sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Cantiga: A canoa virou

A canoa virou,
fui deixar ela virar,
foi por causa de fulano
que não soube remar.

Siriri pra cá, siriri pra lá
fulana é velha
e quer se casar.


Siriri pra cá, siriri pra lá
fulana é velha
e quer se casar.

Se eu fosse um peixinho
e soubesse nadar,
eu tirava fulano
do fundo do mar.


Siriri pra cá, siriri pra lá
fulana é velha
e quer se casar.


Siriri pra cá, siriri pra lá
fulana é velha
e quer se casar.

Imagem: http://llooyydd.deviantart.com/

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cordel: A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99 / Autor: Janduhi Dantas

Hoje em dia, meus amigos
os direitos são iguais
tudo o que faz o marmanjo
hoje a mulher também faz
se o homem se abestalhar
a mulher bota pra trás.

Acabou-se aquele tempo
em que a mulher com presteza
se fazia para o homem
artigo de cama e mesa
a mulher se fez mais forte
mantendo a delicadeza.

Não é mais "mulher de Atenas"
nem "Amélia" de ninguém
eu mesmo sempre entendi
que a mulher direito tem
de sempre só ser tratada
por "meu amor" e "meu bem".

Hoje o trabalho de casa
meio a meio é dividido
para ajudar a mulher
homem não faz alarido
quando a mulher lava a louça
quem enxuga é o marido!

Também na sociedade
é outra a situação
a mulher hoje já faz
tudo o que faz o machão
há mulher que até dirige
trem, trator e caminhão.

Esse fato todo mundo
já deu pra assimilar
a mulher hoje já pode
seu espaço conquistar
quem não concorda com isso
é muito raro encontrar.

Entretanto ainda existe
caso de exploração
o salário da mulher
é de chamar atenção
bem menor que o do homem
fazendo a mesma função.

Também tem cabra safado
que não muda o pensamento
que não respeita a mulher
que não honra o casamento
que a vida de pleibói
não esquece um só momento.

Era assim que Damião
(o ex-marido de Côca)
queria viver: na cama
sem tirar copo da boca
enquanto sua mulher
em casa feito uma louca...

... cuidando de três meninos
lavando roupa e varrendo
feito uma negra-de-ferro
de fome o corpo tremendo
e o marido cachaceiro
pelos botequins bebendo.

Mas diz o velho ditado
que todo mal tem seu fim
e o fim do mal de Côca
um dia chegou enfim
foi quando Côca de estalo
pegou a pensar assim:

"Nessa vida que eu levo
eu não tô vendo futuro
eu me sinto navegando
em mar revolto e escuro
vou remar no meu barquinho
atrás de porto seguro."

"Na próxima raiva que eu tenha
desse meu marido ruim
qualquer mal que me fizer
tomarei como estopim
e a triste casamento
eu vou decidir dar fim."

Estava Côca pensando
na vida quando chegou
Damião morto de bêbado
(nem boa-noite falou
passava da meia-noite)
e na cama se atirou!

Dona Côca foi dormir
muito triste e revoltada
contudo tinha na mente
a sua ação planejada
pra dar novo rumo à vida
já estava preparada.

De manhã Côca acordou
com a braguilha pra trás
deu cinco murros na mesa
e gritou: "Ô Satanás
eu vou te vender na feira
vou já fazer um cartaz!"

Pegou uma cartolina
que ela havia escondido
escreveu nervosamente
com a raiva do bandido:
"Por um e noventa e nove
estou vendendo o marido."

Assim mostrou ter no sangue
sangue de Leila Diniz
Pagu, Maria Bonita
de Anayde Beiriz
(de brasileiras de fibra)
de Margarida e Elis!

Pegou o marido bêbado
de jeito, pela abertura
da direção do mercado
ela saiu à procura
de vender o seu marido
ia com muita secura!

Ficou na feira de Patos
no mais horrendo lugar
(na conhecida U.T.I.)
e começou a gritar:
"Tô vendendo o meu marido
quem de vocês quer comprar?"

Umas bêbadas que estavam
estiradas pelo chão
despertaram com os gritos
e uma do cabelão
perguntou a Dona Côca:
"Qual o preço do gatão?"

"É um e noventa e nove
não está vendo o cartaz?"
Dona Côca respondeu
e a bêbada disse: "O rapaz
tem uma cara simpática
acho até que vale mais."

