terça-feira, 8 de maio de 2012

Crônica: De poetas e de musas (todos nós precisamos um pouco) / Autora: Autora: Maria Esther Torinho


     Há alguns anos os poetas eram sujeitos extravagantes, diferentes da maioria; não raro freqüentavam uma roda de boêmios, os quais se reuniam em bares onde, dentre outras coisas que não sei – ou não me interessa imaginar – inspiravam-se para o exercício da poesia.
     O ofício de poeta naquela época devia ser bastante singular e sugador das forças de uma pessoa; senão, respondam: por que será que tantos poetas do século passado morreram cedo, consumidos pela tuberculose, na época não curável?
     Tudo me leva a crer que as musas inspiradoras eram terríveis devoradoras dos nossos gênios da Literatura: devoravam-nos, aos poucos lhes sugavam a vida na calada da noite à troca de lhes fartarem com o sagrado néctar da inspiração, porque em contrapartida, embora morrendo tão jovens, com que belíssimas obras nos legaram!
     Seriam casos de vampirismo poético? O que será que acontecia aos nossos jovens poetas, que assim se iam, deixando-nos um gosto de quero mais? E suas musas, quem seriam e como agiam, que os deixavam ir assim, sem mais nem menos, na flor da idade?
     E quanto às musas, o que lhes acontecia?
Dizem as más línguas que é por isso que até hoje existem muitas mulheres sozinhas. Segundo essa teoria, ao se despedirem da vida, os poetas lançavam uma maldição sobre suas amadas, a qual perdura até hoje. Algo do tipo: Vou, mas em troca desse imenso amor que me consome, você ficará só para todo o sempre. E após o desfecho fatal, elas ficavam por aí, perdidas e sozinhas: algumas entravam para um convento, outras assumiam o papel de tias preferidas de irrequietos sobrinhos, se não caíam na armadilha dos casamentos arranjados, envoltas para todo o sempre pela sombra da infelicidade e da monotonia, mas amparadas por um marido, um teto e a aprovação social.
     Eu, mais realista, prefiro acreditar em uma versão menos fantasiosa: irremediavelmente apaixonados por suas deusas e sendo uma época de amores distantes, platônicos e muitas vezes impossíveis, os coitados entregavam-se aos cuidados da Senhora Boemia – e tome noites insones, e tome bebida, e tome sofrimento sem fim; alimentavam-se mal e acabavam contraindo a tuberculose.
     De um modo ou de outro, iam-se os poetas e ficavam as musas sozinhas; a meu ver, tudo por culpa da mentalidade puritana da época.
     Existe ainda um outro detalhe que me atiça a curiosidade: por que as escritoras nunca tiveram – que eu o saiba – uma palavra masculina correspondente a “musa”? Por que só aos homens é dado esse privilégio?
     Ora, acho bom nem começarmos com as hipóteses, mas partirmos diretamente para a luta. Já ouso antever a bandeira e uma intensa campanha publicitária em torno de uma nova palavra.
     Tenho tantas idéias: poderíamos, por exemplo, lançar um concurso inédito: “Muso inspirador”; levaria o prêmio aquele que tivesse inspirado o melhor poema. Um probleminha: muso inspirador, confesso que não me agrada, há algo na expressão que não me soa bem. Mas que quero ter esse direito, isso quero! E por que não? Homens, não me digam que isso lhes soa a “objeto sexual” ou coisa que o valha, não entremos nessas discussões estéreis. Não sejam bobos, nada vai mudar por causa de uma palavra, nenhuma masculinidade ameaçada. Venham, unam-se a nós nesta campanha. Garanto que vão se sentir realizados sendo publicamente reconhecidos como os inspiradores de tanta grande poeta que por aí está.
     E então, o que estamos esperando? Mulheres, a postos! Está instaurada uma nova era de reivindicações, desta vez, universal. E tragam seus amores, amigos, colegas e parentes.
Por que se eles forem por nós, quem será contra nós?

Imagem ("muso" Johnny Depp): http://www.fashionizese.com.br/muso-da-semana-53-johnny-depp/