quinta-feira, 14 de março de 2013

Crônica: Uma pedra no sapato / Autora: Maria Esther Torinho

     Pedra no sapato... imagem antiga, mas sempre presente, representando dificuldades, obstáculos, incômodos.
     Ela incomoda, machuca, irrita, mas temos de prosseguir. Por isso nos abaixamos depressa, removemos a pedrinha e a atiramos longe, com uma certa raiva pelo desconforto e, ao mesmo tempo, aliviados pela libertação.
     Quem já não sentiu o aborrecimento de caminhar com uma pedrinha, por menor que seja, debaixo dos pés?
     A vida é um amontoado de pedras, grandes, médias, pequenas, de formatos e proporções diferentes, mas sempre presentes. Algumas podem ser removidas com relativa facilidade, outras nem tanto. E existem aquelas que permanecem irredutíveis, em seu eterno e incompreensível prazer de nos ferir, nos atrapalhar.
     Há pessoas que se esforçam para remover pequenas e grandes pedras de seus sapatos, mesmo sabendo que nem sempre irão conseguí-lo; há outras que simplesmente deixam o tempo passar, acomodam-se elas e a pedra, na difícil situação, arranhando-se mutuamente.
     Crentes convictas e fanáticas da teoria de que "o tempo é o melhor remédio", vão deixando as pedras onde e como estão. Vão se ferindo, vão se machucando, mas cadê coragem para a necessária libertação?
     E a pedrinha, muitas vezes impotente para libertar-se por si mesma, ali fica, inerte, sofrendo as consequências de uma situação indesejável.
     Todos pensam na situação do pé que se fere ao contato da pedra, mas quem já se preocupou com a pedra, que se depara, por acaso ou por força das circunstâncias, debaixo dos nossos pés?
     O pé fica ali, machucado, irritado, doído, o que torna mais difícil a caminhada. E a pedrinha também fica ali, prisioneira ávida pela liberdade; desejando soltar-se, respirar o ar fresco da manhã, ver o pôr do sol, ouvir o canto dos pássaros, sentir o perfume das flores. Mas ficam ambos ali, prisioneiros um do outro. Nem o pé a liberta nem ela se livra sozinha. Lembram-me certas duplas que existem por aí: pai e filho, mãe e filha, que não se entendem, mas continuam presos um ao outro, esquecendo-se de viver cada um a própria vida.
     Lembram-me principalmente certos casais que se atormentam, mas não se separam. Onde a força para uma separação necessária, porém dolorosa?
     Não compreendem, nem o pé nem a pedra, que se martirizam mutuamente, que a sensação de liberdade, por si só, já vale o esforço e a dor da separação.
     Acham-se prisioneiros do destino, mas estão apenas acorrentados a si mesmos, simultaneamente vítimas e cúmplices do sofrimento que se impõem.
     Como romper as correntes, desfazer os nós, atirar longe essa pedrinha que tortura e magoa?
     E como poderá a pedrinha, constantemente calcada sob pés fortes, dar o salto decisivo rumo à liberdade?

Imagem: http://skeisy.tumblr.com/post/45134405124