domingo, 20 de maio de 2012

Acróstico: Mar / Autora: Edna Maria Pessoa

Mar, o bálsamo que cura meus tormentos
A sua imensidão e profundidade, deixa-me em calmaria
Respiro, livro-me das lágrimas e trago-me à vida.

Imagem: Sabryna Keisy.

Poesia: Amor é um fogo que arde sem se ver / Autor: Luiz Vaz de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Imagem: http://whitebook.deviantart.com/art/The-heart-of-a-rose-168441664?q=boost%3Apopular%20heart&qo=14

sábado, 19 de maio de 2012

Conto: A ficha / Autor: Chico Xavier (ditado pelo espírito Irmão X)



     João Mateus, distinto pregador do Evangelho na seara espírita, na noite em que atingiu meio século de idade no corpo físico, depois de orar enternecidamente com os amigos, foi deitar-se. Sonhou que alcançava as portas da Vida  espiritual, e, deslumbrado com a leveza de que se via possuído, intentava alçar-se para melhor desfrutar a excelsitude do Paraíso, quando um funcionário da Passagem Celeste se aproximou, a lembrar-lhe, solícito:
     - João, para evitar qualquer surpresa desagradável no avanço, convém uma visita de olhos em sua ficha...
     E o viajante recebeu primoroso documento, em cuja face leu espantadiço:
     -João Mateus.
     -Renascimento na Terra em 1904.
     -Berço manso.
     -Pais carinhosos e amigos.
     -Inteligência preciosa.
     -Cérebro claro.
     -Instrução digna.
     -Bons livros.
     -Juventude folgada.
     -Boa saúde.
     -Invejável noção de conforto.
     -Sono calmo.
     -Excelente apetite.
     -Seguro abrigo doméstico.
     -Constante proteção espiritual.
     -Nunca sofreu acidentes de importância.
     -Aos 20 anos de idade, empregou-se no comércio.
     -Casou-se aos 25, em regime de escravização da mulher.
     -Católico romano até os 26.
     -Presenciou, sem maior atenção, 672 missas.
     -Aos 27 de idade, transferiu-se para as fileiras espíritas.
     -Compareceu a 2.195 sessões de Espiritismo, sob a invocação de Jesus.
     -Realizou 1.602 palestras e pregações doutrinárias.
     - Escreve cartas e páginas comoventes.
     -Notável narrador.
     -Polemista cauteloso.
     -Quatro filhos.
     -Boa mesa em casa.
     -Não encontra tempo para auxiliar os filhos na procura do Cristo.
     -Efetuou 106 viagens de repouso e distração.
     -Grande intolerância para com os vizinhos.
     -Refratário a qualquer mudança de hábitos para a prestação de serviço aos outros.
     -Nunca percebe se ofende o próximo, através da sua conduta, mas revela extrema suscetibilidade ante a conduta alheia.
     -Relaciona-se tão-somente com amigos do mesmo nível.
     -Sofre horror às complicações da vida social, embora destaque incessantemente o imperativo da fraternidade entre os homens.
     -Sabe defender-se com esmero em qualquer problema difícil.
     -Além dos recursos naturais que lhe renderam respeitável posição e expressivo reconforto doméstico, sob o constante amparo de Jesus, através de múltiplos mensageiros, conserva bens imóveis no valor de Cr$ 600.000,00 e guarda em conta de lucro particular a importância de Cr$ 302.000,00.
     -Para Jesus, que o procurou na pessoa de mendigos, de necessitados e doentes, deu durante toda vida 90 centavos.
     -Para cooperar no apostolado do Cristo, já ofereceu 12 cruzeiros em obras de assistência social.
     -Débito.............................................................
     Quando ia ler o item referente às próprias dívidas, fortemente impressionado, João acordou. Era manhãzinha...
     À noite, bem humorado, reuniu-se aos companheiros, relatando-lhes a ocorrência. Estava transtornado, dizia. O sonho o modificara-  lhe o modo de pensar. Consagrar-se-ia doravante a trabalho mais vivo no movimento espírita. Pretendia renovar-se por dentro, reuniria agora palavra e ação.
     Para isso, achava-se disposto a colaborar substancialmente na construção de um lar destinado à recuperação de crianças desabrigadas que, desde muito, desejava socorrer.
     A experiência daquela noite inesquecível era, decerto, um aviso precioso. E, sorridente, despediu-se dos irmãos de ideal, solicitando-lhes novo reencontro para o dia seguinte. Esperava assentar as bases da obra que se propunha levar efeito.
     Contudo, na noite imediata, quando os amigos lhe bateram à porta, vitimado por um acidente das coronárias, João Mateus estava morto.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Lenda africana: A transformação de Iansã

