quarta-feira, 27 de junho de 2012

Poesia: O Menino Perdido / Autor: Pablo Neruda

Lenta infância por onde
como de um pasto largo
cresce o duro pistilo,
a madeira humana.

Quem fui? O que fui? Que fomos?

Sem resposta. Passamos.
Não fomos. Éramos. Outros pés,
outras mãos, outros olhos.
Tudo se foi mudando folha a folha
na árvore. E em ti? Foi mudando tua pele,
teu cabelo, a memória. Aquele não foste.
Aquele foi um menino que ia correndo
por detrás de um rio, de uma bicicleta,
e com o movimento
foi-se a tua vida naquele minuto.
Falsa identidade seguiu teus passos.
Dia por dia as horas se amarraram,
mas tu já não eras pois vinha o outro,
um outro tu, um outro até que foste,
até que te tiraste
do próprio passageiro,
e do trem, e dos comboios da vida,
e da substituição do caminhante.
A máscara infantil foi se trocando,
adelgaçou sua condição dorida,
aquietou seu cambiante poderio:
o esqueleto se manteve bem firme,
a construção do osso permaneceu,
o sorriso,
o passo, mais um gesto voador, o eco
daquela criança nua
que surgiu de um relâmpago,
mas foi o crescimento como um traje!
Era outro o homem e o levou emprestado.

Assim passou comigo.

Um rústico
cheguei a cidade, gás, rostos cruéis
que mediram minha luz e estatura,
cheguei a mulheres que em mim se buscaram
como se a mim tivessem me perdido,
e assim foi sucedendo
o homem impuro
filho do filho puro,
até que nada foi como havia sido,
e de repente apareceu em meu rosto
um rosto de estrangeiro
e era também eu mesmo:
e era eu que crescia,
eras tu que crescias,
era tudo,
e mudamos
e nunca mais soubemos quem nós éramos,
e às vezes recordamos
ao que viveu conosco
e lhe pedimos algo, talvez que nos lembre,
que saiba ao menos que fomos ele e falamos
com sua língua,
mas desde as horas que se consumiram
aquele olha e não nos reconhece.

Imagem: http://maradamian.deviantart.com/