Damião estava "quieto"
e de ressaca passado
com cordas nos pés e braços
numa cadeira amarrado
também tinha um esparadrapo
em sua boca colado.

Começou a chegar gente
se formou a multidão
em volta de Dona Côca
e o marido Damião
quando deu fé, logo, logo
encostou o camburão.

Nisso um cabo da polícia
do camburão foi descendo
e perguntando abusado:
"Que é que tá acontecendo?"
Alguém disse: "Esta mulher
o marido está vendendo."

Do meio do povo disse
um velho em tom de chacota:
"Esse caneiro já tem
uma cara de meiota
não tem mulher que dê nele
de dois reais uma nota."

E, de fato, ô cabra feio
desalinhado e barbudo
fedendo a cana e a cigarro
com um jeito carrancudo
banguelo, um pouco careca
pra completar barrigudo.

Nisso chegou uma velha
que vinha com todo o gás
e disse para si mesma
depois de ler o cartaz
"Hoje eu tiro o prejuízo
com esse lindo rapaz!".

Disse a velha: "Francamente!
Eu estou achando pouco!
Por 1 e 99?!
Tome dois, nem quero o troco!
Deixe-me levar pra casa
esse meu Chico Cuoco!".

Saiu a velha enxerida
de braços com Damião
a polícia prontamente
dispersou a multidão
e Côca tirou por fim
um peso do coração.

Retornou Côca feliz
pra casa entoando hinos
a partir daquele dia
teria novos destinos...
Com os dois reais da venda
comprou de pão pros meninos!

Imagem: http://leiacordel.com.br/1/72-a-mulher-que-vendeu-o-marido-por-r-199.html

Crônica: Não se iluda, ninguém terá pena de você / Autor: Luiz Marins

     Um dos maiores erros que cometemos na vida é ficar esperando a compaixão e ajuda das outras pessoas. Ficamos esperando que as pessoas reconheçam nossas dificuldades, nossos problemas e que tenham pena ao ver o quanto sofremos. Pura ilusão! Mesmo as pessoas mais chegadas decepcionarão você se esperar delas a compreensão por seus problemas e aflições e ainda mais a ajuda concreta. Assim, não corra o risco dessa decepção. Não espere a compaixão alheia. E a verdade é que mesmo que as pessoas digam compreender seus problemas e saber como você se sente frente a eles, jamais saberão o que se passa dentro de você e você sempre desejará mais compaixão, mais compreensão e ajuda. Não caia nessa!
     Conheço pais que entram em depressão pois esperavam a ajuda de seus filhos. Conheço filhos decepcionados com pais. Conheço parentes decepcionados com seus tios, primos, sobrinhos, etc. Conheço empregados decepcionados com seus patrões e patrões decepcionados com seus empregados.
     Essa decepção, que muitas vezes chega próximo a uma profunda desilusão, é fruto de uma expectativa irreal e ingênua de que seremos reconhecidos por alguma coisa que tenhamos feito no passado; compreendidos pela nossa situação atual com alguma dificuldade, seja financeira, de saúde, ou de outra ordem qualquer. Você pode ajudar uma pessoa o quanto puder, mas não espere a sua eterna gratidão. Você cria, educa, cuida de vários filhos, mas não viva com a certeza de que eles cuidarão de você na velhice. Você deu a vida pela sua empresa, mas não espere que ela reconheça essa sua dedicação. Da mesma forma, como patrão, não fique esperando a gratidão daquele desempregado que você salvou da fome dando-lhe uma oportunidade de emprego e que o abandona na primeira oferta de um novo emprego.
     Sei que dirão que este meu texto é muito duro, triste e mesmo desmotivador. Pelo contrário. Ele relata a realidade que todos sabemos.
     Escrevo isto justamente para que as pessoas não se desiludam, esperando a compaixão, o reconhecimento, a gratidão e a ajuda de outras pessoas. Se você não tiver essa ilusão, terá sempre surpresas agradáveis quando ocorrer o contrário, isto é, quando alguém for leal, reconhecido, ajudar você e for grato.
     Nós próprios temos que cuidar de nossas vidas, de nossos problemas. É claro que muitos ajudam, mas não viva na certeza dessa ajuda. Não se desiluda. Não se decepcione. Ninguém terá pena de você.
     Passe do plano do choro ao plano da ação. Assuma sua própria vida sem esperar a compaixão alheia. Pense nisso. Sucesso!