     Ogum foi um dia caçar na floresta. Ele ficou na espreita e viu um búfalo vindo em sua direção. Ogum avaliou a distância que os separava e preparou-se para matar o animal com sua espada.
     Mas viu o búfalo parar e, de repente, baixar a cabeça e despir-se de sua pele. Da pele saiu uma linda mulher. Era Iansã, vestida com elegância, coberta com panos, um turbante luxuoso amarrado à cabeça e ornada de colares e braceletes.
     Iansã enrolou sua pele e seus chifres, fez uma trouxa e escondeu num formigueiro. Partiu, em seguida, num passo leve, em direção ao mercado da cidade, sem desconfiar que Ogum tinha visto tudo.
     Assim que Iansã partiu, Ogum apoderou-se da trouxa, foi para casa, guardou-a no celeiro de milho e seguiu, também, para o mercado.
     Lá, ele encontrou a bela mulher e cortejou-a. Ogum pediu-a em casamento. Iansã apenas sorriu e recusou. Ogum insistiu e disse que a esperaria. Ele não duvidava de que ela aceitasse sua proposta.
     Iansã voltou à floresta e não encontrou seu chifre nem sua pele. Iansã voltou ao mercado, já vazio, e viu Ogum que a esperava. Ela perguntou-lhe o que ele havia feito daquilo que ela deixara no formigueiro.
     Ogum fingiu inocência e declarou que nada tinha a ver. Iansã não se deixou enganar e disse-lhe:
     - Eu sei que escondeu minha pele e meu chifre. Eu sei que você se negará a me revelar o esconderijo.
     Disse à Ogum que se casaria com ele e viveria em sua casa, mas, mediante certas regras de conduta para com ela. Estas regras devem ser respeitadas também, pelas pessoas da casa. Ninguém poderá dizer a Iansã: - Você é um animal! Ninguém poderá utilizar cascas de dendê para fazer fogo. Ninguém poderá rolar um pilão pelo chão da casa.
     Ogum respondeu que havia compreendido e levou Iansã. Chegando em casa, Ogum reuniu suas outras mulheres e explicou-lhes como deveriam comportar-se. Ficara claro para todos que ninguém deveria discutir com Iansã, nem insultá-la. A vida organizou-se. Ogum saía para caçar ou cultivar o campo. Iansã, em vão, procurava sua pele e seus chifres.
     Ela deu à luz uma criança, depois uma segunda e uma terceira. Ela deu à luz nove crianças. Mas as outras mulheres de Ogum viviam enciumadas da beleza de Iansã. Cada vez mais enciumadas e hostis, elas decidiram desvendar o mistério da origem de Iansã. Uma delas conseguiu embriagar Ogum com vinho de palma. Ogum não pôde mais controlar suas palavras e revelou o segredo.
     Contou que Iansã era, na realidade, um animal. Que sua pele e seus chifres estavam escondidos no celeiro de milho. Ogum recomendou-lhes ainda: Sobretudo não procurem vê-los, pois isto a amedrontará. Não lhes digam jamais que é um animal.
     Depois disso, logo que Ogum saía para o campo, as mulheres insultavam Iansã:
     - Você é um animal! Você é um animal!
     Elas cantavam enquanto faziam os trabalhos da casa.
     - Coma e beba, pode exibir-se, mas sua pele está no celeiro de milho!
     Um dia, todas as mulheres saíram para o mercado. Iansã aproveitou-se e correu para o celeiro. Abriu a porta e, bem no fundo, sob grandes espigas de milho, encontrou sua pele e seus chifres. Ela os vestiu novamente e se sacudiu com energia. Cada parte do seu corpo retomou exatamente seu lugar dentro da pele. Logo que as mulheres chegaram do mercado, ela saiu bufando. Foi um tremendo massacre, pelo qual passaram todas. Com grandes chifradas Iansã rasgou-lhes a barriga, pisou sobre os corpos e rodou-os no ar.
     Iansã poupou seus filhos que a seguiam chorando e dizendo:
     - Nossa mãe, nossa mãe! É você mesma? Que você vai fazer? Que será de nós?
     O búfalo os consolou, roçando seu corpo carinhosamente no deles e dizendo-lhes:
     - Eu vou voltar para a floresta; lá não é bom lugar para vocês. Mas, vou lhes deixar uma lembrança.
     Retirou seus chifres, entregou-lhes e continuou:
     - Quando qualquer perigo lhes ameaçar, quando vocês precisarem dos meus conselhos, esfreguem estes chifres um no outro. Em qualquer lugar que vocês estiverem, em qualquer lugar que eu estiver, escutarei suas queixas e virei socorre-los.

