terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mitologia romana: O nascimento e glória de Saturno

     Numa era muito antiga - tão antiga que antes dela só havia o caos - o mundo era governado pelo Céu, filho da Terra. Um dia, este, unindo-se à própria mãe, gerou uma raça de seres prodigiosos, chamados Titãs. Ocorre que o Céu - deus poderoso e nem um pouco clemente - irritou-se, certa feita, com as afrontas que imaginava receber de seus filhos. Por isto, decidiu encerrá-los nas profundezas do ventre da própria esposa, à medida que eles iam nascendo.
     - Aí ficarão para sempre, no ventre da Terra, para que nunca mais ousem desafiar a minha autoridade! - exclamou, colericamente, o deus soberano.
     A Terra, subjugada, teve de segurar em suas entranhas, durante muitas eras, aquelas turbulentas criaturas e suportar, ao mesmo tempo, o assédio insaciável e ininterrupto do marido. Um dia, porém, farta de tanta tirania, decidiu a mãe do mundo que um de seus filhos deveria libertá-la deste tormento. Para tanto escolheu Saturno, o mais jovem de seus rebentos.
     - Saturno, meu filho - disse a Terra, lavada em pranto - somente você poderá libertar-me da tirania de seu pai e conquistar para si o mando supremo do Universo!
     O jovem e ambicioso Titã sentiu um frêmito percorrer suas entranhas.
     - Diga, minha mãe, o que devo fazer para livrá-la de tamanha dor! - disse Saturno, disposto a tudo para chegar logo à segunda parte do plano.
     A Terra, erguendo uma enorme foice de diamante, entregou-a ao filho.
     "Tome e use-a da melhor maneira que puder!", disseram seus olhos, onde errava um misto de vergonha e esperança.
     Saturno apanhou a foice e não hesitou nem um instante: dirigiu-se logo para o local onde seu velho pai descansava. Ao chegar no azulado palácio erguido nos céus, encontrou-o ressonando sobre um grande leito acolchoado de nuvens.
     - Dorme, o tirano... - sussurrou baixinho.
     Saturno, depois de examinar por algum tempo o rosto do impiedoso deus, empunhou a foice e pensou consigo mesmo: "Realmente... demasiado soturno."
     E fez descer o terrível gume, logo abaixo da cintura do pobre Céu.
     Um grito terrível, como jamais se ouvira em todo o Universo, ecoou  na abóbada celestial, despertando toda a criação.
     - Quem ousou levantar mão ímpia contra o soberano do mundo? - gritou o Céu, com as mãos postas sobre a ensanguentada virilha.
     - Isto é pelos tormentos que infligiu à minha mãe, bem como a mim e a meus irmãos - respondeu Saturno, ainda a brandir a foice manchada de sangue.
     Os testículos do Céu, arrancados pelo golpe certeiro da foice, voaram longe e foram cair no oceano, com um baque tremendo. Em seguida, o deus ferido caiu, exangue, sobre seu leito acolchoado, sem poder dizer mais nada. As nuvens que lhe serviam de leito tingiram-se de um vermelho tal que durante o dia inteiro houve como que um infinito e escarlate crepúsculo. Saturno, eufórico, foi logo contar a proeza à sua mãe.
     - Isto é que é filho - disse a Terra, abraçada ao jovem parricida. Imediatamente foram soltos todos os outros Titãs, irmãos de Saturno. Este, por sua vez, recebeu a sua recompensa: era agora o senhor inconteste de todo o Universo.
     Quando a noite caiu, entretanto, escutou-se uma voz espectral descer da grande cúpula côncava dos céus:
     - Ai de você, rebento infame, que manchou a mão no sangue do seu próprio pai! Do mesmo modo que usurpou o mando supremo, irá também um dia perdê-lo...
     Saturno assustou-se a princípio, mas em seguida ordenou a seus pares que recomeçassem os festejos.
     - Ora, ameaçazinhas... Deus morto, deus posto! - exclamou, com um riso talhado no rosto.
     Mas aquela profecia, irritante como um mosquito, ficará ecoando na sua mente, até que Saturno, por fim, reconheceu-se também meio soturno:
     - Será que uma vitória, neste mundo, não pode ser nunca completa?

Imagem: Wikipédia.