sábado, 29 de junho de 2013

Conto: Chapeuzinho Vermelho / Autores: Irmãos Grimm

     Era uma vez, numa pequena cidade às margens da floresta, uma menina de olhos negros e louros cabelos cacheados, tão graciosa quanto valiosa.
     Um dia, com um retalho de tecido vermelho, sua mãe costurou para ela uma curta capa com capuz; ficou uma belezinha, combinando muito bem com os cabelos louros e os olhos negros da menina.
     Daquele dia em diante, a menina não quis mais saber de vestir outra roupa, senão aquela e, com o tempo,  os moradores da vila passaram a chamá-la de "Chapeuzinho Vermelho".
     Além da mãe, Chapeuzinho Vermelho não tinha outros parentes, a não ser uma avó bem velhinha, que nem conseguia mais sair de casa. Morava numa casinha, no interior da mata.
     De vez em quando ia lá visitá-la com sua mãe, e sempre levavam alguns mantimentos.
     Um dia, a mãe da menina preparou algumas broas das quais a avó gostava muito mas, quando acabou de assar os quitutes, estava tão cansada que não tinha mais ânimo para andar pela floresta e levá-las para a velhinha.
     Então, chamou a filha:
     - Chapeuzinho Vermelho, vá levar essas broinhas para a vovó, ela gostará muito. Disseram-me que há alguns dias ela não passa bem e, com certeza, não tem vontade de cozinhar.
     - Vou agora mesmo, mamãe.
     - Tome cuidado, não pare para conversar com ninguém e vá direitinho, sem desviar do caminho certo. Há muitos perigos na floresta!
     - Tomarei cuidado, mamãe, não se preocupe.
     A mãe arrumou as broas em um cesto e colocou também um pote de geleia e um tablete de manteiga. A vovó gostava de comer as broinhas com manteiga fresquinha e geleia.
     Chapeuzinho Vermelho pegou o cesto e foi embora. A mata era cerrada e escura. No meio das árvores somente se ouvia o chilrear de alguns pássaros e, ao longe, o ruído dos machados dos lenhadores.
     A menina ia por uma trilha quando, de repente, apareceu-lhe na frente um lobo enorme, de pelo escuro e olhos brilhantes.
     Olhando para aquela linda menina, o lobo pensou que ela devia ser macia e saborosa. Queria mesmo devorá-la num bocado só. Mas não teve coragem, temendo os cortadores de lenha que poderiam ouvir os gritos da vítima. Por isso, decidiu usar de astúcia.
     - Bom dia, linda menina - disse com voz doce.
     - Bom dia - respondeu Chapeuzinho Vermelho.
     - Qual é seu nome?
     - Chapeuzinho Vermelho.
     - Um nome bem certinho para você. Mas diga-me, Chapeuzinho Vermelho, onde está indo assim tão só?
     - Vou visitar minha avó, que não está muito bem de saúde.
     - Muito bem! E onde mora sua avó?
     - Mais além, no interior da mata.
     - Explique melhor, Chapeuzinho Vermelho.
     - Numa casinha com as venezianas verdes, logo após o velho engenho de açúcar.
     O lobo teve uma ideia e propôs:
     - Gostaria de ir também visitar sua avó doente. Vamos fazer uma aposta, para ver quem chega primeiro. Eu irei por aquele atalho lá abaixo, e você poderá seguir por este.
     Chapeuzinho Vermelho aceitou a proposta.
     - Um, dois, três, e já! - gritou o lobo.
     Conhecendo a floresta tão bem quanto seu nariz, o lobo escolhera para ele o trajeto mais breve, e não demorou muito para alcançar a casinha da vovó.
     Bateu à porta o mais delicadamente possível, com suas enormes patas.
     - Quem é? - perguntou a avó.
     O lobo fez uma vozinha doce, doce, para responder:
     - Sou eu, sua netinha, vovó. Trago broas feitas em casa, um vidro de geleia e manteiga fresca.
     A boa velhinha, que ainda estava deitada, respondeu:
     - Puxe a tranca, e a porta se abrirá.
     O lobo entrou, chegou ao meio do quarto com um só pulo e devorou a pobre avozinha, antes que ela pudesse gritar.
     Em seguida, fechou a porta. Enfiou-se embaixo das cobertas e ficou à espera de Chapeuzinho Vermelho.
     A essa altura, Chapeuzinho Vermelho já tinha esquecido do lobo e da aposta sobre quem chegaria primeiro. Ia andando devagar pelo atalho, parando aqui e acolá: ora era atraída por uma árvore carregada de pitangas, ora ficava observando o voo de uma borboleta, ou ainda um ágil esquilo. Parou um pouco para colher um maço de flores do campo, encantou-se a observar uma procissão de formigas e correu atrás de uma joaninha.