Imagem: http://niji707.deviantart.com/art/Oya-70790691?q=boost%3Apopular%20oya&qo=8

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Música: Epitáfio / Compositor: Sérgio Britto

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o Sol nascer
Devia ter arriscado mais
e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o Sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o Sol se pôr.

Para ver e ouvir: YouTube.
Imagem: http://www.firsanov.ru/

domingo, 13 de maio de 2012

Citações / Diversos Autores

"Nada é tão duro e férreo que não se possa vencer com o fogo do amor."
- Santo Agostinho.

"Nas críticas e nos conselhos ninguém peca por egoísmo."

- Gonçalves Ribeiro.

"Cada criatura traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro." 

- Machado de Assis.

"A filosofia observa e medita. É um espelho que pensa."

- Guerra Junqueira.

"O homem crê porque tem medo de não crer."

- Joracy Camargo.

"Saber muito não evita que nos enganemos um pouco."

- Ditado popular.

"Sou livre quando escolho não o que me agrada, mas o que me realiza como pessoa."

- ?

"A liberdade é como a própria vida: nasce e cresce na dor."

- Graça Aranha.

"Desalento é um lento desespero."

- Mário P. de Almeida.

"O verdadeiro amigo é aquele do qual podemos aceitar presentes sem que tenhamos nada para lhe dar."

- Michel Simon.

"Somos assassinos de nossa própria vida enquanto não tivermos descoberto em nós razões de esperanças."

- Georges Roux.

"Aceitar tudo com amor é ser livre. Apenas resignar-se é ser escravo."

- Germain Barbier.

"Recolhemo- nos no silêncio para aí reconhecermo-nos a nós mesmos." 

- J. Urteaga.

"O silêncio é irritante para quem não aprendeu a pensar."

- Gonçalves Ribeiro.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Cordel: A Coruja / Autor: Roseno de Oliveira Rodrigues


Invoco nesse instante
A força da poesia,
Para narrar uma história,
Duvidosa, eu diria,
Que tudo em quanto na vida
Uma história se cria.

Quando eu era pequeno
Tive a satisfação,
De ouvir meu pai contar,
As lendas deste sertão,
E ficava mais alegre
Quando vinha o tio Romão.

Tio Romão é poeta
Também meu familiar,
Sujeito aposentado
Que gosta de passear,
Sempre vem ao Lisieux
Com histórias pra contar.

Mora lá em Rio Verde
Na região de Goiás,
Caboclo muito engraçado
Conversador é demais,
Mais as suas anedotas,
São de cair para traz.

Juntos, ele e o meu pai,
Era disputa acirrada
Cada qual contava uma
Sempre mais bem afiada,
Mais papai se superou
Contou uma bem danada.

Meu pai é Raimundo Altino,
Ou Raimundo Areal,
Mas, Raimundo José Rodrigues
É seu nome batismal
Chame como preferir,
O que lhe achar mais formal.

É a história de uma Coruja
Que na Serra do Pajé.
Habitou – se lá no alto,
Não sei se foi de má fé,
Assombrando tudo e todos,
Homem, menino e mulher.

Encontrou uma furna grande
E fez dela moradia,
O povo dentro de casa
Não entrava e nem saia,
Vou descrever como era
A sua fisionomia.

Essa Coruja era grande
Tinha dois metros de altura,
O bico dava dois palmos,
Dez centímetros de grossura,
E as asas, duas navalhas,
Bem afiadas e duras.

Tinha a plumagem cinzenta,
Como as cinzas de um fogão,
Os olhos eram vermelhos,
Como a larva de um vulcão,
E as suas garras eram
Maior de que uma mão.

Vamos seguir mais pra frente,
Pois dei a explicação,
Como era a Coruja,
Que causava assombração,
Vou citar tudo o que ela
Fazia a população.

Perdeu – se logo sossego
Ao redor daquela Serra,
Os moradores aflitos,
Enfrentavam uma guerra
Com os desfecheis da coruja
Assombrando aquela terra.

Ela acabou com tudo
Que os moradores tinha
Peru, pato, galo, capote,
Pinto, frango e galinha,
Pegava quando queria,
No terreiro da cozinha.

Animais de porte médio
Foi se acabando aos pouquinhos,
Cabra, bode, carneiro,
Ovelhas com cordeirinhos,
Porcos dentro de chiqueiros,
E porcas com bacorinhos.

Quando atacava o gado
Fazia o seu melhor,
Planejava bem a tática,
Pois a caça era maior,
Depois de pego levava,
Retalhado bem menor.

Era muito prejuízo
Que aquele monstro causava,
Devido tanto estrago
Ninguém mais nada criava
Sabiam que era inútil,
De nada adiantava.

O curioso é que ela
Era um pouco diferente,
Saia durante a noite,
E de dia no sol quente,
Sua sombra se estendia
Da Serra para Vertente.

Quando chegava a noite
Silenciava o sertão,
O povo dentro de casa
Prestava bem atenção
Para escutar o seu canto,
De tristeza e solidão.

Isso ás 12 em ponto
E o povo ansioso,
Esperava o momento
Desse canto tenebroso,
Que ao mesmo tempo tinha
Um sonoro lagrimoso.

Esse som se estendia
Por toda amplidão
Que até lugares distantes,
De certa povoação,
Por mais longe que se fossem
Ouviam com perfeição.

Diziam estar chorando
Devido viver sozinha
Porque tinha perdido,
O parceiro que ela tinha,
Mataram seu companheiro
E deixaram-na doidinha.

Eu me lembro muito bem
Em quanto meu pai contava
A história, e meu tio,
De pressa logo chamava
Minha irmã pra imitar
Como a Coruja cantava.

Tio Romão assim dizia,
-Rosiana venha cá,
Sendo ela a caçula,
Ele mandava imitar,
E em troca da imitação
Tinha um presente pra dar,

Más, voltando ao assunto,
Vamos ser mais curioso
Que o destino da Coruja
Vai ficar desanimoso,
Ela agora vai pagar
Do jeito mais desgostoso.

Num certo dia um rapaz
Decidiu criar coragem,
E numa noite sem lua
Entrou na mata selvagem,
Só com uma cartucheira
E dez cartuchos de vantagem.

O nome desse rapaz
Eu não sei lhe informar
Era um sujeito cigano
Que gostava de andar,
E que soube dessa fera
Então veio confirmar.

Subiu a Serra sozinho
Sem nenhum pingo de medo,
Não falava com ninguém,
Talvez por algum segredo,
Ou então é porque ele
Não gostava de enredo.

Chegando lá no topo
Escondeu – se atrás de uma gruta
Viu de perto a furna grande,
E dentro a fera bruta,
Esperou a hora certa
Pra enfrentar a labuta.

Aos poucos se aproximou
Com a passada exata,
Surpreendeu a Coruja,
Dando – lhe uma gravata,
E os cartuchos da sua arma
Tinha as balas de prata.

A Fera o jogou
Dentro de um grutilhão,
Mas ele muito astuto,
Caiu de arma na mão,
Atirou muito ligeiro
Acertando o coração.

E disse assim – Sua Coruja
Você de mim não esqueça
Isso serve para todos,
Para que não me aborreça,
E os nove cartuchos restantes
Ele atirou na cabeça.

A cabeça da coruja
Já não tinha uma beira,
Ele foi ao povoado,
E de forma bem faceira
Disse – A besta fera está morta
Pode ser que alguém queira.

Pegou o seu patuá
E na estrada seguiu.
Num momento de descuido
Da vista ele sumiu,
E o canto da coruja
Ninguém nunca mais ouviu.

Ela desapareceu
Mataram aquela fera
Mas na furna onde morava,
Tem dois ovos de esfera,
Dizem que com cem anos
Vão vingar – se da espera.

Respeite essa história,
Orgulhosamente fiz,
Se você não conta uma,
Então por que se mal diz?
Na rima é que eu me sinto,
O sujeito mais feliz!

