segunda-feira, 1 de abril de 2013

Poesia: Testamento / Autor: Vinícius de Moraes

Você que só ganha pra juntar
O que é que há
Diz pra mim o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar.
Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Pois é, amigo, como se dizia

antigamente, o buraco é mais
embaixo...

E você com todo o seu baú vai

ficar por lá na mais total solidão
Pensando à beça que não levou
nada do que juntou: só seu
terno de cerimônia.
Que fossa, hein meu chapa, que fossa!

Você que não pára pra pensar

Que o tempo é curto
E não pára de passar
Você vai ver um dia
Que remorso! Como é bom parar.
Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar.

Mas você, que esperança!
Bolsa, títulos, capital de giro,
public relations (e tome gravata!)
protocolo, comendas, caviar,
champanhe (e tome gravata!)
o amor sem paixão, o corpo
sem alma, o pensamento sem
espírito (e tome gravata!)
E lá um belo dia o enfarte ou,
pior ainda, o psiquiatra.

Você que só faz usufruir
E tem mulher
pra usar ou pra exibir
Você vai ver um dia
Em que toca você foi bulir.
A mulher foi feita
Pro amor e pro perdão
Cai nessa, não, cai nessa, não.

Você, por exemplo, que está aí
com a boneca do seu lado,
linda e chiquérrima,
crente que é o amor e o senhor
do material.
É, amigo, mas ela anda longe, perdida
num mundo lírico e confuso,
cheio de canções, aventura e magia.
E você nem sequer toca a sua alma.
É as mulheres são muito 
estranhas, muito estranhas...

Você que não gosta de gostar
Pra não sofrer
Pra não sorrir e não chorar
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar!
Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo irmão! É fogo irmão!


Imagem: http://pinterest.com/pin/176484879117641936/