     Finalmente, chegou à casa da vovó e bateu de leve na porta.
     - Quem está aí? - perguntou o lobo, esquecendo de disfarçar a voz.
     Chapeuzinho Vermelho se espantou um pouco com a voz rouca, mas pensou que fosse porque a vovó ainda estava gripada.
     - É Chapeuzinho Vermelho, sua netinha. Estou trazendo broinhas, um pote de geleia e manteiga bem fresquinha!
     Mas aí o lobo se lembrou de afinar a voz cavernosa antes de responder:
     - Puxe o trinco, e a porta se abrirá.
     Chapeuzinho Vermelho puxou o trinco e abriu a porta. O lobo estava escondido, embaixo das cobertas, só deixando aparecer a touca que a vovó usava para dormir.
     Coloque as broinhas, a geleia e a manteiga no guarda-comida, minha querida netinha, e venha aqui, até minha cama. Tenho muito frio, e você me ajudará a me aquecer um pouquinho.
     Chapeuzinho Vermelho obedeceu e se enfiou embaixo das cobertas. Mas estranhou o aspecto da avó. Antes de tudo, estava muito peluda! Seria efeito da doença? E foi reparando:
     - Oh, vovozinha, que braços longos você tem!
     - São para abraçá-la melhor, minha querida menina!
     - Oh, vovozinha, que olhos grandes você tem!
     - São para enxergar também no escuro, minha menina!
     - Oh, vovozinha, que orelhas compridas você tem!
     - São para ouvir tudo, queridinha!
     - Oh, vovozinha, que boca enorme você tem!
     - É para engolir você melhor!!!
     Assim dizendo, o lobo mau deu um pulo e, num movimento só, comeu a pobre Chapeuzinho Vermelho.
     - Agora estou realmente satisfeito - resmungou o lobo. Estou até com vontade de tirar uma soneca, antes de retomar meu caminho.
     Voltou a se enfiar embaixo das cobertas, bem quentinho. Fechou os olhos e, depois de alguns minutos, já roncava. E como roncava! Uma britadeira teria feito menos barulho.
     Algumas horas mais tarde, um caçador passou em frente à casa da vovó, ouviu o barulho e pensou: "Olha só como a velhinha ronca! Estará passando mal!? Vou dar uma espiada."
     Abriu a porta, chegou perto da cama e... quem ele viu? O lobo, que dormia como uma pedra, com uma enorme barriga parecendo um grande balão!
     O caçador ficou bem satisfeito. Há muito tempo estava procurando esse lobo, que já matara muitas ovelhas e cordeirinhos.
     - Afinal você está aqui, velho malandro! Sua carreira terminou. Já vai ver!
     Enfiou os cartuchos na espingarda e estava pronto para atirar, mas então lhe pareceu que a barriga do lobo estava se mexendo e pensou: "Aposto que este danado comeu a vovó, sem nem ter o trabalho de mastigá-la! Se foi isso, talvez eu ainda possa ajudar!".
     Guardou a espingarda, pegou a tesoura e, bem devagar, bem de leve, começou a cortar a barriga do lobo ainda adormecido.
     Na primeira tesourada, apareceu um pedaço de pano vermelho, na segunda, uma cabecinha loura, na terceira, Chapeuzinho Vermelho pulou fora.
     - Obrigada, senhor caçador, agradeço muito por ter me libertado. Estava tão apertado lá dentro, e tão escuro... Faça outro pequeno corte, por favor, assim poderá libertar minha avó, que o lobo comeu antes de mim.
     O caçador recomeçou seu trabalho com a tesoura, e da barriga do lobo saiu também a vovó, um pouco estonteada, meio sufocada, mas viva.
     - E agora? - perguntou o caçador. - Temos de castigar esse bicho como ele merece!
     Chapeuzinho Vermelho foi correndo até a beira do córrego e apanhou uma grande quantidade de pedras redondas e lisas. Entregou-as ao caçador que arrumou tudo bem direitinho, dentro da barriga do lobo, antes de costurar o cortes que havia feito.
     Em seguida, os três saíram da casa, se esconderam entre as árvores e aguardaram.
     Mais tarde, o lobo acordou com um peso estranho no estômago. Teria sido indigesta a vovó? Pulou da cama e foi beber água no córrego, mas as pedras pesavam tanto que, quando se abaixou, ele caiu na água e ficou preso no fundo do córrego.
     O caçador foi embora contente e a vovó comeu com gosto as broinhas. Chapeuzinho Vermelho prometeu a si mesma nunca mais esquecer os conselhos da mamãe: "Não pare para conversar com ninguém, e vá em frente pelo seu caminho."

Imagem: http://scottgustafson.com/