terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Conto: Joãozinho-sem-medo / Autor: Ítalo Calvino

     Era uma vez um menino chamado Joãozinho-sem-medo, pois não tinha medo de nada. Andando pelo mundo pediu abrigo em uma hospedaria.
     - Aqui não tem lugar - disse o dono. - Mas, se você não tem medo, posso mandá-lo para um palácio.
     - Por que eu sentiria medo?
     - Porque ali todo mundo sente. Ninguém saiu de lá, a não ser morto. De manhã, a Companhia leva o caixão para carregar quem teve a coragem de passar a noite lá. 
     Imaginem Joãozinho! Levou um candeeiro, uma garrafa, uma linguiça, e lá se foi.
     À meia-noite, estava comendo sentado à mesa quando ouviu uma voz saindo da chaminé:
     - Jogo?
     E Joãozinho respondeu:
     - Jogue logo!
     Da chaminé desceu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho.
     Depois a voz tornou a perguntar:
     - Jogo?
     E Joãozinho:
     - Jogue logo!
     E desceu outra perna de homem. Joãozinho mordeu a linguiça. De novo:
     - Jogo?
     - Jogue logo!
     E desceu um braço. Joãozinho começou a assobiar.
      - Jogo?
     - Jogue logo!
     Outro braço.
      - Jogo?
     - Jogue!
     E caiu um corpo, que se colocou nas pernas e nos braços, ficando em pé um homem sem cabeça.
      - Jogo?
     - Jogue!
     Caiu a cabeça e pulou em cima do corpo. Era um homenzarrão gigantesco, e  Joãozinho levantou o copo dizendo:
     - À saúde!
     O homenzarrão disse:
     - Pegue o candeeiro e venha.
     Joãozinho pegou o candeeiro, mas não se mexeu.
     - Passe na frente! - disse Joãozinho.
     - Você! - disse o homem.
     - Você! - disse Joãozinho.
     Então, o homem se adiantou e, de sala em sala, atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando o caminho. Embaixo de uma escadaria havia uma portinhola.
     - Abra! - disse o homem a Joãozinho.
     E Joãozinho:
     - Abra você!
     E o homem abriu com um empurrão. Havia uma escada em caracol.
     - Desça - disse o homem.
     - Primeiro você - disse Joãozinho. 
     Desceram a um subterrâneo, e o homem indicou uma laje no chão.
     - Levante!
     - Levante você! - disse Joãozinho. E o homem a ergueu como se fosse uma pedrinha.
     Embaixo da laje havia três tigelas cheias de moedas de ouro.
     - Leve para cima! - disse o homem.
     - Leve para cima você! - disse Joãozinho. E o homem levou uma de cada vez para cima.
     Quando foram de novo para a sala da chaminé, o homem disse:
     - Joãozinho, quebrou-se o encanto!
     E arrancou-se uma perna, que saiu esperneando pela chaminé.
     - Destas tigelas, uma é sua.
     Arrancou-se um braço, que trepou pela chaminé.
     - Outra é para a Companhia, que virá buscá-lo pensando que está morto.
     Arrancou-se também o outro braço, que acompanhou o primeiro.
     - A terceira é para o primeiro pobre que passar.
     Arrancou-se outra perna e ele ficou sentado no chão.
     - Pode ficar com o palácio também.
     Arrancou-se o corpo e ficou só a cabeça no chão.
     - Porque se perdeu para sempre a estirpe dos proprietários deste palácio.
     E a cabeça se ergueu e subiu pelo buraco da chaminé.
     Assim que o céu clareou, ouviu-se um canto:
     - Miserere mei, miserere mei.
     Era a Companhia com o caixão, que vinha recolher Joãozinho morto. E o viram na janela, fumando cachimbo.
     Joãozinho-sem-medo ficou rico com aquelas moedas de ouro e morou feliz no palácio. Até um dia em que, ao se virar, viu sua sombra e levou um susto tão grande que morreu.

Imagem: http://jameshillgallery.deviantart.com/