quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Adivinhas

1- "Não tem forma, não tem jeito
      Mas vê-se a longa distância
      Não tem boca não tem peito,
      Vence qualquer discordância."

2- "Uma dama muito branca, toda de branco vestida; quanto mais alegre está, mais chora de arrependida."

3- "Uma senhora delicada
      com a saia redondinha,
      ao dançar numa casa
      deixa-a muito asseadinha."

4- "Tenho casas sem ser bairro, no meu nome casa tenho, sem ser cão protejo o dono, que me usa se lhe convenho."

5- "Qual é o bicho que anda com patas?"

6- "Qual é o pássaro que em gaiola não se prende, só se prende quando se solta, por mais alto que ele voe, preso vai e preso volta?"

7- "Uma casa com doze meninas.
      cada uma com quatro quartos,
      todas elas usam meias,
      nenhuma rompe sapatos."

8- "Sem voz encanto quem me ouve;
      tenho leito e não durmo;
      e, com o tempo, corro sempre."

9- "Uma viúva presumida, toda de luto vestida, e de flores coroada, e do velho perseguida? Quando o velho a persegue, ela faz a retirada."

10- "Água sem do céu cair,
        nem da terra nascer
        e que se não pode beber."

Respostas:
1-amor; 2-vela; 3-vassoura; 4-casaco; 5-pato; 6-papagaio de papel; 7-relógio; 8-rio; 9-noite; 10-lágrima

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Discurso: Martin Luther King na Marcha sobre Washington (Eu Tenho um Sonho)

"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia em que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob a sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.


Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.


Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.


Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhoso condição.


De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Essa nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".


Mas nós nos recusamos a creditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.


Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranquilizante do gradualismo.


Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.


Agora é o tempo para subir do vale do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.


Agora é tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.


Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação voltar aos negócios de sempre.


Mas há algo que eu tenho que dizer que meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processe de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente à nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.


E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"


Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississípi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.


Eu não esqueci que alguns de vocês vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de vocês vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Vocês são os veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississípi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos  

de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.


Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.


Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.


Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado do Mississípi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.


Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!


Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com o seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!


Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a Glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.


Esta é a nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livres. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.


"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto. Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos, de qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"


E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.


E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.


Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas de Nova Iorque.


Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.


Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.


Ouvirei os sinos da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.


Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na montanha de pedra da Geórgia.


Ouvirei o sino da liberdade na montanha da vigilância do Tennessee.


Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississípi.


Em todas as montanhas, ouvirei o sino da liberdade.


E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e em todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho espiritual negro: "Livre afinal, livre afinal. Agradeço ao Deus Todo-Poderoso, nós somos livres afinal."


Eu tenho um sonho."


Imagem: Wikipédia.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Música: O bêbado e a equilibrista / Compositores: João Bosco e Aldir Blanc

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!...

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil...

Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar...

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar...

Para ver e ouvir: YouTube.
Imagem: http://scummy.deviantart.com/

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Oração à Nossa Senhora de Fátima

Santíssima Virgem, que nos montes de Fátima vos dignastes revelar aos três pastorinhos os tesouros de graças que podemos alcançar, rezando o Santo Rosário, ajudai-nos a apreciar sempre mais esta santa oração, a fim de que, meditando os mistérios da nossa redenção, alcancemos as graças que insistentemente vos pedimos.
Ó Jesus, perdoai-nos; livrai-nos do fogo do inferno; levai todas as almas para o céu, especialmente as que mais precisarem.
Maria Santíssima, volvei vossos olhos misericordiosos para este mundo tão necessitado de paz, de saúde e justiça. Vinde em nosso auxílio, Mãe dos aflitos, e socorrei-nos com Vosso Amor e Piedade. Nossa Senhora do Rosário de Fátima, rogai por nós.
Amém.