Imagem: Sabryna Keisy. 

sábado, 25 de agosto de 2012

Adivinhas (do livro O Hobbit, de J. R. R. Tolkien)

1- "Não tem raiz que se enxergue, mais alto que árvore se ergue, alto, alto parece e jamais, no entanto, cresce."

2- "No morro vermelho, trinta brancos cavalos; primeiro cabeceiam, depois pisoteiam, depois é fácil pará-los."

3- "Sem voz ele grita, sem asa ele voa, sem dente ele morde, sem boca ressoa."

4- "O olho no rosto azul viu o olho no verde rosto. "Como este aquele olho" disse o primeiro olho, "Mas embaixo, não no alto posto.""

5- "Não o que se sinta, nem o que se veja, não se escuta nem se fareja, atrás das estrelas, sob as colinas, preenche buracos vazios nas minas, primeiro chega, por fim se espia, acaba com a vida e mata a alegria."

6- "É uma caixa sem tampa, sem fecho também, mas de ouro é o tesouro que ela contém."

7- "Vivo está, mas nunca respira, no frio da morte seu corpo se mira; sempre tem sede porém nunca bebe, de sua armadura nem som se percebe."

8- "Sem-perna jaz em uma-perna, duas-pernas senta em três-pernas, quatro-pernas ganha um pouco."

9- "Esta coisa tudo devora: árvore e ave, fauna e flora; rói o ferro, morde o aço: mói a pedra sem deixar traço; mata o rei, destrói a aldeia, do alto monte faz areia."


Respostas:
1- montanha; 2- dentes; 3- vento; 4- Sol; 5- escuro; 6- ovos; 7- peixe; 8- peixe numa mesinha, homem a mesa sentado num banco, gato fica com as espinhas; 9- tempo

domingo, 12 de agosto de 2012

Poesia: Mutatis Mutandis / Autor: Bartyra Soares

Tomo a forma do mar.
Se é preciso que em minhas águas
navegue o vento e em mim
o sol refaça caminhos
de impulsos e chamas verdes
não me furto ao compromisso que hoje
me impõe esta manhã.

Minhas águas de sal e segredo
ferem-se na aspereza dos corais
e por não ser lâmina e por não
ser espinho não tenho
como revidar. Deixo que minha dor
em mim desabe. Recolho meu grito
de incertezas e convicções.

E quando a última gaivota
da tarde no poente pousar
a sombra do seu cansaço
só então serei quem fui.
Assim sobre penhascos
e dunas não mais depositarei
lembranças e sargaços.

Imagem: Wikipédia.

Acróstico: Amizade / Autora: Mardilê Fabre

Amigo é fácil conquistar,
Muito difícil conservar,
Impossível abandonar
Zelo assim tão peculiar.
Amar com determinação,
Dedicar-se sem injunção,
Entrelaçar-se em oblação.

Imagem: Sabryna Keisy.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Conto: Cinderela / Autores: Irmãos Grimm