Imagem: http://fat-birds.tumblr.com/

terça-feira, 8 de maio de 2012

Acróstico: O Sapo e a Borboleta / Autor: Dorival Lavirod


Sabia que sou mais bonita?
A borboleta disse ainda ao sapo:
Pobre batráquio asqueroso,
O que você é me causa nojo!

E o sapo, com toda calma do mundo,

Assim respondeu à borboleta:

Bonita é minha natureza anfíbia,
O que, também, me protege mais,
Rios e solo me dão guarida,
Brejos e até mesmo matagais!
O que você faz para se defender?
Livre, viajo sobre todos os animais!
E, num segundo, o sapo projetou
Tamanha língua no espaço,
Acabando, assim, com o embaraço!

Crônica: De poetas e de musas (todos nós precisamos um pouco) / Autora: Autora: Maria Esther Torinho


     Há alguns anos os poetas eram sujeitos extravagantes, diferentes da maioria; não raro freqüentavam uma roda de boêmios, os quais se reuniam em bares onde, dentre outras coisas que não sei – ou não me interessa imaginar – inspiravam-se para o exercício da poesia.
     O ofício de poeta naquela época devia ser bastante singular e sugador das forças de uma pessoa; senão, respondam: por que será que tantos poetas do século passado morreram cedo, consumidos pela tuberculose, na época não curável?
     Tudo me leva a crer que as musas inspiradoras eram terríveis devoradoras dos nossos gênios da Literatura: devoravam-nos, aos poucos lhes sugavam a vida na calada da noite à troca de lhes fartarem com o sagrado néctar da inspiração, porque em contrapartida, embora morrendo tão jovens, com que belíssimas obras nos legaram!
     Seriam casos de vampirismo poético? O que será que acontecia aos nossos jovens poetas, que assim se iam, deixando-nos um gosto de quero mais? E suas musas, quem seriam e como agiam, que os deixavam ir assim, sem mais nem menos, na flor da idade?
     E quanto às musas, o que lhes acontecia?
Dizem as más línguas que é por isso que até hoje existem muitas mulheres sozinhas. Segundo essa teoria, ao se despedirem da vida, os poetas lançavam uma maldição sobre suas amadas, a qual perdura até hoje. Algo do tipo: Vou, mas em troca desse imenso amor que me consome, você ficará só para todo o sempre. E após o desfecho fatal, elas ficavam por aí, perdidas e sozinhas: algumas entravam para um convento, outras assumiam o papel de tias preferidas de irrequietos sobrinhos, se não caíam na armadilha dos casamentos arranjados, envoltas para todo o sempre pela sombra da infelicidade e da monotonia, mas amparadas por um marido, um teto e a aprovação social.
     Eu, mais realista, prefiro acreditar em uma versão menos fantasiosa: irremediavelmente apaixonados por suas deusas e sendo uma época de amores distantes, platônicos e muitas vezes impossíveis, os coitados entregavam-se aos cuidados da Senhora Boemia – e tome noites insones, e tome bebida, e tome sofrimento sem fim; alimentavam-se mal e acabavam contraindo a tuberculose.
     De um modo ou de outro, iam-se os poetas e ficavam as musas sozinhas; a meu ver, tudo por culpa da mentalidade puritana da época.
     Existe ainda um outro detalhe que me atiça a curiosidade: por que as escritoras nunca tiveram – que eu o saiba – uma palavra masculina correspondente a “musa”? Por que só aos homens é dado esse privilégio?
     Ora, acho bom nem começarmos com as hipóteses, mas partirmos diretamente para a luta. Já ouso antever a bandeira e uma intensa campanha publicitária em torno de uma nova palavra.
     Tenho tantas idéias: poderíamos, por exemplo, lançar um concurso inédito: “Muso inspirador”; levaria o prêmio aquele que tivesse inspirado o melhor poema. Um probleminha: muso inspirador, confesso que não me agrada, há algo na expressão que não me soa bem. Mas que quero ter esse direito, isso quero! E por que não? Homens, não me digam que isso lhes soa a “objeto sexual” ou coisa que o valha, não entremos nessas discussões estéreis. Não sejam bobos, nada vai mudar por causa de uma palavra, nenhuma masculinidade ameaçada. Venham, unam-se a nós nesta campanha. Garanto que vão se sentir realizados sendo publicamente reconhecidos como os inspiradores de tanta grande poeta que por aí está.
     E então, o que estamos esperando? Mulheres, a postos! Está instaurada uma nova era de reivindicações, desta vez, universal. E tragam seus amores, amigos, colegas e parentes.
Por que se eles forem por nós, quem será contra nós?