Imagem: http://fatima.arautos.org/a-morte-da-irma-lucia/

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Poesia: O Constante Diálogo / Autor: Carlos Drummond de Andrade

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
                o semelhante
                o diferente
                o indiferente
                o oposto
                o adversário
                o surdo-mudo
                o possesso
                o irracional
                o vegetal
                o mineral
                o inominado

Diálogo consigo mesmo
                com a noite
                os astros
                os mortos
                as ideias
                o sonho
                o passado
                o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
                        e
tua melhor palavra
                        ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Imagem: BBC_HumanPlanet.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Fábula: O Cão e o Osso / Autor: Esopo

     Um dia, um cão ia atravessando uma ponte, carregando um osso na boca.
     Olhando para baixo, viu sua própria imagem refletida na água. Pensando ver outro cão, cobiçou-lhe logo o osso e pôs-se a latir. Mal, porém, abriu a boca, seu próprio osso caiu na água e se perdeu para sempre.

Mais vale um pássaro na mão que dois voando.

Imagem: Sabryna Keisy.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Conto: O Príncipe Canário / Autor: Ítalo Calvino

     Era uma vez um rei que tinha uma filha. A mãe da menina morrera e a madrasta sentia muito ciúme da enteada; sempre falava mal dela para o rei.
     A moça vivia a se desculpar e a se desesperar; porém, a madrasta tanto falou e tanto fez que o rei, embora afeiçoado à filha, acabou dando razão à rainha e decidiu expulsá-la de casa. Contudo, disse que ela deveria ficar em um lugar no qual se instalasse bem, pois não admitiria que fosse maltratada.
     - Quanto a isso - disse a madrasta -, fique tranquilo, não pense mais no caso.
     E mandou encerrar a moça num castelo no meio do bosque. Destacou um grupo de dama da corte e as mandou para lá, a fim de fazer companhia a ela, com a recomendação de que não a deixassem sair, e nem mesmo se aproximar da janela. Naturalmente, lhes pagava salários da casa real.
     A moça recebeu um aposento bem montado, podendo beber e comer tudo que quisesse: só não podia sair. Todavia, as damas, muito bem pagas e com tanto tempo livre, nem se preocupavam com ela.
     De vez em quando, o rei perguntava à mulher:
     - E nossa filha, como vai? O que fez de bom?
     A rainha, para mostrar que se interessava pela jovem, foi visitá-la. No castelo, assim que desceu da carruagem, foi recebida pelas damas, dizendo-lhe que ficasse tranquila, que a moça estava muito bem e era muito feliz. A rainha subiu um momento até o quarto da moça.
     - E então, está realmente bem? Está com uma bela cor, vejo que a aparência é boa. Mantenha-se alegre, hein? Até a próxima. - E foi embora.
     Chegando ao castelo, disse ao rei que jamais vira sua filha tão contente.
     Mas na verdade, sempre sozinha naquele aposento, pois as damas de companhia jamais lhe davam atenção, a princesa passava os dias tristemente debruçada na janela.
     Debruçava-se com os braços apoiados no balcão e teria feito um calo nos cotovelos, se não tivesse lembrado de colocar uma almofada embaixo deles.
     A janela dava para o bosque e a princesa, durante o dia inteiro, só via os cimos das árvores, as nuvens e a trilha dos caçadores.
     Um dia, passou por ali o filho de um rei, que perseguia um javali. Ele sabia que aquele castelo havia muito tempo estava desabitado, e se admirou ao ver sinais de vida: panos estendidos entre as ameias, fumaça nas chaminés, vidraças abertas.
