sexta-feira, 29 de junho de 2012

Discurso: Severn Suzuki durante a ECO-92


Olá, eu sou Severn Suzuki.

Represento aqui na ECO, a Organização das Crianças em Defesa do Meio Ambiente. Somos um grupo de crianças canadenses, de 12 e 13 anos, tentando fazer a nossa parte, contribuir.

Vanessa Sultie, Morgan Geisler, Michelle Quigg e eu. Foi através de muito empenho e dedicação que conseguimos o dinheiro necessário para virmos de tão longe, para dizer a vocês adultos que, têm que mudar o seu modo de agir.

Ao vir aqui hoje, não preciso disfarçar meu objetivo, estou lutando pelo meu futuro. Não ter garantia quanto ao meu futuro não é o mesmo que perder um eleição ou alguns pontos na bolsa de valores.

Estou aqui para falar em nome das gerações que estão por vir.

Eu estou aqui para defender as crianças que passam fome pelo mundo e cujos apelos não são ouvidos.

Estou aqui para falar em nome das incontáveis espécies de animais que estão morrendo em todo o Planeta, porque já não têm mais aonde ir.

Não podemos mais permanecer ignorados.

Eu tenho medo de tomar sol, por causa dos buracos na camada de ozônio.

Eu tenho medo de respirar este ar, porque não sei que substâncias químicas o estão contaminando.

Eu costumava pescar em Vancouver, com meu pai, até que recentemente pescamos um peixe com câncer... e agora temos o conhecimento que animais e plantas estão sendo destruídos e extintos dia após dia...

Eu sempre sonhei em ver grandes manadas de animais selvagens, selvas e florestas tropicais repletas de pássaros e borboletas e hoje eu me pergunto se meus filhos vão poder ver tudo isso... 

Vocês se preocupavam com essas coisas quando tinham a minha idade?

Tudo isso acontece bem diante dos nossos olhos e mesmo assim continuamos agindo como se tivéssemos todo o tempo do mundo e todas as soluções.

Sou apenas uma criança e não tenho todas as soluções, mas quero que saibam, que vocês também não têm...

Vocês não sabem como reparar os buracos na camada de ozônio. Vocês não sabem como salvar os peixes das águas poluídas. Vocês não podem ressuscitar os animais extintos. E vocês não podem recuperar as florestas que um dia existiram e onde hoje é um deserto.

Se vocês não podem recuperar nada disso, por favor parem de destruir!

Aqui vocês são os representantes de seus governos, homens de negócios, administradores, jornalistas ou políticos, mas na verdade vocês são mães e pais, irmãos e irmãs, tios e tias e todos também são filhos.

Sou apenas uma criança, mas sei que todos nós pertencemos a uma sólida família de 5 bilhões de pessoas (1992) e ao todo somos 30 milhões de espécies compartilhando o mesmo ar, a mesma água e o mesmo solo. Nenhum governo, nenhuma fronteira poderá mudar esta realidade.

Sou apenas uma criança, mas sei que esses problemas atingem a todos nós e deveríamos agir como se fossemos um único mundo rumo a um único objetivo. Eu estou com raiva, eu não estou cega, e eu não tenho medo de dizer ao mundo como me sinto.

No meu país geramos tanto desperdício, compramos e jogamos fora e nós, países do norte, não compartilhamos com os que precisam, mesmo quando temos mais que o suficiente, temos medo de perder nossas riquezas, medo de compartilhá-las.

No Canadá temos uma vida privilegiada, com fartura de alimentos, água e moradia. Temos relógios, bicicletas, computadores e aparelhos de TV.

Há dois dias aqui no Brasil, ficamos chocados quando estivemos com crianças que moram nas ruas. Ouçam o que um delas nos contou:
"Eu gostaria de ser rica, e se fosse, daria a todas as crianças de rua alimentos, roupas, remédios, moradia, amor e carinho..."

Se uma criança de rua que não tem nada, ainda deseja compartilhar, por que nós, que temos tudo, somos ainda tão mesquinhos?

Não posso deixar de pensar que essas crianças têm a minha idade e que o lugar onde nascemos faz uma grande diferença. Eu poderia se uma daquelas crianças que vivem nas favelas do Rio, eu poderia ser uma criança faminta da Somália ou uma vítima da guerra no Oriente Médio ou ainda uma mendiga na Índia.