Imagem ("muso" Johnny Depp): http://www.fashionizese.com.br/muso-da-semana-53-johnny-depp/

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Fábula: O Corvo e o jarro / Autor: Esopo

     Um corvo, quase morto de sede, foi a um jarro, onde pensou encontrar água. Quando meteu o bico pela borda do jarro, verificou que só havia um restinho no fundo. Era difícil alcançá-la com o bico, pois o jarro era muito alto.
     Depois de várias tentativas, precisou desistir, desesperado. Surgiu, então, uma ideia em seu cérebro. Apanhou um seixo e jogou-o no fundo do jarro. Jogou mais um e muitos outros. 
     Com alegria verificou que a água vinha, aos poucos, se aproximando da borda. Jogou mais alguns seixos e conseguiu matar a sede, salvando a vida.

A necessidade é a mãe de todas as invenções.

Imagem: http://mfirsanov.deviantart.com/art/CROW-62018072?q=boost%3Apopular%20crow&qo=5

Livro: A mulher de trinta anos / Autor: Honoré de Balzac

1- "Os melhores corações são às vezes bem cruéis."

2- "Tanto a desgraça como a verdadeira felicidade nos levam ao devaneio."

3- "A sociedade só pode existir pelos sacrifícios individuais que as leis exigem."

4- "O coração também tem sua memória."

5- "A piedade é uma virtude feminina que só as mulheres transmitem bem."

6- "As desilusões matam mais que o sofrimento."

7- "O mundo calunia até as mais virtuosas!"

8- "A família é uma associação temporária e fortuita que a morte dissolve prontamente."

9- "O passo mais importante e decisivo na vida das mulheres é precisamente aquele que consideram sempre o mais insignificante."

10- "Na França, o amor-próprio conduz à paixão."

11- "O amor toma a cor do seu século."

12- "Nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abranger toda a sua vida, ver bem tanto o passado como o futuro."

13- "Duvidar de Deus é crer na sua existência. (Pascal)"

14- "O coração de uma mãe é um abismo no fundo do qual se encontra sempre o perdão."