     Observava tudo, quando viu, em uma janela lá do alto, uma bela moça debruçada, e sorriu para ela. A moça também viu o príncipe, vestido de amarelo e com polainas de caçador e espingarda, que olhava para cima e sorria para ela; então, ela também sorriu para ele.
     Ficaram assim uma hora, olhando-se e rindo, e também fazendo gestos e reverências, pois a distância que os separava não permitia outras comunicações.
     No dia seguinte, aquele filho de rei vestido de amarelo, com a desculpa de ir caçar, estava lá de novo, e ficaram se olhando por duas horas. Dessa vez, além dos sorrisos, gestos e reverências, puseram também uma das mãos no coração e acenaram lenços durante um bom tempo.
     No terceiro dia, o príncipe ficou três horas e eles chegaram até a mandar um beijo, um para o outro, na ponta dos dedos.
     No quarto dia, ele estava lá como sempre quando, de trás de uma árvore, apareceu uma bruxa que começou a zombar:
     - Uah! Uah! Uah!
     - Quem é você? De que está rindo? - Disse energicamente o príncipe.
     - Onde é que já se viu dois namorados tão estúpidos a ponto de ficar tão distantes?
     - Se soubesse como fazer para alcançá-la, avozinha... - disse o príncipe.
     - Acho os dois simpáticos - disse a bruxa - e vou ajudá-los.
     E, indo bater à porta do castelo, deu às damas de companhia um velho livraço ressequido e besuntado, dizendo que era um presente para a princesa, para que se distraísse lendo.
     As damas logo o levaram para a moça, que imediatamente o abriu e leu: "Este é um livro mágico. Se virar as páginas no sentido certo, o homem se transforma em pássaro, e se virar as páginas ao contrário, o pássaro se transforma de novo em homem."
     A moça correu até a janela, pousou o livro no balcão e começou a virar as páginas às pressas, enquanto observava o jovem vestido de amarelo, em pé no meio da trilha.
     Ela viu quando o jovem vestido de amarelo mexia os braços, agitava as asas e se transformava em um canário. O canário alçava voo, eis que já era dono das alturas, acima das árvores, e eis que se dirigia a ela e pousava na almofada do balcão.
     A princesa não resistiu à tentação de pegar aquele belo canário na palma da mão e beijá-lo; depois lembrou que ele era um jovem e se envergonhou; a seguir, lembrou disso de novo e já não se envergonhou. Mas não via a hora de transformá-lo em um jovem como antes.
     Retomou o livro, folheou-o ao contrário, e eis que o canário arrepiava as penas amarelas, agitava as asas, mexia os braços e era outra vez o rapaz vestido de amarelo, com os trajes de caçador, que se ajoelhava aos pés dela e lhe dizia:
     - Eu te amo!
     Depois que declararam todo seu amor, já era noite. Lentamente, a princesa começou a virar as páginas do livro.
     O jovem, olhando-a nos olhos, se transformou outra vez em canário, pousou no balcão e depois nas telhas do beiral, entregou-se ao vento e desceu voando em grandes círculos, indo parar num ramo de árvore baixo.
     Então, ela virou as páginas ao contrário, o canário voltou a ser príncipe, o príncipe pulou para o chão, chamou os cães com um assobio, mandou um beijo em direção à janela e se afastou pela trilha.
     E, assim, todos os dias o livro era folheado para fazer o príncipe voar até a janela no alto da torre, folheado de novo para devolver-lhe forma humana, depois folheado outra vez para fazê-lo voar e folheado de novo para que pudesse voltar para casa. Os dois jovens nunca haviam sido tão felizes.
     Um dia, a rainha foi visitar a enteada. Passeou pelo aposento, dizendo sempre:
     - Você está bem, não? Acho que está um pouco magra, mas não é nada sério, não é verdade? Você nunca esteve tão bem, não?