Sou apenas uma criança mas ainda assim sei que se todo o dinheiro gasto nas guerras fosse utilizado para acabar com a pobreza, para achar soluções para os problemas ambientais, que lugar maravilhoso que a Terra seria.

Na escola, desde o jardim da infância, vocês nos ensinaram a sermos bem comportados. Vocês nos ensinaram a não brigar com as outras crianças, resolver as coisas da melhor maneira, respeitar os outros, arrumar nossas bagunças, não maltratar outras criaturas, dividir e não sermos mesquinhos.

Então por que vocês fazem justamente o que nos ensinaram a não fazer?

Não esqueçam o motivo de estarem assistindo a estas conferências e para quem vocês estão fazendo isso.

Nos vejam como seus próprios filhos, vocês estão decidindo em que tipo de mundo nós iremos crescer.

Os pais devem ser capazes de confortar seus filhos dizendo-lhes "tudo vai ficar bem, estamos fazendo o melhor que podemos, não é o fim do mundo...", mas não acredito que possam nos dizer isso. Nós estamos em suas listas de prioridades?

Meu pai sempre diz: "Você é aquilo que faz, não o que você diz".

Bem, o que vocês fazem, nos faz chorar à noite.

Vocês adultos dizem que nos amam...

Eu desafio vocês, por favor façam com que suas ações reflitam as suas palavras.

Obrigada.

Imagem: http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/1100512-ativista-que-calou-o-mundo-ha-20-anos-volta-ao-brasil-para-a-rio20.shtml

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Anedota: Carta de Ex para Ex

     Querida,
     escrevo para dizer que vou te deixar. Fui bom marido por 7 anos. As duas últimas semanas foram um inferno... O seu chefe me chamou para dizer que você tinha pedido demissão e isto foi a gota... Na semana passada, nem notou que não assisti ao futebol... Te levei na churrascaria que mais gosta... Outro dia chegou em casa, nem comeu e foi dormir depois da novela... Não diz que me ama... Nunca mais fizemos sexo... Portanto, ou está me enganando ou não me ama mais.
     PS.: se quiser me encontrar, desista... Eu e a Júlia, aquela sua 'melhor amiga' da academia, vamos viajar para o nordeste e vamos nos casar!
     Ass.: Seu Ex-marido.

     Resposta da Ex:
     Querido Ex-marido,
     Nada me fez mais feliz do que ler sua carta.
     É verdade, ficamos casados por 7 anos, mas dizer que você foi um bom marido é exagero.
     Vejo a novela para não lhe ouvir resmungar a toda hora. Reparei que não assistiu futebol, mas com certeza, foi porque seu time tinha perdido e você estava de mau humor.
     A churrascaria deve ser a preferida da amiga Júlia, pois não como carne há dois anos.
     Fui dormir porque vi que a sua cueca estava manchada de batom. (Rezei para que a empregada não visse).
     Mas, com tudo isto, ainda o amava e senti que poderíamos resolver os nossos problemas. Assim, quando descobri que eu tinha ganhado na Loteria deixei o meu emprego, e de surpresa comprei dois bilhetes de avião para o Taiti, mas quando cheguei em casa você já tinha indo embora...
     Fazer o quê? Tudo acontece por alguma razão.
     Espero que você tenha a vida que sempre sonhou.
     O meu advogado me disse que devido a carta que você escreveu, não terá direito a nada. Portanto, se cuida!
     PS.: não sei se lhe disse, mas a Júlia, minha 'melhor amiga', está grávida do Jorginho, nosso 'personal' lá da academia. Espero que isto não seja um problema...
     Ass.: Sua Ex-esposa, milionária, gostosa e solteira.
     Beijos.

Imagem: http://www.melbournecitymurals.com.au/MelbourneCityMurals-CompletedMurals.html

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Livro: Comer, rezar, amar / Autora: Elizabeth Gilbert

1- "Medo... e daí?"

2- "As suas emoções são escravas dos seus pensamentos, e você é escravo de suas emoções."

3- "Os índios sioux lakota dizem que uma criança incapaz de permanecer sentada é uma criança que só se desenvolveu pela metade."

4- "Mesmo no meio das piores tragédias e crises, não há por que aumentar a tristeza de todo mundo mantendo, você mesma, uma aparência triste."

5- "Perder o equilíbrio às vezes por amor faz parte de uma vida equilibrada."