     Há muito tempo, aconteceu que a esposa de um rico comerciante adoeceu gravemente e, sentindo seu fim se aproximar, chamou sua única filha e disse:
     - Querida filha, continue piedosa e boa menina que Deus a protegerá sempre. Lá do céu olharei por você, e estarei sempre ao seu lado - mal acabou de dizer isso, fechou os olhos e morreu.
     A jovem ia todos os dias visitar o túmulo da mãe, sempre chorando muito.
     Veio o inverno, e a neve cobriu o túmulo com seu alvo manto. Chegou a primavera, e o sol derreteu a neve. Foi então que o viúvo resolveu se casar outra vez.
     A nova esposa trouxe suas duas filhas, ambas louras e bonitas - mas só exteriormente. As duas tinham a alma feia e cruel.
     A partir desse momento, dias difíceis começaram para a pobre enteada.
     - Essa imbecil não vai ficar no quarto conosco! - Reclamaram as moças. - O lugar dela é na cozinha! Se quiser comer pão, que trabalhe!
     Tiraram-lhe o vestido bonito que ela usava, obrigaram-na a vestir outro, velho e desbotado, e a calçar tamancos.
     - Vejam só como está toda enfeitada, a orgulhoso princesinha de antes! - Disseram a rir, levando-a para a cozinha.
     A partir de então, ela foi obrigada a trabalhar, da manhã à noite, nos serviços mais pesados. Era obrigada a se levantar de madrugada, para ir buscar água e acender o fogo. Só ela cozinhava e lavava para todos.
     Como se tudo isso não bastasse, as irmãs caçoavam dela e a humilhavam. Espalhavam lentilhas e feijões nas cinzas do fogão e obrigavam-na a catar um a um.
     À noite, exausta de tanto trabalhar, a jovem não tinha onde dormir e era obrigada a se deitar nas cinzas do fogão. E, como andasse sempre suja e cheia de cinza, só a chamavam de Cinderela.
     Uma vez, o pai resolveu ir a uma feira. Antes de sair, perguntou às enteadas o que desejavam que ele trouxesse.
     - Vestidos bonitos - disse uma.
     - Pérolas e pedras preciosas - disse a outra.
     - E você, Cinderela, o que vai querer? - perguntou o pai.
     - No caminho de volta, pai, quebre o primeiro ramo que bater no seu chapéu e traga-o para mim.
     Ele partiu para a feira, comprou vestidos bonitos para uma das enteadas, pérolas e pedras preciosas para a outra e, de volta para casa, quando cavalgava por um bosque, um ramo de aveleira bateu no seu chapéu. Ele quebrou o ramo e levou-o. Chegando em casa, deu às enteadas o que haviam pedido e à Cinderela, o ramo de aveleira.
     Ela agradeceu, levou o ramo para o túmulo da mãe, plantou-o ali, e chorou tanto que suas lágrimas regaram o ramo. Ele cresceu e se tornou uma aveleira linda. Três vezes, todos os dias, a menina ia chorar e rezar embaixo dela.
     Sempre que a via chegar, um passarinho branco voava para a árvore e, se a ouvia pedir baixinho alguma coisa, jogava-lhe o que ela havia pedido.
     Um dia, o rei mandou anunciar uma festa, que duraria três dias. Todas as jovens bonitas do reino seriam convidadas, pois o filho dele queria escolher entre elas aquela que seria sua futura esposa.
     Quando souberam que também deveriam comparecer, as duas filhas da madrasta ficaram contentíssimas.
     - Cinderela! - Gritaram. - Venha pentear nosso cabelo, escovar nossos sapatos e nos ajudar a vestir, pois vamos a uma festa no castelo do rei!
     Cinderela obedeceu chorando, porque ela também queria ir ao baile. Perguntou à madrasta se poderia ir, e esta respondeu:
     - Você, Cinderela! Suja e cheia de pó, está querendo ir à festa? Como vai dançar, se não tem roupa nem sapatos?
     Mas Cinderela insistiu tanto, que afinal ela disse:
     - Está bem. Eu despejei nas cinzas do fogão um tacho cheio de lentilhas. Se você conseguir catá-las todas em duas horas, poderá ir.
     A jovem saiu pela porta dos fundos, correu para o quintal e chamou:
     - Mansas pombinhas e rolinhas!
       Passarinhos do céu inteiro!
       Venham me ajudar a catar lentilhas!
       As boas vão para o tacho!
       As ruins para o seu papo!
     E entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas.
     As pombas abaixavam a cabecinha e pic, pic, pic, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. Os outros pássaros faziam o mesmo. Não passou nem meia hora, e os dois tachos ficaram cheios. As aves se foram voando pela janela.
     Então, a menina levou os dois tachos para a madrasta, certa de que, desta vez, poderia ir à festa.
     Porém, a madrasta disse:
     - Não adianta, Cinderela! Você não vai ao baile! Não tem vestido, não sabe dançar e só nos faria passar vergonha!