     Entretanto, para certificar-se de que tudo estava sob controle, abriu a janela, olhou para fora e, na trilha lá embaixo, viu o príncipe vestido de amarelo que se aproximava com seus cães. "Se essa dengosa acha que pode bancar a sedutora na janela, vou lhe dar uma lição", pensou.
     Pediu para a jovem ir preparar um copo de água com açúcar. Assim que se viu sozinha, arrancou cinco ou seis alfinetes do penteado e os espetou na almofada, de modo que ficassem com as pontas para cima, mas sem serem notados. "Ela vai aprender a ficar debruçada no balcão!"
     A moça voltou com a água com açúcar, e ela disse:
     - Hum, passou a sede, beba você, queridinha! Tenho que voltar para perto de seu pai. Não está precisando de nada, não é? Então, adeus. - E foi embora.
     Logo que a carruagem da rainha se afastou, a moça virou rapidamente as páginas do livro, o príncipe se transformou em canário, voou até a janela e se lançou como uma flecha na almofada.
     Imediatamente se ouviu um agudo trinado de dor. As penas amarelas se tingiam de sangue, pois o canário enfiara os alfinetes no peito. Ergueu-se com um desesperado bater de asas, confiou-se ao vento, mergulhou num esvoaçar incerto e pousou no chão com as asas abertas.
     Assustada, sem saber exatamente o que acontecera, a princesa virou depressa as folhas ao contrário, esperando que, se lhe devolvesse a forma humana, os ferimentos desaparecessem.
     Porém, ai, ai, ai, o príncipe ressurgiu, jorrando sangue por profundas feridas que lhe dilaceravam no peito a roupa amarela. Jazia de bruços, cercado por seus cães.
     O ulular dos cães atraiu os caçadores, que o socorreram e o carregaram numa liteira de galhos, sem que pudesse ao menos alçar os olhos para a janela de sua amada, ainda aterrorizada de dor e espanto.
     Conduzido ao seu palácio, o príncipe não dava sinais de recuperação e os médicos não eram capazes de confortá-lo. As feridas não cicatrizavam e continuavam a doer.
     O rei, seu pai, espalhou cartazes por todos os cantos, prometendo tesouros a quem soubesse como curar o jovem; mas ninguém se apresentava.
     Entretanto, a princesa se consumia por não poder chegar perto do amado. Começou a cortar os lençóis em tiras finas e a amarrá-las de modo a fazer uma corda comprida. Com essa corda, certa noite, escapou da altíssima torre.
     Saiu andando pela trilha dos caçadores. Mas, entre a escuridão de breu e os uivos dos lobos, achou que era melhor esperar o amanhecer e, tendo encontrado um velho carvalho com o tronco oco, entrou e se acomodou lá dentro, adormecendo logo, cansada como estava.
     Quando despertou ainda era noite alta: pareceu-lhe ter ouvido um assobio. Apurou os ouvidos e escutou outro assobio, depois um terceiro e um quarto.
     Logo distinguiu quatro chamas de vela que se aproximavam. Eram quatro bruxas, que vinham dos quatro cantos do mundo, e haviam marcado encontro embaixo daquela árvore.
     Sem ser vista, a princesa espiava por uma fenda do tronco, vendo as quatro velhas com as velas nas mãos, que se faziam grandes festas e zombavam:
     - Uah! Uah! Uah!
     Acenderam uma fogueira junto à árvore e se sentaram para se aquecer e assar alguns morceguinhos para o jantar. Depois de comer bastante, começaram a contar umas às outras o que tinham visto de interessante pelo mundo.
     - Vi o sultão dos turcos que comprou vinte mulheres novas.
     - Vi o imperador dos chineses que deixou crescer o rabo-de-cavalo até alcançar três metros.
     - Vi o rei dos canibais que comeu o camareiro por engano.
     - Vi o rei daqui de perto que tem o filho doente e ninguém sabe a cura, porque só eu sei.
     - E qual é? - perguntaram as outras bruxas.
     - No aposento dele há um taco solto. Basta erguer o taco e se encontra uma ampola; na ampola há um unguento que fará desaparecer todas as feridas dele.
     De dentro da árvore, a princesa estava para dar um grito de alegria: teve de morder um dedo para ficar quieta.