Imagem: http://margarethkrause.blogspot.com.br/2012/06/amar-rezar-amar.html

Poesia: O Menino Perdido / Autor: Pablo Neruda

Lenta infância por onde
como de um pasto largo
cresce o duro pistilo,
a madeira humana.

Quem fui? O que fui? Que fomos?

Sem resposta. Passamos.
Não fomos. Éramos. Outros pés,
outras mãos, outros olhos.
Tudo se foi mudando folha a folha
na árvore. E em ti? Foi mudando tua pele,
teu cabelo, a memória. Aquele não foste.
Aquele foi um menino que ia correndo
por detrás de um rio, de uma bicicleta,
e com o movimento
foi-se a tua vida naquele minuto.
Falsa identidade seguiu teus passos.
Dia por dia as horas se amarraram,
mas tu já não eras pois vinha o outro,
um outro tu, um outro até que foste,
até que te tiraste
do próprio passageiro,
e do trem, e dos comboios da vida,
e da substituição do caminhante.
A máscara infantil foi se trocando,
adelgaçou sua condição dorida,
aquietou seu cambiante poderio:
o esqueleto se manteve bem firme,
a construção do osso permaneceu,
o sorriso,
o passo, mais um gesto voador, o eco
daquela criança nua
que surgiu de um relâmpago,
mas foi o crescimento como um traje!
Era outro o homem e o levou emprestado.

Assim passou comigo.

Um rústico
cheguei a cidade, gás, rostos cruéis
que mediram minha luz e estatura,
cheguei a mulheres que em mim se buscaram
como se a mim tivessem me perdido,
e assim foi sucedendo
o homem impuro
filho do filho puro,
até que nada foi como havia sido,
e de repente apareceu em meu rosto
um rosto de estrangeiro
e era também eu mesmo:
e era eu que crescia,
eras tu que crescias,
era tudo,
e mudamos
e nunca mais soubemos quem nós éramos,
e às vezes recordamos
ao que viveu conosco
e lhe pedimos algo, talvez que nos lembre,
que saiba ao menos que fomos ele e falamos
com sua língua,
mas desde as horas que se consumiram
aquele olha e não nos reconhece.

Imagem: http://maradamian.deviantart.com/

terça-feira, 26 de junho de 2012

Fábula: A Gansa dos ovos de Ouro / Autor: Jean de La Fontaine

     Um homem e sua mulher tinham a sorte de possuir uma gansa que todos os dias punha um ovo de ouro.
     Mesmo com toda essa sorte, eles acharam que estavam enriquecendo muito devagar, que assim não dava...
     Imaginando que a gansa devia ser de ouro por dentro, resolveram matá-la e pegar aquela fortuna toda de uma vez. Só que, quando abriram a barriga da gansa, viram que por dentro ela era igualzinha a todas as outras.
     Foi assim que os dois não ficaram ricos de uma vez só, como tinham imaginado, nem puderam continuar recebendo o ovo de ouro que todos os dias aumentava um pouquinho sua fortuna.

Não tente forçar demais a sorte.

Imagem: http://marloesw.deviantart.com/

Música: O Sol / Compositor: Antônio Júlio Nastácio

Ei dor... eu não te escuto mais,
Você, não me leva a nada.
Ei medo... eu não te escuto mais,
Você, não me leva a nada.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.

Ei dor... eu não te escuto mais,
Você, não me leva a nada.
Ei medo... eu não te escuto mais,
Você, não me leva a nada.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.
É pra lá que eu vou.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.
É pra lá que eu vou.

Yeah
Caminho do sol baby
Lalalalala
Caminho do sol baby

E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.
É pra lá que eu vou.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.
É pra lá que eu vou.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.
É pra lá que eu vou.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou.
É pra lá que eu vou.

Lalalalalalala
É pra lá que eu vou
Lalaralara
Onde tenha sol, é pra lá que eu vou

Para ver e ouvir: YouTube.
Imagem: Sabryna Keisy.

Oração à Nossa Senhora da Penha


Ó Maria Santíssima, Senhora da Penha, em cujas mãos Deus depositou os tesouros das suas graças e favores. Eis-me cheio de esperança, solicitando com humildade a graça de que hoje necessito, pela qual sou-lhe grata desde este momento.

