quarta-feira, 24 de abril de 2013

Mitologia Grega: O mito de Sísifo

     A lenda de Sísifo está marcada para sempre pela imagem do homem condenado a arrastar uma imensa rocha morro acima, que sempre despenca tão logo ele chega ao topo. Mas este é apenas o fim da curiosa vida de Sísifo, personagem dos mais famosos.
     Sísifo era filho de Éolo, deus dos ventos e descendente direto de Prometeu. Importa muito saber isso, pois Prometeu é o primeiro de uma linhagem de notórios embusteiros (foi ele quem furtou o fogo dos deuses) que proliferarão por toda a mitologia. Sísifo, assim, não por nada, chegará a ser conhecido como o mais astucioso de todos os mortais. Antes que alcançasse este importante galardão, porém, fundou a cidade de Corinto - então chamada de Éfira - e dela tornou-se rei. Diz Homero que por ter sido um rei justo e pacífico teria acorrentado a própria Morte, despovoando o reino de Plutão e atraindo para si a ira daquele deus.
     Este personagem intrigante reivindica para si a glória de ser o verdadeiro pai de Ulisses, retirando assim esta honra das mãos de Laertes, seu presumido progenitor.
     Mas como se teria dado tal fato? A versão mais autorizada afirma que Sísifo, tendo chegado na véspera do casamento de Laertes com Anticléia (ela própria filha de Autólico, outro notório farsante), adiantara-se ao noivo e gerara Ulisses, desaparecendo em seguida, deixando a Laertes o encargo de criá-lo.
     Sísifo, tal como seu antepassado Prometeu, não tinha pudor algum de se meter nos assuntos divinos. Um dia estava em meio a um passeio quando observou a águia de Júpiter passar ao alto carregando Egina, filha de Asopo, em direção ao Olimpo. Esperando tirar algum proveito desta indiscrição, Sísifo correu logo até a corte do desesperado rei.
     - Asopo, vou ajudá-lo a encontrar sua bela filha - disse o temerário Sísifo-, mas em troca quero sua palavra de que fornecerá a Corinto uma fonte límpida de água.
     - Está bem, farei brotar uma nascente na sua cidade! - respondeu o angustiado rei. - Mas isto somente se você der um jeito de encontrar a minha filha.
     - Sua filha foi raptada pela águia de Júpiter e levada para uma distante ilha. Júpiter, que tudo viu lá do Olimpo, não tardou de descarregar sobre Sísifo sua fúria implacável e ordenou que a própria Morte fosse no encalço do intrometido.
     A Morte foi dar cumprimento imediato à ordem do deus supremo, porém, quando chegou para agarrar Sísifo, este não só conseguiu fugir dela como fez dela seu prisioneiro, fazendo jus desta forma à sua fama de mais ardiloso dos mortais. Foi daí, decerto, que surgiu a lenda de que Sísifo teria despovoado os infernos. Mas Júpiter, a instâncias de Plutão, acabou por resgatar a Morte das mãos de Sísifo por intermédio de Marte, o belicoso deus da guerra.
     Tão logo a Morte viu-se libertada de sua vexatória sujeição, Júpiter precipitou Sísifo no Tártaro, a masmorra dos infernos. Mas Sísifo não seria Sísifo se não tivesse dado um jeito de escapar desta, também. Assim, antes de ser levado para o Tártaro sombrio, deu um jeito de planejar um truque com sua esposa.
     - Prometa que não irá me prestar as devidas honras fúnebres - dissera ele à esposa antes de descer às regiões infernais.
     Assim, quando Sísifo se viu nos infernos, foi imediatamente ter com Plutão:
     - Oh, Plutão, senhor da mansão subterrânea! Não pode calcular o quanto me arrependo por ter interferido nos atos do pai dos deuses! Mas, veja, como poderei permanecer aqui se minha desgraçada mulher fez a mim uma afronta muito maior do que qualquer uma que eu tenha feito aos deuses? Por favor, deixe-me voltar lá para cima e ajeitar as coisas nesse sentido; prometo que, tão logo tenha resolvido tudo, estarei aqui de volta.
     - Está bem, está bem... - disse Plutão, coçando a cabeça. - Mas não demore a voltar, pois do contrário o trarei de volta, e da maneira mais vexatória possível.
     Sísifo, feliz, retornou ao convívio dos vivos e, sem ligar a mínima para a promessa, ainda esteve neste mundo até a mais avançada velhice. Quanto ao deus dos infernos, ocupado em repovoar os seus domínios, acabou por esquecê-lo.
     Mas o enganador, cedo ou tarde, também acaba enganado. Um dia Sísifo descobriu que seu vizinho Autólico, filho de Hermes, vinha furtando o seu gado.
     - Estranho! Enquanto meu rebanho diminui, o de Autólico aumenta! - dizia o rei do Corinto, encafifado.
     Depois de muito matutar, Sísifo teve, afinal, uma brilhante ideia: a de marcar os cascos de cada animal com letras, de modo que, à medida que o gado se afastasse de seu curral, iria deixando impressa no chão a frase "Autólico me furtou"...
     Autólico, entretanto, tão logo se viu flagrado, tratou de devolver as reses.
     - Sísifo, você é o maior! - disse o ladrão de gado, encantado com a astúcia do rival, pois Autólico era, antes de mais nada, a exemplo de Sísifo, um amante do belo logro.
     Assim ficaram ambos amigos. E foi daí que Sísifo, dizem as más línguas, deve ter tido acesso ao leito da filha de Autólico, a bela Anticléia, o que resultou no nascimento de Ulisses.
     Um dia, entretanto, a vida de Sísifo chegou ao seu termo, como chegam a de todos os mortais. Júpiter resolvera pôr um fim às suas velhacarias e puni-lo pelas suas afrontas. Sísifo foi então precipitado ao Tártaro - desta vez em definitivo - e condenado a rolar uma enorme rocha até o alto de uma escarpada montanha. Tão logo chega ao cume, despenca, obrigando Sísifo a recomeçar o estafante trabalho, o qual se repete para todo o sempre.

Imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADsifo