tinha a indústria moderna
Técnicas de alto valor
E equipamentos que vão
Da informática ao robô.


Foi o capital dividido
Em VARIÁVEL e CONSTANTE,
O primeiro está ligado
À mão-de-obra atuante,
Só ela faz variar
Do capital, o montante.


O CAPITAL VARIÁVEL
É o dinheiro pra pagar
O salário do operário
Que na produção está
Para que possa o composto
Do CAPITAL variar.


Já o CAPITAL CONSTANTE
Diz respeito ao maquinário,
É constante, não altera
Pelo processo diário
O volume de produção
Como faz o operário.


O CONSTANTE e o VARIÁVEL
Têm outro comparativo
Que externa a importância
No processo produtivo:
Um se diz “TRABALHO MORTO”,
O outro, “TRABALHO VIVO”.


É pena que em tudo isso
Foi erguida com rigor
Uma fantástica cortina
Para encobrir que o valor
Produzido sempre tem
Por trás um trabalhador.


Não há como desfazer
Essa verdade do malho,
Por mais que o capitalista
Dê, ele próprio, o baralho,
Não esconde que o CAPITAL
Quem o criou foi o TRABALHO.


Olhem toda coisa em volta
Pra tirar a conclusão:
Quem fez o fio da roupa
Que leva a confecção,
Ou a máquina que teceu...
Quem foi que a fez, então?!


Quem fez o próprio robô
Que dá show na produção...
Será que ele funciona
Sem lhe apertar um botão?
Será capaz de fazer
Sua própria manutenção?


Por trás, então, da riqueza
Se encontra um trabalhador.


Está no relógio de pulso,
De bolso, despertador,
Está na parede ao lado,
Cadeira, mesa, birô.


Está na telha da casa,
Na madeira, piso, porta,
No papel, tinta, caneta,
Na linha correta ou torta,
Praça, calçada, galpão
Que nos abriga e conforta.


O trabalhador se encontra
Na igrejinha da frente,
No cálice que leva o vinho,
Na vela chorosa, quente,
Nos bancos, nos castiçais,
No sino de som plangente.


O trabalhador está
Em cada uma estação,
Está na roda e no trilho,
Está em cada vagão,
Está no apito e na máquina
Que faz a locomoção.


Há produtos do TRABALHO
Que se olha com fervor
E até, por vezes, comove
O atento observador
Como se ali descobrisse
Um sentimento de amor.


E até se diz que um objeto
Tem um pouco de humano
Dizem que o trabalhador
Ao produzir com afano
Repassa sua energia
E sentimento mais sano.


Só o TRABALHO, e só ele,
Tem essa força que invoca
Na produção abundante
Que se utiliza ou estoca,
Sejam BENS DE CAPITAL,
Os BENS DE USO e de TROCA.


São os BENS DE CAPITAL
Tudo que tem relação
Com máquinas, equipamentos,
Peças de reposição
Que asseguram o processo
Dos meios de produção.


BENS DE USO e BENS DE TROCA
São a denominação
Que se dá para os produtos
Que resultam em produção
Tendo cada, no seu tempo,
Sua diversa função.


BENS DE USO são produtos
Que ao mercado não vêm
Destinam-se para o consumo
Dele próprio e mais alguém,
Sendo que da produção
Nenhuma renda ele tem.


BENS DE TROCA são produtos
Que se destinam ao mercado
Tem seu valor definido,
No geral determinado,
Na lei da OFERTA E PROCURA
Quando o negócio é fechado.


São BENS DE TROCA porque
É o produto trocado
Por produto ou por dinheiro...
É o que se vê no mercado.
É o sistema por dinheiro
Até hoje é o mais usado.


Quando o processo de troca
Se dá de forma correta
De produto por produto
Se diz que é TROCA DIRETA;
Mas, se é feita com dinheiro
Tem-se uma TROCA INDIRETA.


Pelo fato de um produto
Abastecer o mercado,
Chamamos “MERCADORIA”,
Um BEM DE TROCA falado,
Não é como um BEM DE USO
Que não deve ser trocado.


Se alguém faz uma grade
Pra seu uso permanente,
Não sendo feita pra troca
É um BEM DE USO, evidente,
Porém, é mercadoria
Se no mercado é corrente


Se se produz um portão
Para ser negociado
Torna-se mercadoria
Porque vai para o mercado
E que de forma direta
Ou indireta é trocado.


No entanto, se esse portão
Foi feito pra ser somente
De utilidade pessoal
Ou dado até de presente,
Ele passa a ser um bem
De uso, exclusivamente.


Porém, os dois têm valor
Na complicada engenhoca:
Um é mais sentimental,
O outro, interesse invoca;
Um tem um VALOR DE USO,
O outro, um VALOR DE TROCA.


Há sobre o valor de troca
Uma vasta teoria,
São muitas formas contidas
Nas lições da economia
Para definirem preço
De cada mercadoria.


A primeira é a TEORIA
OBJETIVA DO VALOR,
Diz que o preço de um bem
Produzido com primor
Está no trabalho dado
De cada trabalhador.


Se três horas de trabalho
Foi o tempo dispensado
Para fazer um birô
Ele pode ser trocado
Por qualquer outro objeto
Com esse tempo trabalhado.


Essa mesma teoria
Já, bem antes, se chamou
TEORIA DO VALOR-TRABALHO,
Pois, define ela o valor
Pelo tempo necessário,
Normal, de um trabalhador.


