segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Apólogo: O caçador providencial / Autor: Chico Xavier (ditado pelo espírito Irmão X)

     Conversávamos acerca do sofrimento, quando o orientador hindu que nos acompanhava contou uma simplicidade infantil:
     - O Anjo da Libertação desceu do Paraíso a este mundo, pousando num cômoro verdejante, a reduzida distância do mar.
     Aproximaram-se dele um melro, um abutre, uma tartaruga e uma borboleta.
     Reconhecendo que essa era a assembléia de que podia dispor para a revelação que trazia, o iluminado peregrino começou ali mesmo, a exalar as virtudes do Alto, convidando-os à Vida Superior.
     Com frases convincentes, esclareceu que o melro, guindando aos cimos de luz, transformar-se-ia num pombo alvo, que o abutre seria metamorfoseado numa ave celestial, que a tartaruga receberia nova forma, suave e leve, em que lhe seria possível planar na imensidão azul e que a borboleta converter-se-ia em estrela luminescente...
     Os ouvintes assinalaram as promessas com emoção; no entanto, assim que o silêncio voltou a reinar, o melro alegou:
     - Anjo bom, escuse-me! Um ninho espera-me no arvoredo... Meus filhotes não me entenderiam a ausência...
     E afastou-se, apressado.
     O abutre confessou em tom enigmático:
     - Comovente é a vossa descrição do Plano Divino, entretanto, possuo interesses valiosos no mundo. Preciso voar...
     E partiu, batendo as asas, a fim de arrojar-se sobre carniça próxima.
     A tartaruga moveu-se lentamente e explicou:
     - Quisera seguir-vos, abandonando o cárcere sob o qual me arrasto no solo, contudo, tenho meus ovos na praia...
     E regressou pachorrenta, à habitação que lhe era própria.
     A borboleta achegou-se ao pregador da bem-aventurança e disse delicada:
     - Santo, não posso viajar convosco. Moro num tronco florido e meus parentes não me desculpariam a fuga.
     E tornou à frescura do bosque.
     O anjo, que não podia violentá-los, marchou sozinho, para adiante...
     A borboleta, porém, apenas avançara alguns metros, na volta a casa, viu-se defrontada por hábil caçador que lhe cobiçava as asas brilhantes.
     Após longa resistência, tentou alcançar a árvore em que residia, mas, perseguida, presenciou a morte de alguns dos familiares que repousavam. Chorosa, buscou refugiar-se em velha furna, sendo facilmente desalojada pelo implacável verdugo. Ensaiou, debalde, esconder-se entre velhos barcos esquecidos na areia... Tudo em vão, porque o homem tenaz era astucioso e sabia frustrar-lhe todas as tentativas de defesa, armando-lhe ciladas cada vez mais inquietantes. 
     Quando a pobre vítima se sentia fraquejar, lembrou-se do Anjo da Libertação e voou ao encontro dele.
     O mensageiro divino recebeu-a, contente, e, oferecendo-lhe asilo nos próprios braços, garantiu-lhe a salvação.
     O narrador fez pequena pausa e considerou:
     - O sofrimento é assim como um caçador providencial em nossas experiências. Sem ele, a Humanidade não se elevaria à renovação e ao progresso. Quem se acomoda com os planos inferiores, dificilmente consegue descortinar a Vida Mais Alta, sem o concurso da dor. Saibamos, assim, tolerar a aflição e aproveitá-la. Quando a criatura se vê na condição da borboleta aflita e desajustada, aprende a receber na Terra o socorro do céu.
     Calou-se o mentor sábio, e, porque ninguém comentasse o formoso apólogo, passamos todos a refletir.

Imagem: Sabryna Keisy.