Imagem: http://www.submarino.com.br/produto/1/179309/mulher+de+trinta+anos,+a

domingo, 6 de maio de 2012

Conto: Branca de Neve / Autores: Irmãos Grimm


     Um dia, a rainha de um reino bem distante bordava perto da janela do castelo, uma grande janela com batentes de ébano, uma madeira escuríssima. Era inverno e nevava muito forte. A certa altura, a rainha desviou o olhar para admirar os flocos de neve que dançavam no ar; mas com isso se distraiu e furou o dedo com a agulha. 
     Na neve que tinha caído no beiral da janela pingaram três gotinhas de sangue. O contraste foi tão lindo que a rainha murmurou:
     — Pudesse eu ter uma menina branquinha como a neve, corada como sangue e com os cabelos negros como o ébano...
     Alguns meses depois, o desejo da rainha foi atendido. Ela deu à luz uma menina de cabelos bem pretos, pele branca e face rosada. O nome dado à princesinha foi Branca de Neve.
     Mas quando nasceu a menina, a rainha morreu. Passado um ano, o rei se casou novamente. Sua esposa era lindíssima, mas muito vaidosa, invejosa e cruel.
     Um certo feiticeiro lhe dera um espelho mágico, ao qual todos os dias ela perguntava, com vaidade:
     — Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.
     E o espelho respondia:
     — Em todo o mundo, minha querida rainha, não existe beleza maior.
     O tempo passou. Branca de Neve cresceu, a cada ano mais linda… E um dia o espelho deu outra resposta à rainha.
     — A sua enteada, Branca de Neve, é agora a mais bela.
     Invejosa e ciumenta, a rainha chamou um de seus guardas e lhe ordenou que levasse a enteada para a mata e lá a matasse. E que trouxesse o coração de Branca de Neve, como prova de que a missão fora cumprida.
     O guarda obedeceu. Mas, quando chegou à mata, não teve coragem de enfiar a faca naquela lindíssima jovem inocente que, afinal, nunca fizera mal a ninguém. Deixou-a fugir. Para enganar a rainha, matou um veadinho, tirou o coração e entregou-o a ela, que quase explodiu de alegria e satisfação.
     Enquanto isso, Branca de Neve fugia, penetrando cada vez mais na mata, ansiosa por se distanciar da madrasta e da morte.
    Os animais chegavam bem perto, sem a atacar; os galhos das árvores se abriam para que ela passasse.
     Ao anoitecer, quando já não se aguentava mais em pé de tanto cansaço, Branca de Neve viu numa clareira uma casa bem pequena e entrou para descansar um pouquinho.
    Olhou em volta e ficou admirada: havia uma mesinha posta com minúsculos sete pratinhos, sete copinhos, sete colherzinhas e sete garfinhos. No cômodo superior estavam alinhadas sete caminhas, com cobertas muito brancas.
     Branca de Neve estava com fome e sede. Experimentou, então uma colher da sopa de cada pratinho, tomou um gole do vinho de cada copinho e deitou-se em cada caminha, até encontrar a mais confortável. Nela se ajeitou e dormiu profundamente.
     Os donos da casa voltaram tarde da noite; eram sete anões que trabalhavam numa mina de diamantes, dentro da montanha.
     Logo que entraram, viram que faltava um pouco de sopa nos pratos, que os copos não estavam cheios de vinho… Estranho.
     Lá em cima, nas camas, as cobertas estavam mexidas… E na última cama — surpresa maior! —  estava adormecida uma linda donzela de cabelos pretos, pele branca como a neve e face vermelha como o sangue.
     — Como é linda! — murmuraram em coro.
     — E como deve estar cansada — disse um deles —, já que dorme assim.
     Decidiram não incomodar; o anão dono da caminha onde dormia a donzela passaria a noite numa poltrona.
     Na manhã seguinte, quando despertou, Branca de Neve se viu cercada pelos sete anões barbudinhos e se assustou. Mas eles logo a acalmaram, dizendo-lhe que era muito bem-vinda.
     —Como se chama? 
     — Branca de Neve.
     — Mas como você chegou até aqui, tão longe, no coração da floresta?
     Branca de Neve contou tudo. Falou da crueldade da madrasta, da sua ordem para matá- la, da piedade do caçador que a deixara fugir, desobedecendo à rainha, e de sua caminhada pela mata até encontrar aquela casinha.
     — Fique aqui, se gostar… — propôs o anão mais velho.
     — Você poderia cuidar da casa, enquanto nós estamos na mina, trabalhando.
     Mas tome cuidado enquanto estiver sozinha. Cedo ou tarde, sua madrasta descobrirá onde você está, e se ela a encontrar… Não deixe que ninguém entre! É mais seguro.
     Assim começou uma vida nova para Branca de Neve, uma vida de trabalho.
     E a madrasta? Estava feliz, convencida de que beleza de mulher alguma superava a sua. Mas, um dia, teve por acaso a idéia de interrogar o espelho mágico:
     — Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.
     E o espelho respondeu com voz grave:
     — Na mata, na casa dos mineiros, querida rainha, está Branca de Neve, mais bela que nunca!