Recordai-vos, ó Senhora da Penha, que nunca se ouviu dizer que algum dos que em vós têm depositado toda a sua esperança tenha deixado de ser atendido, ó boa Mãe. Assisti-nos nas agruras da vida, para que façamos delas sementes para um mundo mais fraterno e mais humano. Enxugai o pranto das pessoas que sofrem e consolai os aflitos em suas necessidades. Tudo isso vos pedimos por Jesus, vosso Filho e nosso Irmão.

Amém.

Imagem: http://www.arquidiocesepb.org.br/index.php?arqui=pages/noticia&cod_noticia=247

domingo, 24 de junho de 2012

Crônica: A Estrategista / Autor: Luis Fernando Veríssimo


     Bete recomenda um conjunto escuro e sóbrio, mas com um decote que mostre o rego dos seios. O rego dos seios é importantíssimo. O viúvo precisa ter uma amostra do que existe por baixo do terninho compungido já no abraço de pêsames.
     Bete tem um método de prospecção de viúvos. Procura convites para enterro em que não conste "netos". De preferência nem "filhos". É um sinal de que a mulher morreu jovem. Falecida moça igual a viúvo moço. Precisando de consolo imediato.
     O ideal é quando há mais de um convite. Quando a firma do marido também convida para o enterro. E dá a posição do viúvo na vida. "Nosso gerente", ótimo. "Nosso diretor-financeiro", melhor ainda. "Nosso diretor-presidente", perfeito! Um diretor-presidente com 40 anos ou menos é ouro puro. Segundo a Bete.
     Bete dá instruções. 
     - Aumente o decote. Isso.
     - O que que eu digo?
     - Chore. Diga "Eu não acredito". Diga "A nossa Pixuxa."
     - Pixuxa?!
     - Era o apelido dela. Estava no convite.
     - A nossa Pixuxa. Certo.
     - E não esquece de beijar perto da boca, como se fosse descuido.
     Bete não cobra pelo seu trabalho. Faz pelo desafio, pelo prazer de um desfecho feliz, cientificamente preparado. Quando consegue "colocar" uma das suas amigas, sente-se recompensada. Não é verdade, como dizem alguns, que tenha informantes nos hospitais de primeira classe da cidade e que muitas vezes, quando a mulher morre, ela já tenha um dossiê pronto sobre o viúvo, inclusive com situação financeira atualizada. Trabalha em cima dos convites para enterro, empiricamente, com pouco tempo para organizar o ataque. Procura se informar o máximo possível sobre o viúvo, depois telefona para uma interessada e expõe a situação.
     - O nome é bom. Parece que é advogado. Entre 55 e 60 anos. Aproveitável. Dois filhos, mas já devem ter saído de casa.
     - Entre 55 e 60, sei não...
     - É pegar ou largar. O enterro é às 5.
     Bete vai junto aos velórios. Para dar apoio moral, e para o caso de algum ajuste de última hora. Como na vez em que, antes de conseguir chegar no viúvo, sua pupila foi barrada pela mãe dele, que perguntou:
     - Quem é você?
     A pretendente começou a gaguejar e Bete imediatamente colocou-se ao seu lado.
     - A senhora não se lembra da Zequinha? Uma das melhores amigas da Vivi e do Momô.
     Era tanta a intimidade que a mãe do Moraes, embora nunca soubesse que o apelido do seu filho fosse Momô, recuou e deixou a Zequinha chegar nele, com seu rego.
     Foi um dos triunfos da Bete. Naquele mesmo ano, o Moraes e a Zequinha se casaram. Alguns comentavam que tudo começara no enterro da pobre Vivi, outros que o caso vinha de longe.
     Ninguém desconfia que foi tudo planejado. Que havia um cérebro de estrategista por trás de tudo.
     Bete tem medo da livre-atiradoras, das que invadem o seu território sem método, sem classe, enfim, sem a sua orientação. Quando o viúvo é uma raridade, uma pepita - menos de 40, milionário, quatro ou cinco empresas participando o infausto evento, sem herdeiros conhecidos, e bonito - Bete faz questão que sua orientada chegue cedo no velório, abrace o prospectado ("A nossa Ju! Eu não acredito!"), beije-o demoradamente perto da boca, por descuido, e fique ao seu lado até fecharem o caixão, alerta contra outros decotes. Ela deve até tornar-se uma confidente do viúvo.
     - Essa que me cumprimentou agora... Não tenho a menor ideia quem é.
     - Eu também, nunca vi.
     - Não é uma amiga da Ju?
     - Vulgar assim? Acho que não.
     E a Bete cuida da retaguarda. Observa a aproximação de possíveis concorrentes e, quando pode, barra o seu progresso em direção ao viúvo. ("Por favor, vamos deixar o homem em paz.") De tanto frequentar velórios, Bete já conhece a concorrência.
     Sabe que elas vêm dispostas a tudo. Quando o viúvo é muito importante e forma-se uma multidão à sua volta, dificultando o acesso, abrem caminho a cotoveladas. Não hesitam nem em ficar de quatro e engatinhar, entre pernas, até o viúvo. A Bete compreende. Sabe o valor de um bom viúvo em tempos como este. Por isso se sente justificada em usar qualquer meio para impedir o sucesso das outras e assegurar o sucesso das suas. Até a coação física e moral.
     "Estamos numa selva", diz a Bete, para encorajar suas discípulas. E as instrui a não desanimar quando não conseguem prender a atenção do viúvo no velório. Afinal, sempre existe a missa do sétimo dia.

