quinta-feira, 7 de junho de 2012

Crônica: Mulher Maravilha / Autora: Maria Esther Torinho


     Na vida de todas nós, há um tempo – belo tempo - em que a gente se descobre mulher. Belos tempos da adolescência, quando começamos a olhar os rapazes com interesse mais ou menos velado, quando começamos a nos arrumar de forma “adulta”, na intenção de conquistar aquele rapaz da escola ou da vizinhança.
     E quando eles passam a nos notar e a olhar com deslavado interesse, então, é a glória. É aí exatamente que a menina se faz realmente mulher: o que antes apenas um projeto, agora se revela em sua totalidade, uma obra prima pronta e acabada, capaz de despertar atenções nos moços e, principalmente, invejas, ciúmes e rivalidades nas colegas.
     Um pouco mais tarde, passamos a desempenhar uma profissão, casamos ou arranjamos um companheiro, um amigo – como é mesmo aquele ditado popular: amigado com fé...?
     Depois, ou mesmo antes, vêm os filhos, uma casa para cuidar, o marido, mil e uma responsabilidades como dona de casa, além da moderna função de profissional. Aliás, nunca é demais apontar para uma certa semelhança entre Sherazade, a das Mil e uma Noites, eternamente ocupada em distrair seu marido e senhor com belas histórias, evitando ser morta. Somos a própria Sherazade, só que nossas tarefas nada têm das interessantes histórias das mil e uma noites; constam do nosso currículo coisas tão corriqueiras e chatas como: compras do supermercado, fraldas, mamadeiras, toneladas de roupa suja e louça na pia da cozinha, e outros itens pouco nobres. E o castigo, se não dermos conta de nossos desencantos de fadas, será o eterno desprezo do senhor marido, da senhora sogra, de vizinhos e parentes, a eterna pecha de “relaxada” e outras coisas que, por piores que sejam, ainda ficam a dever à nossa consciência, que nos manda cumprir à risca nosso papel de “rainha do lar”.
     Nós nos desdobramos, fazemos gato e sapato para dar conta de tudo isso e um pouco mais, a ponto de às vezes esquecermos um pouco quem somos e nos tornarmos meros autônomos, preocupados sempre mais com os outros do que conosco.
     Hoje em dia já é mais comum as mulheres se libertarem um pouco mais – principalmente as mais jovens – e curtirem um pouco a vida, sem se afundarem nesse mar de responsabilidades que aceitamos de bom grado, mas que também nos são impingidos por circunstâncias, das quais muitas vezes nem tomamos muita consciência, dobradas sob o peso de uma cultura baseada em uma injusta divisão de tarefas, que sem querer também ajudamos a perpetuar, vergando sob o peso das responsabi....Cansei, mas cansei tanto, só de me lembrar de tudo que já trabalhei, lutei e suei, que nem consegui terminar a palavra.
     Enfim, depois de muitas lutas travadas no campo profissional, sentimental, conjugal e outros, após a criação dos filhos e outras coisitas que tais, é que me dei conta de que eu, como tantas outras, havia assumido o papel de Mulher Maravilha.
     Voava de lá para cá, fazendo tanta coisa ao mesmo tempo e dando conta de tantas tarefas, sem receber um Prêmio, nem ao menos uma pequena estatueta de Mulher Maravilha.
     Ah, eu ainda ganho uma estatueta, ora se ganho! Se não ganhar, acabo mandando fazer uma eu mesma, nem que eu tenha que trocar meu nome para Narcisa Versão Tempos Modernos!

Imagem: http://www.candy-lee.com/Wonder-Woman.html