     E, dando-lhe as costas, partiu com suas orgulhosas filhas.
     Quando ficou sozinha, Cinderela foi ao túmulo da mãe e embaixo da aveleira, disse:
     - Balance e se agite,
       árvore adorada
       cubra-me toda
       de ouro e prata!
     Então o pássaro branco jogou para ela um vestido de ouro e prata e sapatos de seda bordada de prata. Cinderela se vestiu, a toda pressa, e foi para a festa.
     Estava tão linda, no seu vestido dourado, que nem as irmãs, nem a madrasta a reconheceram. Pensaram que fosse uma princesa estrangeira - para elas, Cinderela só poderia estar em casa, catando lentilhas nas cinzas.
     Logo que a viu, o príncipe veio a seu encontro e, pegando-lhe a mão, levou-a para dançar. Só dançou com ela, sem largar de sua mão por um instante.
     Quando alguém a convidava para dançar, ele dizia:
     - Ela é minha dama.
     Dançaram até altas horas da noite e, afinal, Cinderela quis voltar para casa.
     - Eu a acompanho - disse o príncipe. Na verdade, ele queria saber a que família ela pertencia.
     Mas Cinderela conseguiu escapar dele, correu para casa e se escondeu no pombal. O príncipe esperou o pai dela chegar e contou-lhe que a jovem desconhecida tinha saltado para dentro do pombal.
     "Deve ser Cinderela...", pensou o pai. E mandou vir um machado para arrombar a porta do pombal. Mas não havia ninguém lá dentro.
     Quando chegaram em casa, encontraram Cinderela com suas roupas sujas, dormindo nas cinzas, à luz mortiça de uma lamparina.
     A verdade é que, assim que entrou no pombal, a menina saiu pelo lado de trás e correu para a aveleira. Ali, rapidamente tirou seu belo vestido e deixou-o sobre o túmulo. Veio o passarinho, apanhou o vestido e levou-o. Ela vestiu novamente seu vestidinho velho e sujo, correu para casa e se deitou nas cinzas da cozinha.
     No dia seguinte, o segundo dia da festa, quando os pais e as irmãs partiram para o castelo, Cinderela foi até a aveleira e disse:
     - Balance e se agite,
       árvore adorada
       cubra-me toda
       de ouro e prata!
     E o pássaro atirou para ela um vestido ainda mais bonito que o da véspera. Quando ela entrou no salão assim vestida, todos ficaram pasmados com a sua beleza.
     O príncipe, que a esperava, tomou-lhe a mão e só dançou com ela. Quando alguém convidava a jovem para dançar, ele dizia:
     - Ela é minha dama.
     Já era noite avançada quando Cinderela quis ir embora. O príncipe seguiu-a, para ver em que casa entraria.
     A jovem seguiu seu caminho e, inesperadamente, entrou no quintal atrás da casa. Ágil como um esquilo, subiu pela galharia de uma frondosa pereira carregada de frutos que havia ali. O príncipe não conseguiu descobri-la e, quando viu o pai dela chegar, disse:
     - A moça desconhecida escondeu-se nessa pereira.
     "Deve ser Cinderela", pensou o pai. Mandou buscar um machado e derrubou a pereira. Mas não encontraram ninguém na galharia.
     Como na véspera, Cinderela já estava na cozinha dormindo nas cinzas, pois havia escorregado pelo outro lado da pereira, correra para a aveleira, e devolvera o lindo vestido ao pássaro. Depois, vestiu o feio vestidinho de sempre, e correu para casa.
     No terceiro dia, assim que os pais e as irmãs saíram para a festa, Cinderela foi até o túmulo da mãe e pediu a aveleira:
     - Balance e se agite,
       árvore adorada
       cubra-me toda
       de ouro e prata!
     E o pássaro atirou-lhe o vestido mais suntuoso e brilhante jamais visto, acompanhado de um par de sapatinhos de puro ouro.
     Ela estava tão linda, tão linda, que, quando chegou ao castelo, todos emudeceram de assombro. O príncipe só dançou com ela e, como das outras vezes, dizia a todos que vinham tirá-la para dançar:
     - Ela é minha dama.
     Já era noite alta, quando Cinderela quis voltar para casa. O príncipe tentou segui-la, mas ela escapuliu tão depressa, que ele não pode alcançá-la.
     Dessa vez, porém, o príncipe usara um estratagema: untou com piche um degrau da escada e, quando a moça passou, o sapato do pé esquerdo ficou grudado. Ela deixou-o ali e continuou correndo.
     O príncipe pegou o sapatinho: era pequenino, gracioso e todo de ouro. No outro dia, de manhã, ele procurou o pai e disse:
     - Só me casarei com a dona do pé que couber neste sapato.
     As irmãs de Cinderela ficaram felizes e esperançosas quando souberam disso, pois tinham pés delicados e bonitos.
     Quando o príncipe chegou à casa delas, a mais velha foi para o quarto acompanhada da mãe e experimentou o sapato. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia meter dentro dele o dedo grande do pé. Então, a mãe deu-lhe uma faca, dizendo:
     - Corte fora o dedo. Quando você for rainha vai andar muito pouco a pé.
     Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele recebeu-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.
     Quando passavam pelo túmulo da mãe de Cinderela, que ficava bem no caminho, duas pombas posaram na aveleira e cantaram:
     - Olhe para trás! Olhe para trás!
       Há sangue no sapato,
       que é pequeno demais!
       Não é a noiva certa
       que vai sentada atrás!
     O príncipe virou-se, olhou o pé da moça e logo viu o sangue escorrendo do sapato. Fez o cavalo voltar e levou-a para a casa dela.
     Chegando lá, ordenou à outra filha da madrasta que calçasse o sapato. Ela foi para o quarto e calçou-o. Os dedos do pé entraram facilmente, mas o calcanhar era grande demais e ficou de fora. Então, a mãe deu-lhe uma faca dizendo:
     - Corte fora um pedaço do calcanhar. Quando você for rainha, vai andar muito pouco a pé.
     Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele aceitou-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.
     Quando passaram pela aveleira, duas pombinhas pousaram num dos ramos e cantaram:
     - Olhe para trás! Olhe para trás!
       Há sangue no sapato,
       que é pequeno demais!
       Não é a noiva certa
       que vai sentada atrás!
     O príncipe olhou o pé da moça, viu o sangue escorrendo e a meia branca, vermelha de sangue. Então virou seu cavalo, levou a falsa noiva de volta para casa e disse ao pai:
     - Esta também não é a verdadeira noiva. Vocês não têm outra filha?
     - Não - respondeu o pai - a não ser a pequena Cinderela, filha de minha falecida esposa. Mas é impossível que seja ela a noiva que procura.
     O príncipe ordenou que fossem buscá-la.
     - Oh, não! Ela está sempre muito suja! Seria uma afronta trazê-la a vossa presença! - protestou a madrasta.
     Porém o príncipe insistiu, exigindo que ela fosse chamada. Depois de lavar o rosto e as mãos ela veio, curvou-se diante do príncipe e pegou o sapato de ouro que ele lhe estendeu.
     Sentou-se num banquinho, tirou do pé o pesado tamanco e calçou o sapato, que lhe serviu como uma luva. Quando ela se levantou, o príncipe viu seu rosto e reconheceu logo a linda jovem com quem havia dançado.
     - É esta a noiva verdadeira! - exclamou, feliz.
     A madrasta e as filhas levaram um susto e ficaram brancas de raiva. O príncipe ergueu Cinderela, colocou-a na garupa do seu cavalo e partiram. Quando passaram pela aveleira, as duas pombinhas brancas cantaram:
     - Olhe para trás! Olhe para trás!
       Não há sangue no sapato,
       que serviu bem demais!
       Essa é a noiva certa.
       Pode ir em paz!
     E, quando acabaram de cantar, elas voaram e foram pousar, uma no ombro direito de Cinderela, outra no esquerdo; ali ficaram.
     Quando o casamento de Cinderela com o príncipe se realizou, as falsas irmãs foram à festa. A mais velha ficou à direita do altar, e a mais nova, à esquerda.
     Subitamente, sem que ninguém pudesse impedir, a pomba pousada no ombro direito da noiva voou para cima da irmã mais velha e furou-lhe os olhos. A pomba do ombro esquerdo fez o mesmo com a mais nova, e ambas ficaram cegas para o resto de suas vidas.

Imagem: Wikipédia.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Poesia: O Palhaço / Autor: Vicente Freitas

Quando o palhaço a dor num riso esculpe-a
e transmuda-a num tênue pranto, e vence-o
sente, às vezes, aflição, uma volúpia
que o faz sofrer sorrindo ou em silêncio.

No picadeiro canta e rola e cala
ninguém sabe quem é, qual o seu nome
qual a família que a miséria embala
quais os filhinhos, muita vez, com fome.

Conta histórias, alegre... e logo finda
sorri e canta alguma coisa linda
não tinha inspiração, mas apelava.

E eu que, pasmado, tanto gargalhava
fico confuso e mais surpreso ainda
não sorria o palhaço, e sim, chorava.

Imagem: http://garelito.deviantart.com/

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Oração do Credo

Creio em Deus-Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo seu único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu a mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita de Deus-Pai, todo poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna, Amém.

Imagem: http://smashingpicture.com/into-the-trees/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:%20SmashingPicture%20(Smashing%20Picture)