Imagem: http://lonelypierot.deviantart.com/

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Cordel: A história do senhor José Artur / Autor: José Artur de Loiola



No trinta e nove eu nasci
Bem lutrido e copetente
Me criei intiligente
Muito ligeiro eu crisci
Desde quando me entendi
Comesei inprovizar
Mais gosto de trabalhar
Pois adoro a puizia
Não perdo o tempo no dia
A noite o tempo vai dar.

Comecei a trabalhar
Com 8 anos de idade
Procurei a felicidade
Nunca gostei de brincar
Meu pai cuidou de ensinar
A vida de lavrador
Pesquei e fui caçador
Matei girita de pau
Cerca de cava e curral
Tudo meu pai me ensinô.

Comecei a estudar
Na carta do A, B, C,
Para mim era um prazer
A gente se agumentar
Com a pamatória açoitar
Gente maior do que eu
Levei nome de Judeu
Mais eu não me comodava
Muito bem asuletrava
Nome dos outros e o meu.


E com uma tabuada
Estudava na carrêra
Na cartilha verdadeira
Dava lição aprovada
Eu dava conta somava
Comecei multiplicar
Gostava de estudar
Estudei até o quinto
Purisso hoje mi sinto
Até capais de ensinar.


Eu caçava jandaíra
Nos ouco das catinguêra
E vendia mel na fêra
Também matava manbira
Me rasgava em macambira
Mais apurava um trocado
Pois eu era interessado
Pra ganhar o meu diêro
Eu era uma rapaz soltêro
Respomsave igual cazado.


Também fazia caçada
De peba, gato e tatu,
Até porco catitú
Matei na mata fexada
Matei cascavel zangada
Cobra preta não matava
Isto me acustumava
Eu andava a noite intêra
Vinha veloz na carrêra
Mais ainda trabalhava.


Eu era bom no roçado
Na culêta de feijão
Apanhei muito augudão
Sou agricultor afamado
Guardei milho empaiolado
Prantei muita macaxêra
Muita rossa farieira
Batata doce e melão
Ainda dava o patrão
De quatro um na Carrera.


Prantei arrôis saquarema
Arrôis grande e o ligêro
Mais o arrôis verdadêro
É o arrôis pé de êma
Broquei muito na jurema
Encima do pedrexêro
Aranquei mato ispieiro
Puxado com minhas mão
A urtiga o cansanção
Era o meus cumpaiêro.


Eu fui festa dancei xote
Fui papangú de reizado
Brinquei de velho barbado
Axava bom da pinote
Brincar reizado é esporte
Pois o trabalho é pezado
Mais eu era acustumado
Brincar sem mi enfadar
Isto faz eu mi lembrar
Do tempo que foi passado.


Fui festa de vaquejada
Fui currida de cavalo
Também dancei São Gonçalo
Numas noite enluarada
Ainda dava caçada
Mais as caças não saia
Pois assim me divirtia
Durmia um sono no mato
Bem sedo atava um gato
Tirava o couro e vindia.


Muito jovem me cazei
Com quem eu tinha amizade
Deus me deu felicidade
Eu sempre me comtrolei
Algum pezado encontrei
Isto é couza da vida
Lutando venci as lida
Que com migo se passou
E só Deus me ajudou
Minhas batalhas cunprida.


Já prantei muito augudão
Apurava um bom trocado
Pois me dava rezutado
Pagava renda o patrão
Me matava a presizão
Pagava as conta ligêro
Eu nunca guardei diêro
Mais a casa eu prevenia
Comprava mercadoria
E comia o ano intêro.


Sou proficinau da roça
Mais eu fui eletrisista
Na instalação sou artista
Sou pueta da mão grossa
Andei tangendo carroça
Só nunca fui valentão
Procurando ser cidadão
Pra não receber piada
Não tenho medo de nada
Mais nunca dei um empurrão.


Eu já fui niguciante
Pois comecei com quarenta
Lutei até o cinguenta
Também vendi ambulante
E eu já prantei vazante
Já criei porco sevado
Vindi carne no mercado
Já criei cabra leitêra
Já capinei na puêra
Para limpá meu roçado.


Falando em minha história
Lembrei a meus pais querido
Deles não sou isquicido
Gravo eles na memória
Alcancei muita vitória
De papai e mamãzinha
É duas peças igualzinha
Que se tem muito valor
Minha história encompridor
Que escrevi em dez linhas.


História da minha vida
Não conto tudo a miúdo
Eu não alembro de tudo
Esta história é cumprida
Muitas couza esquicida
De tudo que se passou
Pois o tempo já levou
O que escrevo é verdade
De tudo sinto saudade
Esta vida tem valor.


Da vida sou coformado
Com fé no meu pai eterno
Eu sou um homem muderno
Não me sinto envergonhado
Sou pobre mais sou onrado
Sou forte sou lutador
Pois eu já fui morador
Trabalhei de alugado
Adorei meus pais amado
Que sempre me abensuou.


E no grupo dos idôzo
Hoje estou bem cadastrado
Todos velhos é educado
E tudo são corajôzo
Não se manga d ninguém
Todos dança muito bem
Aqui tem educação
Sessenta e dois no salão
Queria vê mais de sem.


Na nossa tercêra idade
Se pensa muito na vida
Somos rozas fulorida
Caindo os butões da saudade
Já muxado de verdde
Já ter mais um bom talento
As rais sem cricimento
As folhas sem oruvalho
Feliz quem tem agazalho
Ou pegou um apuzento.


De ciança fui uma semente
Foi prantada sem xuver
E esta só vei nascê
Quando eu era adolecente
Brotou e segui a frente
De rapaz naceu a flor
Cazado os fruto vingô
Do jeito que Deus me deu
Não me maudigo dos meu
Com eles eu tem amor.


Me apuzentei com sessenta
Sou trabalhador ruau
Da rossa sou natural
Escrevo esta com setenta
A vida que si enfrenta
É trabalhar no pezado
Ainda pranto roçado
De fruta milho e feijão
Com muita satisfação
E luto bem animado.


Me alembro que fui criança
Nunca andei com bicadêra
Com meu pai nas capueira
De tudo tenho lembrança
Eu era de comfiança
Para fazer seus mandado
Eu ia olhar o rossado
Corigia direitinho
Voltava no meu caminho
Ligêro bem apressado.


A nossa vida é beleza
Pois não importa a idade
Saudade e felicidade
Isto é a maior riqueza
Eu tenho toda serteza
Quem tem saúde pra valer
Pois na vida tem prazer
Se anda ainda ou enfrenta
Mesmo que tanha noventa
Mais na vida quer viver.


De tudo que me domino
Deus me deu copetencia
Sempre tive pasiencia
De cumprir o meu destino
Pois eu nunca fui mufino
Só trabalhei no pezado
Eu não sou homem educdo
Eu gosto de responder
Se precizar eu dizer
As couzas que esta errado.


Esta história eu termino
O tempo já se passou
A vida não demorou
A pouco tempo fui minino
Graças a Deus tive um tino
Da vida faço uma história
Pois tem dentro da mimória
Pois o pueta é lembrado
De falar no meu passado
Na vida tenho vitória.


Contei o que se passou
Peço a Deus muita saúde
Já escrevi o que pude
A vida não terminou
Jesus é nosso Senhor
Me dê mais felicidade
Eu escrevi a verdade
Escrevi tudo direito
De velho sou satisfeito
De novo, tenho saudade.