A segunda utilizada
No estudo da economia
Polêmica, sofisticada,
É a chama TEORIA SUBJETIVA DO VALOR
Que mede a MERCADORIA.


Esta define o valor
E mensura a densidade
Do preço de um produto
Pelo grau de UTILIDADE
Ou mesmo SATISFAÇÃO
Que causa à sociedade.


Também, foi ela chamada
TEORIA DA UTILIDADE
Sendo o valor do produto
Medido, sem realidade,
Pelo grau de satisfação
Ou mesmo a necessidade.


Porém, muitos interrogam
Com extremado furor:
Se, em si, a utilidade
Não pode ter medidor,
Como ela pode servir
De medida de valor?


Tudo isso são fatores
Que, gerindo a burguesia,
Só favorecem a prática
Da extorsão da MAIS-VALIA,
Salvando o capitalismo
Das crises da economia.


MAIS-VALIA é uma forma
Na qual o capitalista
Se apropria da força
De trabalho, fatalista,
Para extrair o excedente
Com sua sanha egoísta.


MAIS-VALIA dá o valor
Que fica representado
Entre o que foi produzido
E o que foi remunerado,
Sendo essa diferença
O seu grau de explorado.


Se o trabalho produziu
Nas duas horas primeiras
O valor que será pago
Das oito horas inteiras,
Houve uma apropriação
Das seis horas derradeiras.


No caso, foram seis horas
Das oito de produção
Que teve o trabalhador,
Nas malhas da exploração,
De produzir tal riqueza
De graça para o patrão.


Há, pela classificação,
Dois tipos de MAIS-VALIA:
MAIS-VALIA ABSOLUTA
Que tem sua primazia
Na jornada de trabalho
Que se alonga pelo dia.


MAIS-VALIA RELATIVA
É a outra identidade...
Sua lógica funciona
Pela produtividade,
Reduzindo a mão-de-obra
E o custo da atividade.


A forma da MAIS-VALIA
É o instrumento de ação
No qual o capitalista
Fundamenta a exploração
Se apropria do lucro
Pra sua acumulação.


RELATIVA OU ABSOLUTA,
Faz dela sua esperteza,
Seu principal mecanismo,
Com insanidade e avareza
Para livrar-se das crises
E acumular a riqueza.


A forma de MAIS-VALIA
É o instrumento de ação
No qual o capitalista
Realiza a exploração
De todos trabalhadores
Que estão em operação.


Pra complicar, ampliaram
A DIVISÃO SOCIAL
DO TRABALHO, que acorrenta
O operário ao capital
Gerando satura, estresse
E até vítima fatal.


O operário é treinado
Numa tarefa escolhida
Como apêndice da máquina
Na sujeição descabida
Pra fazer a mesma coisa,
Sem gostar, por toda vida.


A DIVISÃO DO TRABALHO
Sem o aceite necessário,
Mesmo sendo produtivo
Tem um agressivo contrário,
Pois, se é bom pra produção,
É péssimo para o operário.


Já disse um grande poeta
Nos acordes da poesia:
Quando o trabalho é prazer,
A vida é toda alegria;
Mas, quando ele é dever,
É escravidão, elegia.


O homem deve ser livre
Na escolha do fazer
Porém no capitalismo,
Com o arbítrio do poder,
O trabalho é um direito
Que se transforma em dever.


Qualquer que seja o estágio
Na escala da produção
O operário é extorquido
No país ou fora, então,
Pela troca desigual
Que se dá entre nação.


Em toda parte do mundo
Capitalista que há
A sociedade é composta,
Embora tentem negar,
Pelos que são explorados
E os que estão a explorar.


No decorrer da história
Foram feitos de explorados
Na Grécia e na Roma antiga
Os escravos nos reinados,
Pelo feudalismo, os servos
E hoje, assalariados.


E a cada ano que passa
O horror se intensifica,
Crianças morrem de fome,
O desemprego se estica,
O povo fica mais pobre
E a burguesia mais rica.


Não há a menor saída
Dentro do capitalismo
As nações mais avançadas
Pelo seu tecnicismo
Recorrem, por solução,
Ao mais vulgar humanismo.


Recorrem a pequenas rendas,
Socorros, filantropia,
Benefícios, paliativos,
Pra angariar simpatia
E assegurar o processo
Da pseudo democracia.


Que fazer ante o impasse
Desse sistema opressor?
É se organizar em massa
E lutar com destemor
Pra colocar o poder
Na mão do trabalhador.


Devem se organizar
Operários, militantes,
Pra levar informações
Precisas e importantes
Para a boa educação
Daqueles mais vacilantes.


A arma mais poderosa,
Hoje, é a conscientização
Política dos operários
Que não tiveram a lição
Da consciência da luta
Da própria libertação.


Líderes de várias nações,
Grandes revolucionários,
Que sempre estiveram dentro
Dos embates libertários,
Clamaram a necessidade
De educar os operários.


Não existe a menor saída
Sem a conscientização...
Geradora das idéias
Das massas, com precisão,
É da marcha às energias
Que levam à insurreição.


Só a conscientização,
Tacape, lança, escudeiro,
Dá o poder de combate,
Torna imbatível o guerreiro
E une os trabalhadores,
Em luta, no mundo inteiro.


Imagem: http://nelson-ohomemeotrabalho.blogspot.com.br/2012/01/evolucao-do-homem-no-trabalho.html