sexta-feira, 22 de junho de 2012

Cordel: A história do senhor José Artur / Autor: José Artur de Loiola



No trinta e nove eu nasci
Bem lutrido e copetente
Me criei intiligente
Muito ligeiro eu crisci
Desde quando me entendi
Comesei inprovizar
Mais gosto de trabalhar
Pois adoro a puizia
Não perdo o tempo no dia
A noite o tempo vai dar.

Comecei a trabalhar
Com 8 anos de idade
Procurei a felicidade
Nunca gostei de brincar
Meu pai cuidou de ensinar
A vida de lavrador
Pesquei e fui caçador
Matei girita de pau
Cerca de cava e curral
Tudo meu pai me ensinô.

Comecei a estudar
Na carta do A, B, C,
Para mim era um prazer
A gente se agumentar
Com a pamatória açoitar
Gente maior do que eu
Levei nome de Judeu
Mais eu não me comodava
Muito bem asuletrava
Nome dos outros e o meu.


E com uma tabuada
Estudava na carrêra
Na cartilha verdadeira
Dava lição aprovada
Eu dava conta somava
Comecei multiplicar
Gostava de estudar
Estudei até o quinto
Purisso hoje mi sinto
Até capais de ensinar.


Eu caçava jandaíra
Nos ouco das catinguêra
E vendia mel na fêra
Também matava manbira
Me rasgava em macambira
Mais apurava um trocado
Pois eu era interessado
Pra ganhar o meu diêro
Eu era uma rapaz soltêro
Respomsave igual cazado.


Também fazia caçada
De peba, gato e tatu,
Até porco catitú
Matei na mata fexada
Matei cascavel zangada
Cobra preta não matava
Isto me acustumava
Eu andava a noite intêra
Vinha veloz na carrêra
Mais ainda trabalhava.


Eu era bom no roçado
Na culêta de feijão
Apanhei muito augudão
Sou agricultor afamado
Guardei milho empaiolado
Prantei muita macaxêra
Muita rossa farieira
Batata doce e melão
Ainda dava o patrão
De quatro um na Carrera.


Prantei arrôis saquarema
Arrôis grande e o ligêro
Mais o arrôis verdadêro
É o arrôis pé de êma
Broquei muito na jurema
Encima do pedrexêro
Aranquei mato ispieiro
Puxado com minhas mão
A urtiga o cansanção
Era o meus cumpaiêro.


Eu fui festa dancei xote
Fui papangú de reizado
Brinquei de velho barbado
Axava bom da pinote
Brincar reizado é esporte
Pois o trabalho é pezado
Mais eu era acustumado
Brincar sem mi enfadar
Isto faz eu mi lembrar
Do tempo que foi passado.


Fui festa de vaquejada
Fui currida de cavalo
Também dancei São Gonçalo
Numas noite enluarada
Ainda dava caçada
Mais as caças não saia
Pois assim me divirtia
Durmia um sono no mato
Bem sedo atava um gato
Tirava o couro e vindia.


Muito jovem me cazei
Com quem eu tinha amizade
Deus me deu felicidade
Eu sempre me comtrolei
Algum pezado encontrei
Isto é couza da vida
Lutando venci as lida
Que com migo se passou
E só Deus me ajudou
Minhas batalhas cunprida.


Já prantei muito augudão
Apurava um bom trocado
Pois me dava rezutado
Pagava renda o patrão
Me matava a presizão
Pagava as conta ligêro
Eu nunca guardei diêro
Mais a casa eu prevenia
Comprava mercadoria
E comia o ano intêro.


Sou proficinau da roça
Mais eu fui eletrisista
Na instalação sou artista
Sou pueta da mão grossa
Andei tangendo carroça
Só nunca fui valentão
Procurando ser cidadão
Pra não receber piada
Não tenho medo de nada
Mais nunca dei um empurrão.


Eu já fui niguciante
Pois comecei com quarenta
Lutei até o cinguenta
Também vendi ambulante
E eu já prantei vazante
Já criei porco sevado
Vindi carne no mercado
Já criei cabra leitêra
Já capinei na puêra
Para limpá meu roçado.


Falando em minha história
Lembrei a meus pais querido
Deles não sou isquicido
Gravo eles na memória
Alcancei muita vitória
De papai e mamãzinha
É duas peças igualzinha
Que se tem muito valor
Minha história encompridor
Que escrevi em dez linhas.


História da minha vida
Não conto tudo a miúdo
Eu não alembro de tudo
Esta história é cumprida
Muitas couza esquicida
De tudo que se passou
Pois o tempo já levou
O que escrevo é verdade
De tudo sinto saudade
Esta vida tem valor.


Da vida sou coformado
Com fé no meu pai eterno
Eu sou um homem muderno
Não me sinto envergonhado
Sou pobre mais sou onrado
Sou forte sou lutador
Pois eu já fui morador
Trabalhei de alugado
Adorei meus pais amado
Que sempre me abensuou.


E no grupo dos idôzo
Hoje estou bem cadastrado
Todos velhos é educado
E tudo são corajôzo
Não se manga d ninguém
Todos dança muito bem
Aqui tem educação
Sessenta e dois no salão
Queria vê mais de sem.


Na nossa tercêra idade
Se pensa muito na vida
Somos rozas fulorida
Caindo os butões da saudade
Já muxado de verdde
Já ter mais um bom talento
As rais sem cricimento
As folhas sem oruvalho
Feliz quem tem agazalho
Ou pegou um apuzento.


De ciança fui uma semente
Foi prantada sem xuver
E esta só vei nascê
Quando eu era adolecente
Brotou e segui a frente
De rapaz naceu a flor
Cazado os fruto vingô
Do jeito que Deus me deu
Não me maudigo dos meu
Com eles eu tem amor.


Me apuzentei com sessenta
Sou trabalhador ruau
Da rossa sou natural
Escrevo esta com setenta
A vida que si enfrenta
É trabalhar no pezado
Ainda pranto roçado
De fruta milho e feijão
Com muita satisfação
E luto bem animado.


Me alembro que fui criança
Nunca andei com bicadêra
Com meu pai nas capueira
De tudo tenho lembrança
Eu era de comfiança
Para fazer seus mandado
Eu ia olhar o rossado
Corigia direitinho
Voltava no meu caminho
Ligêro bem apressado.


A nossa vida é beleza
Pois não importa a idade
Saudade e felicidade
Isto é a maior riqueza
Eu tenho toda serteza
Quem tem saúde pra valer
Pois na vida tem prazer
Se anda ainda ou enfrenta
Mesmo que tanha noventa
Mais na vida quer viver.


De tudo que me domino
Deus me deu copetencia
Sempre tive pasiencia
De cumprir o meu destino
Pois eu nunca fui mufino
Só trabalhei no pezado
Eu não sou homem educdo
Eu gosto de responder
Se precizar eu dizer
As couzas que esta errado.


Esta história eu termino
O tempo já se passou
A vida não demorou
A pouco tempo fui minino
Graças a Deus tive um tino
Da vida faço uma história
Pois tem dentro da mimória
Pois o pueta é lembrado
De falar no meu passado
Na vida tenho vitória.


Contei o que se passou
Peço a Deus muita saúde
Já escrevi o que pude
A vida não terminou
Jesus é nosso Senhor
Me dê mais felicidade
Eu escrevi a verdade
Escrevi tudo direito
De velho sou satisfeito
De novo, tenho saudade.