     A rainha entendeu que tinha sido enganada pelo guarda: Branca de Neve ainda vivia! Resolveu agir por si mesma, para que não houvesse no mundo inteiro mulher mais linda do que ela.
     Pintou o rosto, colocou um lenço na cabeça e irreconhecível, disfarçada de velha mercadora, procurou pela mata a casinha dos anões. Quando achou, bateu à porta e Branca de Neve, ingenuamente, foi atender. A malvada ofereceu- lhe suas mercadorias, e a princesa apreciou um lindo cinto colorido.
     — Deixe-me ajudá-la a experimentar o cinto.  Você ficará com uma cintura fininha, fininha — disse a falsa vendedora, com uma risada irônica e estridente, apertando cada vez mais o cinto.
     E apertou tanto, tanto, que Branca de Neve se sentiu sufocada e desmaiou, caindo como morta. A madrasta fugiu.
     Pouco depois, chegaram os anões. Assustaram- se ao ver Branca de Neve estirada e imóvel. O anão mais jovem percebeu o cinto apertado demais e imediatamente o cortou. Branca de Neve voltou a respirar e a cor, aos poucos, começou a voltar a sua face; melhorou e pôde contar o ocorrido.
     — Aquela velha vendedora ambulante era a rainha disfarçada — disseram logo os anões. — você não deveria tê-la deixado entrar. Agora, seja mais prudente.
     Enquanto isso, a perversa rainha, já no castelo, consultava o espelho mágico e se surpreendeu ao ouvi-lo dizer:
     — No bosque, na casa dos anões, minha querida rainha, há Branca de Neve, mais bela que nunca.
     Seu plano fracassara! Tentaria novamente.
     No dia seguinte, Branca de Neve viu chegar uma camponesa de aspecto gentil, que lhe colocou na janela uma apetitosa maçã, sem dizer nada, apenas sorrindo um sorriso desdentado. A princesinha nem suspeitou de que se tratava da madrasta, numa segunda tentativa.
     Branca de Neve, ingênua e gulosa, mordeu a maçã. Antes de engolir a primeira mordida, caiu imóvel.
     Dessa vez, devia estar morta, pois o socorro dado pelos anões, quando regressaram da mina, nada resolveu. Não acharam cinto apertado, nem ferimento algum, apenas o corpo caído.
     Branca de Neve parecia dormir; estava tão linda que os bons anõezinhos não quiseram enterrá-la.
     — Vamos construir um caixão de cristal para a nossa Branca de Neve, assim poderemos admirá- a sempre.
     O esquife de cristal foi construído e levado ao topo da montanha. Na tampa, em dourado, escreveram: “Branca de Neve, filha de rei”.
     Os anões guardavam o caixão dia e noite, e também os animaizinhos da mata – veadinhos, esquilos e lebres — todos choravam por Branca de  Neve.
     Lá no castelo, a malvada rainha interrogava o espelho mágico:
     — Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.
     A resposta era invariável.
     — Em todo o mundo, não existe beleza maior.
    Branca de Neve parecia dormir no caixão de cristal; o rosto branco como a neve e de lábios vermelho como sangue, emoldurado pelos cabelos negros como ébano. Continuava tão linda como enquanto vivia.
     Um dia, um jovem príncipe que caçava por ali passou no topo da montanha. Bastou ver o corpo de Branca de Neve para se apaixonar, apesar de a donzela estar morta. Pediu permissão aos anões para levar consigo o caixão de cristal.
     Havia tanta paixão, tanta dor e tanto desespero na voz do príncipe, que os anões ficaram comovidos e consentiram.
     — Está bem. Nós o ajudaremos a transportá-la para o vale. A donzela Branca de Neve será sua.       Com o caixão nas costas, puseram-se a caminho. Enquanto desciam por um caminho íngreme, um anão tropeçou numa pedra e quase caiu. Reequilibrou-se a tempo.
     O abalo do caixão, porém, fez com que o pedaço da maçã envenenada, que Branca de Neve trazia ainda na boca, caísse. Assim a donzela se reanimou.
     Abrindo os olhos e suspirando se sentou e, admirada, quis saber:
     — O que aconteceu? Onde estou?
     O príncipe e os anões, felizes, explicaram tudo.
     O príncipe declarou-se a Branca de Neve e pediu-a em casamento. Branca de Neve aceitou, felicíssima. Foram para o palácio real, onde toda a corte os recebeu.
     Foram distribuídos os convites para a cerimônia nupcial. Entre os convidados estava a rainha madrasta — mas ela mal sabia que a noiva era sua enteada.
    Vestiu-se a megera suntuosamente, pôs muitas jóias e, antes de sair, interrogou o espelho mágico:
     — Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.
     E o fiel espelho:
     — No seu reino, a mais bela é você; mas a
noiva Branca de Neve é a mais bela do mundo. 
     Louca de raiva, a rainha saiu apressada para a cerimônia. Lá chegando, ao ver Branca de Neve, sofreu um ataque: o coração explodiu e o corpo estourou, tamanha era sua ira. Mas os festejos não  cessaram um só instante.
     E os anões, convidados de honra, comeram, cantaram e dançaram três dias e três noites. Depois, retornaram para sua casinha e sua mina, no coração da mata.

Imagem: http://saimain.deviantart.com/art/Snow-White-Winter-190405152?q=boost%3Apopular%20Snow%20White&qo=9