     Quando já tinham dito tudo o que tinham para dizer, as bruxas se despediram e cada uma seguiu o seu caminho.
     A princesa pulou para fora da árvore e, ao amanhecer, se pôs a andar em direção à cidade.
Na primeira loja de coisas usadas que encontrou, comprou uma velha roupa de médico e uns óculos.
     Assim, disfarçada, foi bater no palácio real. Vendo aquele doutorzinho mal-ajambrado, os serviçais não queriam deixá-lo entrar, mas o rei disse:
     - De qualquer jeito não há de fazer mal a meu pobre filho, que pior do que está não pode ficar. Deixem este também tentar.
     O falso médico pediu que o deixassem sozinho com o doente, o que lhe foi concedido.
     Quando chegou à cabeceira do amado, que gemia inconsciente em sua cama, a princesa queria explodir em lágrimas e cobri-lo de beijos, mas se conteve, pois devia executar rapidamente as prescrições da bruxa.
     Pôs-se a andar de um lado para outro, até encontrar um taco solto: levantou-o e encontrou uma pequena ampola cheia de unguento.
     Com esse unguento, pôs-se a esfregar as feridas do príncipe; bastava passar a mão cheia de unguento em cima da ferida para que ela desaparecesse. Toda contente, chamou o rei, e o rei viu o filho sem feridas, com o rosto corado, que dormia tranquilamente.
     - Pegue o que quiser, doutor - disse o rei. - Todas as riquezas do tesouro do Estado são para o senhor.
     - Não quero dinheiro - disse o médico. - Dê-me apenas o escudo do príncipe com o brasão da família, a bandeira do príncipe e sua jaqueta amarela, aquela perfurada e cheia de sangue.
     E tendo recebido os três objetos, foi embora.
     Após três dias, o filho de rei saiu de novo para caçar. Passou perto do castelo, em meio ao bosque, mas nem levantou os olhos para a janela da princesa. Mas ela pegou o livro, folheou-o, e o príncipe, mesmo contrariado, foi obrigado a se transformar em canário.
     Voou até o aposento e a princesa o fez se transformar de novo em homem.
     - Deixe-me ir embora - disse ele -, não lhe basta ter me ferido com seus alfinetes e ter me causado tanto sofrimento?
     De fato, o príncipe perdera todo o amor pela moça, pensando que fosse ela a causadora de sua desgraça.
     A moça estava a ponto de desmaiar.
     - Mas eu o salvei! Fui eu quem o curou!
     - Não é verdade - disse o príncipe. - Fui salvo por um médico forasteiro, que não pediu outra recompensa além do meu brasão, da minha bandeira e da minha jaqueta ensanguentada!
     - Eis o seu brasão, eis a sua bandeira e eis a sua jaqueta! Era eu aquele médico! Os alfinetes foram uma crueldade da minha madrasta!
     O príncipe, atordoado, olhou-a nos olhos por um momento.
     Jamais lhe parecera tão linda. Caiu a seus pés, pedindo-lhe perdão e declarando toda sua gratidão e seu amor.
     Na mesma noite, disse ao pai que queria casar com a moça do castelo do bosque.
     - Você só pode desposar a filha de um rei ou de um imperador - disse o pai.
     - Desposo a mulher que me salvou a vida.
     E prepararam as núpcias, convidando todos os reis e as rainhas da região. Veio também o rei, pai da princesa, sem saber de nada. Quando viu se adiantar a noiva, exclamou:
     - Minha filha!
     - Como? - Disse o rei dono da casa. - A noiva de meu filho é sua filha? E porque não nos disse?
     - Porque - disse a noiva - não me considero mais filha de um homem que me deixou ser aprisionada por minha madrasta. - E apontou o indicador para a rainha.
     O pai, ao ouvir todas as desgraças da filha, foi tomado de pena por ela e de desdém pela sua pérfida mulher. Nem esperou voltar para casa para mandar prendê-la.
     E, assim, o casamento foi celebrado com satisfação e alegria por todos, exceto por aquela desgraçada.

Imagem: http://nati.deviantart.com/